Sobre as almas dos animais

Umberto Eco

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  • Peter Kollanyi/EFE

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A editora italiana Einaudi lançou recentemente uma ótima antologia de textos antigos sobre a "alma dos animais". Aparentemente, não fomos os primeiros a ficar obcecados por nossos cães ou adotar dietas vegetarianas para evitar matar seres animados. Segundo a antologia "L' Anima Degli Animali" ("A alma dos animais", em tradução livre), pensadores e escritores lidam com o conceito da racionalidade animal há milênios. Por exemplo, no texto "Historia Animalium" ("História dos Animais"), Aristóteles diz que muitas feras exibem sinais de possuir qualidades mentais –-de que são capazes de demonstrar gentileza, coragem, timidez, medo, astúcia e até algo semelhante a sabedoria.

Nos círculos estóicos, uma história atribuída por unanimidade a Crisipo desfrutava de grande popularidade. A versão mais conhecida estava relacionada a Sexto Empírico, que nos conta sobre um cão que chega a um ponto onde três estradas se encontram. Tendo deduzido, graças ao seu faro, que sua presa não tinha tomado duas das estradas, o cão decidiu que deveria tomar a terceira. Isso provava que o cão podia raciocinar segundo princípios lógicos.

Outro texto seminal incluído na antologia é "De Sollertia Animalium" ("Sobre a Inteligência dos Animais") de Plutarco. Apesar de ele admitir que o raciocínio dos animais é menos perfeito que o humano, Plutarco nota que vários graus de perfeição também podem ser encontrados na humanidade (uma forma elegante de insinuar que há homens e mulheres que raciocinam como bestas). Em outro texto, "Bruta Animalia Ratione Uti" ("Animais são racionais"), Plutarco responde àqueles que faziam objeção a atribuir razão a criaturas sem uma noção nata do divino comentando que Sísifo era ateísta.

A antologia também oferece um argumento ponderado contra comer carne. Em "De Abstinentia" ("Da abstinência do alimento animal"), Porfírio escreveu que acreditava que os animais expressavam seus sentimentos, e o fato de não entendermos esses sentimentos não é mais surpreendente do que o fato de não entendermos a língua dos citas ou dos indianos.

É uma pena que "L' Anima Degli Animali" termine com Porfírio. Seria interessante ler uma antologia mais ampla que incluísse os debates sobre a razão animal que se seguiram ao texto antigo de Porfírio. Essa coleção incluiria os belos textos de Montaigne e Descartes, assim como longas polêmicas por Leibniz, Locke, More, Rousseau e outros.

A posição mecânica da questão da razão animal –-um argumento que reduz todas as funções biológicas aos seus processos físicos ou químicos concomitantes-– evita muitas das questões morais problemáticas que cercam a crueldade contra os animais já que, é claro, você não pode ser cruel com uma máquina. Mas entre os séculos 17 e 18, muitos passaram a fazer objeção a essa posição, dizendo que a diferença entre homem e animal era apenas de grau, portanto abrindo uma perspectiva que de lá para cá passou a ser vista como proto-evolucionista: a vida como um contínuo ininterrupto, em constante evolução, entre a "res extensa" (o corpo) e a "res cogitans" (a alma ou a mente).

Uma das contribuições mais curiosas a este debate nos vem por cortesia do reverendo Guillaume-Hyacinthe Bougeant, um jesuíta que em 1739 publicou seu "Amusement philosophique sur le langage des bêtes" ("Passatempo filosófico sobre a linguagem dos animais", em tradução livre). Bougeant parecia apenas estar se divertindo, mas seu ponto de vista ainda assim é curioso: se você admite que os animais demonstram comportamento inteligente –-que conversam entre si e se comunicam com os humanos-– eles também têm um paraíso e inferno reservado para eles? A resposta de Bougeant era de que os animais eram habitados por demônios que os forçavam a experimentar seu próprio inferno na terra. Bougeant argumentava que isso explicava por que os animais eram tão maus (por que não se pode confiar em gatos e os insetos devoravam uns aos outros), e por que estavam condenados a sofrer nas mãos dos seres humanos.

A ideia de Bougeant foi indiretamente contradita em sua própria época pelo advogado e escritor Paolo De Benedetti. Em "Teologia Degli Animali" ("Teologia dos Animais"), ele argumenta que o direito à vida eterna é reivindicado aos animais. De Benedetti já comentou que o que é realmente difícil é acreditar que o paraíso de fato exista, não que –assim que você chegar lá– não poderá contar com seu gato no seu colo.

(Umberto Eco é autor dos best-sellers internacionais "Baudolino", "O Nome da Rosa" e o "Pêndulo de Foucault", entre outros.)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Umberto Eco

Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".

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