Proibir o aborto está longe de ser uma medida "pró-vida"

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Robyn Beck/AP

    Duas mulheres se beijam durante protesto a favor do aborto em Charlotte, Carolina do Norte

    Duas mulheres se beijam durante protesto a favor do aborto em Charlotte, Carolina do Norte

Ultimamente, os conservadores linha-dura alcançaram novos paroxismos em sua oposição ao aborto. Na semana passada, Richard Mourdock, candidato republicano ao Senado por Indiana apoiado pelo Tea Party, declarou, durante um debate, ser contra o aborto, mesmo em caso de estupro, porque, depois de muito pensar, ele "percebeu que a vida é um presente divino. E, mesmo quando a vida começa nessa situação horrível que é o estupro, isso é algo que Deus desejou que acontecesse". Essa declaração ocorreu na esteira da afirmação de Joe Walsh, deputado republicano do Illinois também apoiado pelo Tea Party, proferida durante um debate recente.

Walsh disse que se opõe ao aborto, mesmo em casos nos quais a vida da mãe corre perigo, pois "com a tecnologia e ciência modernas, não é possível encontrar nenhum caso" em que uma mulher só sobreviveria se fizesse um aborto. "A saúde da mãe se tornou uma ferramenta para o aborto a qualquer momento e por qualquer motivo", disse Walsh. Por sua vez, essa declaração foi dada após o deputado Todd Akin, que espera a se eleger ao Senado pelo Estado de Missouri, ter dito que a gravidez como resultado de um "estupro legítimo" é rara, pois "o corpo feminino tem maneiras para tentar se fechar e se proteger contra um evento como esse".

Esses não são lapsos linguísticos. Essas são vozes autênticas da base da extrema direita republicana, que se mostra cada dia mais assertiva e que tem a intenção de utilizar posições inflexíveis sobre o aborto para não apenas derrubar os republicanos posicionados mais ao centro - Mourdock derrotou o senador republicano moderado Richard Lugar, de Indiana, nas prévias -, mas também para derrubar o consenso que predomina nos Estados Unidos a respeito dessa questão. Esse consenso diz que aqueles que optam por se opor ao aborto em suas próprias vidas por razões relacionadas à fé ou à filosofia devem ser respeitados. Mas ele também diz que a mulher que desejar fazer uma escolha pessoal diferente sobre o que acontece com seu próprio corpo também deve ser respeitada – e tem proteção legal para fazê-lo.

Mas, a julgar pelas declarações não-científicas - e totalmente malucas - que se opõem ao aborto e que temos ouvido ultimamente, há razão para acreditarmos que esse delicado equilíbrio pode estar ameaçado caso Mitt Romney e o deputado Paul Ryan - e seus aliados ainda mais extremistas - sejam eleitos. Então, para aqueles que querem proteger o direito das mulheres de controlar o que acontece com seus próprios corpos, deixem-me oferecer apenas um conselho: dar nome a alguma coisa representa se apropriar dessa coisa. Se você é capaz de nomear um determinado problema, você é capaz de se apropriar dele. E nós temos que impedir os republicanos de se autodenominarem "pró-vida" e de denominarem os democratas como "pró-escolha". Essa é uma distorção enorme.

No meu mundo, você não pode se denominar "pró-vida" e se opor ao controle de armas definido pelo senso comum - como a proibição de acesso público a rifles de assalto semiautomáticos, projetados para a guerra, igual ao que foi usado recentemente em um cinema do Colorado. Você não pode se denominar "pró-vida" e querer fechar a Agência de Proteção Ambiental, que garante ar puro e água limpa, evita a asma infantil, preserva a biodiversidade e combate as mudanças climáticas que podem colocar em risco a existência de todas as formas de vida do planeta.

Você não pode se denominar "pró-vida" e se opor a programas como o Head Start, que oferece educação básica, saúde e alimentação para as crianças mais desfavorecidas. Mas você pode se denominar um "conservador pró-concepção para o nascimento, mas indiferente à vida". Eu nunca vou chamar de "pró-vida" alguém que faz piquete contra o programa Planned Parenthood * e que faz lobby contra as leis relacionadas ao controle de armas regido pelo senso comum.

"Pró-vida" só pode significar uma coisa: "respeito pela santidade da vida". E de forma nenhuma o respeito pela santidade da vida pode significar que somos obrigados a proteger cada óvulo fecundado no ovário de cada mulher, não importando como esse óvulo foi fertilizado e, ao mesmo tempo, significar que não somos obrigados a proteger cada pessoa viva de ser baleada por uma arma automática. Eu não tenho nenhum respeito por alguém que confia na ciência vodu para declarar que o corpo da mulher é capaz de distinguir um estupro "legítimo" de uma relação sexual consensual, e que, em seguida, afirma que o aquecimento global é apenas uma brincadeira - mesmo após 99% de todos os cientistas que estudam o clima terem concluído que as mudanças climáticas representam um perigo para a santidade de todas as formas de vida do planeta.

O termo "pró-vida" deve ser um atalho para definir o respeito pela santidade da vida. Mas eu não vou deixar que esse rótulo seja usado para definir pessoas para quem a santidade de vida começa na concepção e termina no momento do nascimento. E o restante da vida? O respeito pela santidade da vida, se você acredita que ela começa no momento da concepção, não pode terminar no nascimento. Esse estreitamento radical de nossa preocupação com a santidade da vida está levando a distorções terríveis em nossa sociedade.

O respeito pela vida tem que incluir o respeito a como a vida é vivida, melhorada e protegida - e não apenas no momento da concepção, mas depois, no decorrer dessa mesma vida. É por isso que, para mim, o político mais "pró-vida" dos EUA é a do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg. Além de apoiar o direito da mulher de escolher, ele também utilizou sua posição para promover todo um conjunto de políticas que melhoraram a qualidade de vida de todos - desde sua proibição ao fumo em bares e parques da cidade, destinada a reduzir a incidência de câncer, sua proibição à venda, em Nova York, de bebidas açucaradas tamanho família com a intenção de combater a obesidade e o diabetes e sua exigência de que redes de restaurantes exibissem o total de calorias dos itens de seus cardápios até seu esforço para restabelecer a proibição federal - já expirada - relacionada ao porte e à comercialização de armas de assalto e instituir outras formas de controle de armas baseadas no senso comum, seu apoio à educação infantil e suas medidas destinadas a mitigar as mudanças climáticas.

Isso é o que eu chamo de "pró-vida".

Eleições 2012 nos EUA
Eleições 2012 nos EUA

*A Planned Parenthood Federation of America (PPFA), nome comumente abreviado para Planned Parenthood, é a filial norte-americana da International Planned Parenthood Federation (IPPF). A PPFA é uma organização sem fins lucrativos que oferece serviços relacionados à saúde reprodutiva, materna e infantil. A Planned Parenthood Action Fund, Inc. (PPAF) é uma organização relacionada à PPFA que faz lobby pela legislação pró-escolha (ou seja, pelo direito das mulheres de escolher se desejam ou não abortar), pela educação sexual abrangente e pelo acesso à assistência médica acessível nos Estados Unidos.

Tradutor: Cláudia Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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