Pais mais velhos tendem a ter filhos 'mais nerds', diz pesquisa

James Gallagher - Da BBC News

Menino digitando no computador
Getty Images
Pesquisadores associaram características 'geeks', como introspecção e foco, a mais sucesso em 'uma economia movida pelo conhecimento'

Homens que se tornam pais mais tarde têm chance maior de ter um filho com traços típicos - e positivos - de "nerds" e "geeks", diz um estudo recém-publicado no Reino Unido.

Esses meninos se tornam mais espertos, focados e menos preocupados em se enturmar, de acordo com artigo publicado por pesquisadores da Universidade King's College de Londres no periódico Translational Psychiatry.

Curiosamente, a idade da mãe não teve impacto nos resultados, os quais parecem ser relevantes apenas para filhos do sexo masculino.

As descobertas estão entre as raras notícias positivas relacionadas a gestações tardias, comumente associadas à maior incidência de problemas genéticos, autismo e esquizofrenia.

Os pesquisadores analisaram resultados de testes feitos com 12 mil gêmeos britânicos de um amplo estudo que acompanha seu desenvolvimento - infância e adolescência - desde 1994, para entender quais fatores contribuem para a construção de sua individualidade.

Os pesquisadores criaram o que chamaram de "Geek Index", avaliando crianças de 12 anos de idade com relação a seu QI, sua habilidade de focar em um tema e introversão.

"Nossa hipótese é de que QI alto, foco no assunto de interesse e algum grau de introspecção social provavelmente são benéficos em uma economia movida pelo conhecimento", diz o artigo científico. "Ainda que esses traços estejam distribuídos pela população, a literatura etnográfica agrupa-os sob o guarda-chuva do termo 'geek'."

Os que tiveram altas pontuações no ranking "geek" acabaram se saindo melhor na escola, sobretudo em temas como ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Pai e filho lendo
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Será que pais que demoram mais para ter filhos estão transmitindo suas 'nerdices' a eles?

Explicações

Entre os participantes do estudo, pais com idade igual ou inferior a 25 anos tiveram filhos que pontuaram menos no ranking geek do que pais com idades entre 35 e 40 ou mesmo com mais de 50 anos.

Entre as possíveis explicações para isso, os cientistas apontam que:

- Pais nerds podem estar demorando mais para ter filhos e transmitir suas "nerdices" para os filhos

- Homens mais velhos podem estar criando um ambiente familiar que encoraja traços "nerds", graças a empregos melhores e mais estáveis que aumentam o acesso a educação e experiências diversas

- Pode haver novas mutações no esperma, afetando o desenvolvimento dos filhos

Atenção para os riscos

No entanto, estudiosos não recomendam que casais tomem decisões quanto à concepção com base nessas descobertas, justamente por causa dos riscos associados a gestações tardias.

"Famílias não devem ser influenciadas por este estudo em suas decisões quanto a ter filhos", adverte Magdalena Janecka, pesquisadora do King's College.

"Ainda que pareça legal ser geek, não recomendo que os futuros pais retardem seus planos de iniciar uma família para propositadamente aumentar as chances de ter uma criança com essas qualidades", afirma o professor da Universidade de Sheffield Allan Pacey.

"Os perigos da paternidade tardia estão bastante descritos (na literatura médica), incluindo os riscos de infertilidade, aborto espontâneo ou distúrbios debilitantes ao nascer. Dito isso, acho bastante intrigante a ideia do 'gene geek'. E, diante da tendência de termos filhos cada vez mais tarde, talvez estejamos destinados a criar uma futura sociedade de gênios que nos ajudarão a resolver os problemas do mundo."

Ao mesmo tempo, a equipe de pesquisadores também acredita que alguns traços genéticos herdados de pais mais velhos podem ter influência tanto sobre o aspecto "nerd" quanto sobre as possibilidades de desenvolvimento do autismo.

"Quando a criança nasce com apenas alguns desses genes, parece ter mais chance de ser bem-sucedida na escola. No entanto, com uma 'dosagem' mais alta desses genes, somada a outros fatores de risco, pode ser que ela tenha uma predisposição maior para o autismo", disse a pesquisadora Janecka.

As diferenças de gênero não foram esclarecidas pelo estudo. Pode ser que as medições não tenham sido capazes de perceber as diferenças nas manifestações de "nerdices" entre meninos e meninas. Ou pode ser que haja diferenças na forma como o cérebro de meninos e meninas se desenvolve.

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