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Paulo Sampaio


Bairro com mais idosos no Rio, Copacabana tem desobedientes da quarentena

A professora Karia Prentki acredita que o isolamento abrupto pode levar a uma depressão com sequelas graves - Paulo Sampaio/UOL
A professora Karia Prentki acredita que o isolamento abrupto pode levar a uma depressão com sequelas graves Imagem: Paulo Sampaio/UOL
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

22/03/2020 13h56

Perto da avenida Nossa Senhora de Copacabana, a mais movimentada do bairro da zona sul do Rio, a professora Kátia Prentki, 53 anos, afirma que a pandemia causada pelo covid-19 não alterou muito sua rotina. Ela dá aulas particulares para pessoas de todas as idades, e diz que sua presença na rua tem um propósito: "Não estou apenas passeando".

De fato, segundo as autoridades sanitárias, ela pode também estar transportando o vírus para o apartamento onde mora com o pai, de 93 anos, uma irmã e uma prima. Ou, quando faz o caminho inverso, levando para os alunos. Katia não está infectada, ou melhor, não tem os sintomas.

Copacabana é o bairro com a maior concentração de idosos do Rio, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O último censo do instituto, feito em 2010, revelou que cerca de 30% dos moradores da região, ou 43.431 pessoas, tem mais de 60 anos — justamente a faixa etária mais vulnerável ao novo vírus, de acordo com o que os cientistas observaram até aqui.

Desde que a disseminação do covid-19 tomou proporções de pandemia, as autoridades de saúde do mundo todo recomendam que as populações permaneçam em quarentena domiciliar, para evitar a transmissão descontrolada.

Esbarrão na cozinha

Kátia explica seu ponto de vista. "É uma doença que constrange as pessoas, você não pode abraçar mais, beijar, olhar nos olhos. O convívio social foi cortado abruptamente, e isso pode levar a uma depressão imperceptível."

Segundo a professora, em casa é mais fácil driblar o isolamento: "Com a família, a comunicação continua. Quando você sai do quarto para o banheiro, e encontra alguém vindo da sala, por mais que não dê para chegar perto, há uma troca de olhares. Pode não parecer, mas até um esbarrão ao entrar da cozinha, para pegar um copo d'água, faz diferença."

Ela chama a atenção para "o caso do morador de rua". "Agora mesmo um menino me pediu um trocado, eu olhei nos olhos dele, houve uma troca, e eu disse que não tinha. Não é um olhar que julga, mas o da compreensão."

Prosódia de vovó

Kátia não está sozinha nas ruas praticamente vazias do bairro. Aqui e ali se flagram rebeldes sem culpa. Sentada em um banco do calçadão, na altura do posto 6, a aposentada Violeta Werneck, "mais de 80 (anos)", fala com firme convicção que a brisa da orla "leva embora" o vírus. Diz que tem saído todos os dias de casa para "tomar um ar".

Vestindo bermuda de linho bege, camiseta regata salmão, sandália baixa de tiras e óculos escuros, Violeta parece não dar ouvidos aos alertas. "Muito do que se ouve na TV é conversa fiada", diz ela, com prosódia de vovó.

Motivo verdadeiro

Violeta reconhece que o comércio sofreu uma baixa considerável, mas acredita que não tem nada a ver com a reclusão recomendada à população.

Ela solta um aháhá cético, e diz o verdadeiro motivo: "São os preços! Ó (roçando a ponta do dedo polegar na do indicador) tudo dobrou! O povo foge mesmo!"

Fuga de casa

Devidamente equipada com máscara, luvas e álcool gel, a coluna circulou durante algumas horas pelo bairro, para ouvir não só os senhores de idade, como Violeta, mas também os que vivem com idosos, como Katia, e podem colocar a saúde deles em risco.

Na casa da pernambucana aposentada Maria Antonieta Martins, 82, a imprudente é ela. Em frente a um boteco na rua Dias da Rocha, Antonieta justifica sua presença na rua com o fato de o filho ficar "comandando o espetáculo em casa (obrigando-a tomar as devidas precauções)".

"Nunca fui mulher de ser controlada. Fiz a besteira de me casar, mas logo descobri que uma pessoa independente como eu não se adapta a essa história de dar satisfação a marido", diz.

