Você acha que 2016 foi um ano inacreditável porque não se lembra de 2007

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Paul Sakuma - 9.jan.2007/AP

    Iphone foi apresentado por Jobs em janeiro de 2007 e chegou às lojas em junho do mesmo ano

    Iphone foi apresentado por Jobs em janeiro de 2007 e chegou às lojas em junho do mesmo ano

A escolha dos britânicos de saírem da União Europeia constitui, juntamente com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, um único grande acontecimento político —um que faz de 2016 um ano histórico, a ser estudado por muito tempo pela frente. Grandes acontecimentos políticos têm grandes causas. Nos últimos três anos estive trabalhando em um livro sobre o que tem acontecido por baixo da superfície —nos encanamentos e na fiação do mundo— e que tem agitado a política em tantos lugares. Minha resposta começa com uma pergunta: que diabos aconteceu por volta de e em 2007?

2007? Foi um ano tão inócuo! Mas olhe com atenção.

Steve Jobs e a Apple lançaram o primeiro iPhone em 2007, dando início à revolução do smartphone que agora está colocando um computador com conexão à internet nas mãos de cada um neste planeta. No final de 2006, o Facebook, que antes era limitado a universidades e colégios, foi aberto para qualquer um que tivesse um endereço de e-mail e estourou no mundo inteiro. O Twitter foi criado em 2006, mas decolou em 2007. Em 2007, o Hadoop, o mais importante software do qual você nunca ouviu falar, começou a expandir a capacidade de qualquer empresa armazenar e analisar quantias enormes de dados não estruturados. Isso ajudou a possibilitar o Big Data e a computação em nuvem. De fato, "a nuvem" realmente decolou em 2007.

Em 2007, o Kindle deu o pontapé inicial na revolução do e-book e o Google introduziu o Android. Em 2007, a IBM lançou o Watson, o primeiro computador cognitivo do mundo que hoje consegue entender praticamente qualquer artigo escrito sobre o câncer e sugerir aos médicos diagnósticos altamente precisos e opções de tratamento. E vocês já deram uma olhada em um gráfico do custo de se sequenciar um genoma humano? Ele começa em US$ 100 milhões, no início dos anos 2000, e vai caindo drasticamente a partir de 2007.

O custo de fabricação de painéis solares começou a cair bruscamente em 2007. O Airbnb foi concebido em 2007 e o change.org começou em 2007. O GitHub, hoje a maior biblioteca de compartilhamento de softwares de código aberto do mundo, foi lançado em 2007. E em 2007 a Intel introduziu pela primeira vez materiais diferentes do silício em seus transistores de microchip, estendendo assim a duração da Lei de Moore—a  expectativa de que a potência dos microchips dobre mais ou menos a cada dois anos. Como resultado, o crescimento exponencial do poder de computação continua até hoje. Por fim, em 2006, a internet ultrapassou em muito a marca de um bilhão de usuários em todo o mundo.

Com o tempo, 2007 poderá ser visto como um dos maiores pontos de inflexão tecnológica da história. E ignoramos completamente isso.

Por quê? Por causa de 2008.

Sim, justamente quando nossas tecnologias físicas davam um salto, boa parte do que o economista de Oxford Eric Beinhocker chama de nossas "tecnologias sociais" —todas as regras, regulações, instituições e ferramentas sociais das quais as pessoas precisam para extrair o máximo dessa aceleração tecnológica e amortecer o pior— estagnou ou ficou para trás.

Mesmo em bons tempos, as tecnologias sociais têm dificuldades para acompanhar as tecnologias físicas, mas com a Grande Recessão de 2008 e a paralisia política gerada por ela, essa discrepância virou um abismo. Muitas pessoas ficaram deslocadas no processo.

E como poderia ser diferente? O que aconteceu por volta de 2007 foi que a conectividade e a computação ficaram tão rápidas, tão baratas, tão onipresentes e melhores que elas mudaram três formas de poder —de maneiras realmente diferenciadas— de uma só vez: o poder do indivíduo, o poder das máquinas e o poder das ideias.

O que um indivíduo ou um pequeno grupo conseguem fazer agora —o poder do indivíduo— para construir ou destruir coisas é fenomenal. Quando Trump quer ser ouvido, ele agora envia sua mensagem diretamente a partir de sua cobertura em Nova York a partir do Twitter para mais de 15 milhões de seguidores a qualquer hora do dia. E o Estado Islâmico faz o mesmo a partir de uma província remota na Síria. As máquinas hoje conseguem não somente vencer humanos no jogo "Jeopardy!" ou no xadrez, elas estão começando a se tornar realmente criativas, oferecendo projetos arquitetônicos e outros e escrevendo histórias, músicas e poesias novas que são indistinguíveis do trabalho de um humano.

Ao mesmo tempo, as ideias agora fluem digitalmente através de redes sociais em todo o mundo, mais rápido e mais longe do que nunca. Como resultado, novas ideias (incluindo notícias falsas) podem de repente se fincar, e ideias antigas —como oposição ao casamento gay ou a direitos transgêneros— podem de repente se desfazer.

Então se você olha para baixo a partir de uma altura de 30 mil pés, você vê que a tecnologia, a globalização e, eu acrescentaria, a Mãe Natureza (em especial a mudança climática, a perda de biodiversidade e o impacto do crescimento da população) estão todos se acelerando ao mesmo tempo, e alimentando-se uma das outras: mais Lei de Moore leva a mais globalização e mais globalização leva a mais mudança climática. E, juntas, a mudança climática e a conectividade digital levam a mais migração humana.

Recentemente conheci refugiados econômicos e climáticos na África Ocidental que deixaram claro para mim que eles não queriam ajuda de um show de rock na Europa. Eles querem ir para a Europa que eles veem em seus celulares —e estão usando o WhatsApp para organizar grandes redes ilícitas de imigração para chegar lá.

Então não é de se espantar que no Ocidente muitos se sintam à deriva. Eles sentem que as duas coisas que os ancoravam no mundo —sua comunidade e seu emprego— estão desestabilizadas. Eles vão ao mercado e alguém ali fala com eles em uma língua diferente ou está usando a cabeça coberta. Eles vão ao banheiro masculino e alguém ao lado deles parece ser de um gênero diferente. Eles vão para o trabalho e agora há um robô sentado ao lado deles que parece estar analisando seu trabalho. Eu celebro essa diversidade de pessoas e ideias, mas para muitos outros elas vieram mais rápido do que eles estão conseguindo se adaptar.

É por isso que minha música preferida ultimamente é a maravilhosa balada de Brandi Carlile chamada "The Eye", cujo principal refrão é: "Amarrei seu amor em mim como uma corrente/Mas nunca tive medo de que ele fosse morrer/Você pode dançar em um furacão/Mas só se você estiver no olho dele."

Essas acelerações na tecnologia, na globalização e na Mãe Natureza são como um furacão dentro do qual todos nós estamos sendo convidados a dançar. Trump e os defensores do Brexit sentiram a ansiedade em muitos e prometeram construir um muro contra esses ventos uivantes da mudança. Eu discordo. Acho que o desafio é encontrar o olho.

Para mim, isso se traduz na construção de comunidades saudáveis que sejam flexíveis o suficiente para se mover junto com essas acelerações e extrair energia delas —mas que também forneçam uma plataforma de estabilidade dinâmica para cidadãos dentro delas. Falaremos mais sobre isso outro dia.

Tradutor: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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