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Josias de Souza

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Sob ataque de Bolsonaro, governadores organizam compra conjunta de vacinas

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Imagem: Reprodução/Instagram
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

01/03/2021 04h41Atualizada em 01/03/2021 19h10

Acusados por Jair Bolsonaro de "fechar os estados", os governadores decidiram reagir coletivamente. Em entrevista à coluna, Renato Casagrande (PSB), governador do Espírito Santo, informou que os estados e o Distrito Federal realizarão compras conjuntas de vacinas. Nesta terça-feira, 18 governadores visitarão, em Brasília, a sede da empresa União Química, que representa no Brasil a vacina russa Sputnik V. Articulam também uma reunião com o presidente da Câmara, Arthur Lira.

De acordo com Casagrande, os 27 governadores estão comprometidos com o movimento. "Não haverá a formalização de um consórcio. Nossa ideia é comprar cotas proporcionais à população de cada estado. Nenhum estado comprará mais do que o equivalente ao percentual de sua população. Sempre que comprarmos, haverá uma distribuição equitativa de doses. E cada estado pagará a sua cota, fazendo um contrato com o laboratório."

Após um ano de pandemia, o país vive o pior momento. Casagrande lamentou o comportamento de Bolsonaro. "Hoje, temos 20 estados com dificuldades de atender às pessoas que precisam de UTI. E o presidente, na semana do pior momento da pandemia, dá uma declaração menosprezando as máscaras. Não é fácil. Por isso iremos a Brasília. Já fizemos uma reunião com o Rodrigo Pacheco [presidente do Senado]. Estamos pedindo para que seja nesta terça-feira a reunião com o Arthur Lira."

Na opinião do governador capixaba, o Brasil foi derrotado pela Covid-19. "Perdemos a guerra. Se tivéssemos fechado contratos para a aquisição de vacinas antecipadamente poderíamos ter muito mais doses. Perdemos a guerra porque estamos assistindo à morte de 1.200 pessoas, 1.300 brasileiros por dia. É uma bomba atômica. É como se tivesse caído uma bomba atômica no Brasil. Temos mais de 250 mil mortos. É muita gente."

Casagrande faz alusão aos ataques atômicos sofridos pelo Japão. Em 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram uma primeira bomba sobre Hiroshima. Três dias depois, Nagasaki teve a mesma desventura. As cifras não são precisas. Mas aceita-se em geral a soma de cerca de 140 mil mortos em Hiroshima e 70 mil em Nagasaki. Vai abaixo a íntegra da conversa com Casagrande:

— O presidente voltou a questionar o uso de máscaras e o isolamento social. Atacou os governadores. Existe alguma estratégia conjunta dos governadores para enfrentar a pandemia à margem da Presidência da República? Estamos estabelecendo contato com o Congresso e com o Supremo Tribunal Federal. O Bolsonaro não vai deixar de ser negacionista. Fará sempre o enfrentamento com os governadores. Tenta responsabilizar os governadores pela irresponsabilidade dele. Ele quer dar argumento e narrativa para sua base. Essa base é orientada a enfrentar os governadores num nível de irresponsabilidade muito grande.

— Há algo encaminhado com os presidentes da Câmara e do Senado? O próprio Arthur Lira anunciou que vai conversar conosco nesta semana. Queremos marcar para esta terça-feira, porque estaremos quase todos em Brasília.

— Os governadores irão à Brasília para quê? Faremos uma visita à União Química, que representa a vacina Sputnik V. A análise do pedido de autorização à Anvisa para uso emergencial dessa vacina está na fase final. Já tomamos uma decisão dos 27 governadores. Faremos compra conjunta de vacinas quando encontrarmos. Estamos tentando nos virar. Torcemos para que o cronograma das vacinas se consolide a partir deste mês de março, com um volume maior de entregas do Instituto Butantan e da Fiocruz. Mas estamos decididos a obter mais vacinas. Todos os 27 governadores estão juntos nesse trabalho.

— Quantos governadores viajarão a Brasília? Tenho a lista aqui. Além do Espírito Santo, confirmaram a visita à União Química, para a compra de vacinas, os governadores do Distrito Federal, Piauí, Rio Grande do Sul, Goiás, Amapá, Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Maranhão, Mato Grosso, Tocantins, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Pará, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro.

— O governador João Doria, de São Paulo, participa desse entendimento? Ele disse que não poderá comparecer a esse encontro de terça-feira. Mas estará junto na compra de vacinas, quando encontrarmos para comprar.

— A ideia é fazer um consórcio de estados? Não haverá a formalização de um consórcio. Nossa ideia é comprar cotas proporcionais à população de cada estado. Nenhum estado comprará mais do que o equivalente ao percentual de sua população. Sempre que comprarmos, haverá uma distribuição equitativa de doses. E cada estado pagará a sua cota, fazendo um contrato com o laboratório.

— Existe a intenção de negociar com outros laboratórios, como a Pfizer? Sim temos essa intenção.

— Alguém coordena os contatos? O Wellington Dias, do Piauí, está fazendo isso. Estamos em contato com os embaixadores da China, da Índia e da Rússia. O embaixador da Rússia inclusive estará conosco nessa visita à União Química. Por intermédio dos embaixadores, estamos marcando reuniões com os laboratórios. Só vamos comprar o que estiver certificado com a Anvisa ou outro órgão certificador de reconhecimento internacional.

