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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com projeto de ensino em casa, bolsonarismo usa crianças em guerra cultural

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

19/05/2022 16h51

A discussão sobre a regulamentação do homeschooling, projeto aprovado, nesta quinta (19), na Câmara dos Deputados, não está sendo guiada para ajudar famílias que, por algum motivo, precisam que seus filhos tenham um ensino domiciliar. Mas pela tentativa de setores da sociedade de garantirem que seus filhos sejam construídos à imagem e semelhança de sua ideologia.

Erra quem pensa que o processo educacional se resume a enfileirar conhecimento técnico na cabeça de crianças e adolescentes. Resumir a escola ao ensino do 2 + 2 e do beabá, como defende uma parte do bolsonarismo, é condenar o futuro do país.

O seu papel também inclui preparar a pessoa para que saiba viver em sociedade, como alguém autônomo e pensante, e não uma engrenagem numa máquina ou um tijolo em um muro.

Que saiba respeitar a fala dos outros e exigir respeito à sua fala, que não apenas tolere a diferença mas consiga enxergar a beleza presente na diversidade, que compreenda através da experiência o que são direitos individuais, mas também o que são direitos coletivos.

Na vivência escolar, há três tipo conteúdo trabalhados: os conceituais (saber os rios da margem direita do Amazonas ou o ano da Revolução Francesa), mas também os procedimentais (como escrever, como calcular, como deduzir, como trabalhar em grupo) e os atitudinais (saber a importância de cumprir regras de normas, de respeitar os seus pares, de ser solidário).

Além disso, professores são profissionais com conhecimento especializado tanto em seu objeto de estudo quanto na metodologia para ensinar. Afirmar que podem ser substituídos dada a baixa qualidade de educação em alguns lugares é rebaixar o ensino a um procedimento técnico que qualquer leigo poderia realizar ao invés de investir em educação.

O direito dos pais de ensinar seus filhos não pode se sobrepor ao direito dos filhos a viver em um ambiente que permita o seu crescimento intelectual e social.

Mas crianças estão sendo tratadas como buchas de canhão do bolsonarismo, que não está preocupado na educação integral delas, mas em gerar uma bolha para que as gerações mais novas sejam uma cópia escarrada do que pensam seus pais e mães.

Educar por educar, passando apenas dados e técnicas, sem conscientizar o futuro trabalhador e o cidadão do papel que ele pode vir a desempenhar na sociedade, sem considerar a realidade à sua volta, sem ajudá-lo a construir um senso crítico e questionador, sem tornar possível que ele escolha sua orientação ideológica, é doutrinar, não educar.

Educar pode significar libertar ou enquadrar. Pode ajudar às pessoas a descobrirem como quebrar suas próprias correntes ou ser o pior cativeiro possível, fazendo com que vítimas se tornem cães de guarda de seus agressores.

Que tipo de educação estamos oferecendo? Que tipo de educação precisamos ter? Que tipo de educação um movimento como o "Escola Sem Partido" e tantas outras propostas fundamentalistas querem implantar?

Com tanta coisa importante para discutir, com tanta ação urgente para tomar, nos pegamos imobilizados numa falsa questão, sustentada por argumentos frágeis e para lá de questionáveis. Presos na cortina de fumaça da suposta doutrinação, empobrecemos um pouco mais o debate sobre educação.

Esperemos que o Senado revise a posição da Câmara. Caso contrário, aquele futuro de direitos pensado na Constituição de 1988 terá ficado um pouco mais distante.