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Anderson Baltar


Cristo renascido no morro da Mangueira: o novo desafio de Leandro Vieira

Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira - Bruna Prado/UOL
Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira Imagem: Bruna Prado/UOL
Anderson Baltar

Anderson Baltar é jornalista, formado pela UFRJ e tem 42 anos. Com mais de 15 anos de experiência na mídia carnavalesca, foi assessor de imprensa da União da Ilha e Império Serrano, produtor de Carnaval da TV Globo e trabalhou em coberturas de desfiles nas rádios Manchete e Tupi. Desde 2011, é âncora e coordenador da Rádio Arquibancada, web rádio com programação inteiramente voltada para o Carnaval. Em 2015, lançou o livro "As Primas Sapecas do Samba", ao lado dos também jornalistas Eugênio Leal e Vicente Dattoli.

18/07/2019 15h56

Após mostrar a História do Brasil por um viés ignorado pela narrativa oficial, a Estação Primeira de Mangueira permanece apostando na ousadia para conquistar o bicampeonato no Carnaval 2020. "A verdade vos fará livre", enredo assinado por Leandro Vieira, levará para a Sapucaí uma visão atualizada de Jesus Cristo.

Na narrativa, Cristo voltaria a Terra nos dias de hoje e nasceria no alto do morro da Mangueira, sofrendo toda a sorte de infortúnios e discriminação que os moradores das comunidades carentes sofrem. Como pano de fundo, questões como intolerância religiosa, discriminação racial, de gênero e sexualidade, assim como o inevitável tema do comércio da fé.

Em entrevista exclusiva à coluna, Leandro Vieira explica o que motivou a levar este tema para a Sapucaí e o quanto espera, valendo-se do desfile de uma escola de samba, fomentar um debate sobre questões importantes para a sociedade.

Em seus enredos, você sempre procura recortes do momento do país e desta vez está sendo mais ousado do que nunca. Qual a centelha que te deu a ideia deste enredo?

Eu continuo olhando para o Brasil. Desde 2015, este é meu interesse - falar de aspectos da cultura e da sociedade brasileira. Só que o meu olhar não é limitado ao folclórico, ufanista e tradicional para o universo das escolas de samba. Quero falar, entender e propor coisas para o Brasil de hoje. Existem algumas temáticas que podem ser debatidas - e devem - para este Brasil que hoje discute mal sua questão racial, as questões de gênero, a intolerância, a representatividade. Uma das questões que devem ser debatidas é a da moral e do que é o "cidadão de bem".

Estamos vivendo um momento de recrudescimento da visão conservadora. Você resolveu enfrenta-la?

Os conservadores sempre se utilizaram da figura e da popularidade da narrativa de Jesus Cristo para reafirmar valores ligados à moral. Neste contexto, houve uma deturpação da figura de Cristo, que, ao longo dos séculos, atendeu a vários interesses. Em nome de Cristo já se matou, já se escravizou. Há algum tempo, em nome de Cristo, se estabeleceu o machismo e a intolerância com a comunidade LGBTQIA. Se pratica intolerância religiosa, invadindo terreiros de candomblé e desrespeitando a fé alheia. Atacam o Carnaval, dizendo ser profano. O fato é que Cristo foi usado a serviço de uma lógica excludente e tudo que ele não foi é excludente.

Está nas escrituras, não?

Não só nas escrituras. Meu Carnaval não é baseado somente nelas, mas, sobretudo, na visão histórica de Cristo. O Cristo histórico nos traz esses aspectos, que são reafirmados pelas escrituras.

E você transpõe essa visão histórica para os dias de hoje.

Trazer para os dias de hoje é estabelecer uma possibilidade de narrativa carnavalesca com o universo contemporâneo. Foi o que fizemos em 2019: jogamos luz no passado para repercutir o que acontece agora e com a perspectiva de reverberar para o futuro.

E o presépio atualmente seria um barraco no topo do morro da Mangueira?

Exatamente. O que o enredo propõe não é que Cristo vá voltar para o apocalipse. Nossa proposta é que, se Cristo voltasse da mesma maneira que veio da primeira vez, nascesse pobre e vivesse juntos dos oprimidos e os defendesse, o que aconteceria com ele? Ele continuaria oprimido, porque os líderes religiosos continuam sendo hipócritas e o mercado da fé é o mesmo de 2 mil anos atrás. Se ele nascer na Mangueira e tiver a mesma aparência de seus moradores, dificilmente chegará aos 33 anos.

Já houve alguma reação da Igreja Católica? Como você pretende usar imagens religiosas no desfile?

Até agora, a Igreja não se pronunciou. Existem duas questões primordiais. A primeira: não tenho interesse nenhum em vilipendiar a fé alheia. Não vamos ofender ninguém. Isso é uma premissa de minha constituição artística. A segunda: até que ponto há um preconceito contra as escolas de samba que as pessoas não as veem como uma expressão artística de excelência? Historicamente, a vida de Cristo é temática recorrente para todas as manifestações culturais da humanidade. Cristo talvez seja o mais retratado na pintura. Já foi tema de escultura, teatro, música, cinema e até novela. E tudo isso é arte. Até que ponto não existe um preconceito e uma visão de que o desfile de escolas de samba não seja um espaço de arte plena? Para mim, há um embate interessante e estou disposto a enfrentar.

Para finalizar, uma pequena provocação: quem seriam, nos dias de hoje, Maria Madalena e Judas Iscariotes?

Com certeza eles estarão no desfile, porque eles são figuras emblemáticas. Mas, na vida atual, está sobrando Judas para eu escolher um só! (risos)