— Com esse entendimento entre os governadores, acha possível gerenciar a pandemia sem o Palácio do Planalto? É muito mais difícil. Estamos vivendo nesses últimos dias o pior momento da pandemia —maior número de mortes, quantidade maior de estados em situação de quase colapso do sistema de saúde. Hoje, temos 20 estados com dificuldades de atender às pessoas que precisam de UTI. E o presidente, na semana do pior momento da pandemia, dá uma declaração menosprezando as máscaras. Não é fácil. Por isso iremos a Brasília. Já fizemos uma reunião com o Rodrigo Pacheco [presidente do Senado]. Estamos pedindo para que seja nesta terça-feira a reunião com o Arthur Lira [presidente da Câmara].

— O que desejam do Congresso? A demanda por leitos de UTI é forte, a necessidade de recursos financeiros para podermos dar conta da abertura desses leitos é grande. Sem o governo federal, as coisas ficam mais difíceis. Seria mais adequado que tivéssemos uma coordenação nacional. Estamos tentando amenizar e compensar isso com uma participação mais forte do Congresso Nacional.

— O objetivo é obter verbas? É mais do que verba. Precisamos de verba também. Mas estamos procurando aliados para promover um movimento nacional em favor da implementação das orientações científicas. O presidente da República não nos ajuda. Se os presidentes da Câmara e do Senado se manifestarem nessa direção, a gente se fortalece. Precisamos sair dessa guerra. Então, é mais do que verba. Precisamos de alinhamento político em torno de uma concepção científica para o enfrentamento da crise.

— O Ministério da Saúde deixou de liberar verbas? Neste ano, ainda não liberou. Mas o ministro disse que vai liberar recursos para os hospitais.

— Qual é hoje o percentual de ocupação das UTIs no Espírito Santo? Nós temos uma taxa de ocupação de 70%. Não é das mais desesperadoras. Tanto é que recebi aqui 36 pacientes do Amazonas, 30 de Rondônia. Estamos ajudando outros estados, na medida das nossas possibilidades.

— A nova variante do vírus, surgida no Amazonas, chegou ao Espírito Santo? Sim, mas não houve ainda uma transmissão comunitária. O paciente foi isolado.

— Se comprarem vacinas diretamente, os estados poderão pedir ressarcimento à União? Podemos, sim, pedir o ressarcimento. Essa é a ideia. Mas não é algo que estejamos valorizando no momento. Governadores estão reservando dinheiro para comprar vacinas.

— Em tese, quem tem que arcar com a compra de vacinas para o programa nacional de imunização é o governo federal, não? É o Ministério da Saúde. O próprio ministro disse que fará o ressarcimento. Mas independentemente disso, se vai ter ressarcimento ou não, estamos dispostos a comprar vacinas, se encontrarmos.

— Já sabem quantas vacinas a União Química pode fornecer? Eles não têm muitas doses. Parece que dispõem imediatamente de 4 milhões de doses. Depois, ainda em março, 10 milhões de doses. Mas já é alguma coisa. Pode ser que o governo federal compre essas vacinas. Talvez não esperem os governos estaduais comprarem. De qualquer maneira, estamos acompanhando todos os movimentos. Vemos, por exemplo, o movimento Vacina para Todos, esforço que a Luíza Trajano [do Magazine Luíza] está fazendo. Está tentando articular a participação dos empresários junto ao Ministério da Saúde e aos estados. O objetivo é antecipar para setembro o fim da vacinação. Tem muita gente se envolvendo, para tentar compensar o atraso provocado pelo governo federal.

— Acha razoável que os empresários comprem vacinas? Acho que todo mundo tem que comprar, para entregar ao plano nacional. Há empresários dispostos a comprar. Essa é a proposta da Luíza Trajano. Comprar e entregar para o Ministério da Saúde.

— Uma das propostas que tramitam no Congresso prevê que os empresários repassariam para a União apenas 50% das doses que comprarem. Acha adequado? Defendo que as empresas que se dispuserem a adquirir vacinas repassem 100% das doses para o Ministério da Saúde. Nesse momento em que tantos brasileiros perdem a vida, com o Brasil atrasado na vacinação, não é correto permitir que quem tem dinheiro se vacine primeiro. Temos que entregar todas as vacinas para o plano nacional, que cuida da distribuição.

— O Brasil perdeu a guerra para o coronavírus? Perdemos a guerra. Se tivéssemos fechado contratos para a aquisição de vacinas antecipadamente poderíamos ter muito mais doses. Perdemos a guerra porque estamos assistindo à morte de 1.200 pessoas, 1.300 brasileiros por dia. É uma bomba atômica. É como se tivesse caído uma bomba atômica no Brasil. Temos mais de 250 mil mortos. É muita gente.

— Em que medida a ausência de uma coordenação nacional da crise sanitária influiu no resultado? É fácil de compreender que, se tivéssemos uma coordenação nacional, estabilidade no Ministério da Saúde, e uma preocupação do presidente da República em coordenar essa ação, o Brasil certamente estaria enfrentando essa pandemia com um nível de politização menor. Claro que teríamos mortos. Mas não seriam tantos. Hoje, em meio à campanha de vacinação, faltam vacinas. E há pessoas que não querem se vacinar. Tem gente que se recusa até a usar máscara. É gente que segue o presidente da República, que não oferece bom exemplo. O trabalho fica muito mais difícil. Evidentemente, muitas mortes poderiam ter sido evitadas se estivéssemos todos atuando na mesma direção.