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Jovem precisa fazer rifa de tupperware para ir a feira mundial de ciência

Arquivo pessoal
Estudante Maria Eduarda Willemann foi convidada para o Fórum Internacional da Ciência da Juventude de Londres Imagem: Arquivo pessoal

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

2019-04-18T04:00:00

2019-04-18T18:46:16

18/04/2019 04h00Atualizada em 18/04/2019 18h46

Resumo da notícia

  • Jovem vai rifar potes plásticos e produtos de beleza para viajar
  • Seu robô que ajuda a cuidar de idosos foi destaque em feira de ciência no Recife
  • Convite veio do Fórum da Ciência da Juventude de Londres, referência na área
  • Ela precisa juntar cerca de R$ 20 mil; até agora tem R$ 2.264

O que você faria se ganhasse um convite para participar de um grande evento internacional sobre algo que você ama, mas não tivesse todo o dinheiro necessário para ir? Recorreria aos amigos, faria uma vaquinha virtual ou tentaria pedir ajuda para empresários?

A estudante da rede pública Maria Eduarda Willemann, de 17 anos, tentou tudo isso, mas não deu muito certo. Em meio a promessas falsas, que não se transformaram em dinheiro vivo, a jovem decidiu colocar em prática uma ideia criativa. Por que não fazer uma rifa de potes plásticos (os famosos tupperware) e de produtos de beleza?

Faltando pouco mais de um mês para ter que confirmar a sua participação no Fórum Internacional da Ciência da Juventude de Londres (LIYSF: London International Youth Science Forum), um dos maiores eventos do mundo voltado para jovens cientistas, Maria decidiu tentar arrecadar mais dinheiro com o sorteio.

A iniciativa repercutiu na internet depois que a estudante divulgou a sua ideia no Twitter. Em poucas horas, a sua publicação registrou quase 2 mil curtidas e vários compartilhamentos. Além de muito carinho e apoio moral, claro.

A jovem foi premiada com o convite depois que seu projeto de iniciação científica, um robô que ajuda a cuidar de idosos, ganhou destaque na Feira Nordestina de Ciência e Tecnologia (Fenecit), realizada no Recife, no ano passado. O projeto conquistou o segundo lugar geral do evento.

O robô foi desenvolvido por ela e por mais três amigos: os irmãos Paulo e Pedro Henrique Sissa e Pedro Henrique Ferreira Câmara. Mas por conta da falta de verba, todos concordaram que Maria seria a representante do grupo fora do Brasil.

"Nossa! Quando recebemos o convite para a feira de Londres, eu fiquei sem reação. Foi muita luta para chegar até aqui. Tantas dificuldades. Eu chorei bastante. E não é só representar o meu colégio lá fora. É representar todos nós, o Brasil, a educação brasileira. Fiquei muito feliz", contou em entrevista ao UOL Ciência.

A iniciação científica representa tudo. Não é nada mais do que olhar um problema na sociedade e tentar resolvê-lo através da pesquisa. Meu maior sonho é ser professora e me tornar uma grande pesquisadora na área da engenharia. Quem sabe fazer uma pós-graduação fora do país
Maria Eduarda Willemann

A ideia do robô --que ainda está em desenvolvimento-- é que ele consiga auxiliar na segurança de idosos que vivem sozinhos. Ele pode ser programado para lembrar o horário dos remédios e reconhecer pedidos de socorro em caso de necessidade. Neste último caso, ele automaticamente conseguiria pedir ajuda.

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O projeto do robô foi desenvolvido pela jovem e mais três colegas do Centro Estadual de Educação Profissional Pedro Boaretto Neto, em Cascavel. Da esquerda para a direita: Pedro Henrique Sissa, Paulo Henrique Sissa, Pedro Henrique Ferreira e Maria Eduarda Willemann Imagem: Arquivo pessoal

Metade "humanas", metade "exatas"

A jovem cursa o último ano do ensino médio técnico em eletrônica no CEEP (Centro Estadual de Educação Profissional) Pedro Boaretto Neto, em Cascavel, Paraná, e participa de pesquisas na área de ciências desde o primeiro ano do colégio. Mas a sua paixão pela área surgiu quando ainda era criança.

Sua outra paixão é a filosofia. Apesar de amar cálculos, a estudante fez questão de ressaltar que a sua alma se divide entre as humanidades e as exatas. "Uma parte de mim grita filosofia. Outra parte grita física", brincou.

Segundo Maria, o seu colégio tem uma tradição em estimular os estudantes a participarem do mundo da pesquisa. Nos primeiros dias de aula, os professores já deixaram claro que a educação e a ciência têm o poder de mudar vidas.

A dela certamente mudou. "Aprendi a acreditar mais em mim. Sou a única menina agora no último ano. Já passei por situações bem difíceis, pessoas que não acreditavam que eu tinha capacidade por eu ser mulher. Mas, se não fosse o apoio deles [professores], da minha família, amigos, seria mais difícil."

Arquivo Pessoal
Maria Eduarda e seu robô, criado para ajudar idosos Imagem: Arquivo Pessoal

Corrida contra o tempo

Para conseguir participar da feira internacional de ciências, Maria calcula que precisa juntar em torno de R$ 20 mil. A ideia é que ela e o professor orientador do projeto possam participar. A verba cobrirá os custos da inscrição (cerca de R$ 11 mil), das passagens, acomodação e alimentação, explicou a jovem.

"Eu sei que é pouco tempo que tenho para juntar tudo. Mas sempre vou ser confiante. Até o ultimo segundo. Se algumas pessoas tivessem prometido e cumprido, eu infelizmente não estaria correndo contra o tempo", disse sobre as falsas promessas de ajuda que recebeu.

Já pensei mil vezes em desistir. Tantos 'nãos' que já recebi. Mas depois que fiz a postagem na internet eu sentir uma nova força. Estou mais confiante. Sou pobre, não tenho vergonha de falar que venho de uma família humilde. Ganhei livros doados de uma menina no Instagram para estudar para o vestibular. Nunca imaginei que ia chegar onde eu cheguei e sei que é só o começo
Maria Eduarda

"Já vendi trufa e conseguimos mais de R$ 8 mil"

A veia "empreendedora" de Maria já a ajudou em outros momentos. Junto com os colegas de outros projetos de iniciação científica do colégio, ela decidiu vender trufas para poder custear a participação dos estudantes na Feira Mineira de Iniciação Científica, cuja última edição aconteceu em agosto do ano passado.

"Conseguimos R$ 8.500 em dois meses de vendas. Várias vezes pensei em desistir, mas o meu objetivo era maior. Era participar do evento e levar a nossa pesquisa para mais lugares", contou.

Antes de ser selecionada para a feira em Londres, Maria contou ainda que o projeto do robô que auxilia idosos foi aprovado para um fórum de ciência em Guadalajara, no México. Por falta de recursos financeiros, não foi possível a participação do grupo de jovens cientistas.

"Mas acredito que tudo serve de experiência e aprendizado. E isso não me fez desistir. Estou muito persistente e confiante para participar do LIYSF", destacou.

Quanto ao inglês, Maria diz que vai dar certo. Por conta do seu histórico ela ganhou uma bolsa de estudos na escola de idiomas Rockefeller. Professores e outros alunos estão ajudando a jovem na missão de aprender o m possível do idioma.

O que é o LIYSF?

É um fórum internacional criado para estimular jovens cientistas. Ele existe desde 1959 e acontece anualmente em Londres.

Pesquisadores com idades entre 16 e 21 anos participam durante duas semanas de encontros com especialistas, workshops e trocas de experiências.

A edição deste ano acontecerá entre os dias 24 de julho e 7 de agosto. Segundo o LIYSF, o fórum reúne em média 500 estudantes de mais de 70 países

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