Complexo de inferioridade

E a quarentena? "Ô, meu filho, quem ficou doente (infectado pelo vírus) já foi para o hospital, não está na rua", acha Antonieta, que se apresenta como advogada, conta que fez também jornalismo e "outros cursos superiores que eu até me esqueci". "Ainda morei na Europa e nos Estados Unidos."

Ela diz que não tomou conhecimento da portaria divulgada na terça-feira (17) pelos ministérios da Saúde e da Justiça e Segurança Pública, que estabelece, entre outras providências, que os cidadãos brasileiros devem se sujeitar voluntariamente ao isolamento e à quarentena.

A portaria se baseia na lei 13.979 de fevereiro de 2020, que determina medidas emergenciais para enfrentar a epidemia. De acordo com o documento, o descumprimento da lei acarretará responsabilização civil, administrativa e penal dos infratores.

Antonieta: "Eu não acredito que me prendam a essa altura da minha vida. Acho que eu morro antes." Ela não quis posar para foto, alegando que sofre de um "complexo de inferioridade de infância": "Leio Freud desde muito jovem", afirma.

Carioca de Copa

Nascido e criado em Copacabana, aprendi que o carioca dali é particularmente criativo. É comum ouvir teorias sobre os mais variados assuntos, geralmente apresentadas com um discurso que mistura humor e certezas enciclopédias.

Em um café na rua Constante Ramos, posto 4, o dentista Rodrigo Pires, 45, que mora com a mãe de 78, diz que pensa como seu candidato a presidência, Jair Bolsonaro: "Pra mim, tem muito de fantasia, de terror nisso tudo."

No parecer de Pires, o brasileiro não corre o mesmo risco que o europeu [de disseminar o covid-19]: "Somos um país tropical, com uma cultura diferente da deles. A gente toma banho todos os dias, usa sabonete, escova os dentes, cuida da higiene pessoal. Isso nos torna muito mais protegidos", acredita.

Segundo o dentista Rodrigo Pires, o brasileiro não corre risco de pegar o vírus porque, ao contrário do europeu, cuida da higiene pessoal - Paulo Sampaio
Segundo o dentista Rodrigo Pires, o brasileiro não corre risco de pegar o vírus porque, ao contrário do europeu, cuida da higiene pessoal
Imagem: Paulo Sampaio

Cabelo ensebado

Acompanhado de Thor, um cão da raça bull terrier staffordshire, ele afirma que sabe dos hábitos dos europeus por experiência própria. "Morei em Portugal um ano e meio, eu via na academia. As mulheres ficam mais de uma semana sem tomar banho, o cabelo ensebado, algumas cheiram mal, eu muitas vezes não conseguia me aproximar."

Ele garante que "não é algo pontual, mas geral". "A gente tem de levar em conta que a água lá é paga, e custa caríssimo."

Conspiração mundial

Próximo ao quiosque "Coisa de Carioca", interpelo o advogado aposentado Omar Silva, 72, que tem ideias parecidas com as de Rodrigo Pires. "Existe um alarmismo muito grande no noticiário."

Silva, que é carioca mas mora em Caxambu, está entre os que acreditam que a pandemia faz parte de uma "grande conspiração mundial", que "partiu da China". "Tem de ver o que está por trás disso tudo."

Tranquilo em relação ao covid-19, Silva defende uma variação da tese de Pires. "O brasileiro está acostumado a sofrer, enfrenta melhor essas situações [pandemia]."

Para Omar Silva, 72,  "o brasileiro está acostumado a sofrer, encara melhor essas situações [pandemia]" - Paulo Sampaio/UOL
Para Omar Silva, 72, "o brasileiro está acostumado a sofrer, encara melhor essas situações [pandemia]"
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Mal dito

Entro em um supermercado e abordo a bióloga Fátima Pereira, 56, que trabalha na "área da saúde". Apesar de se declarar preocupada com a prevenção da coletividade ("destacamos um funcionário no prédio só para passar álcool nos botões dos elevadores, nos corrimãos e maçanetas") e de achar que a pandemia é algo "assustador", ela não condena as palavras do presidente Jair Bolsonaro, que classificou o receio da população em relação ao contágio como "histeria".

"Ele se expressou mal. As pessoas estão supervalorizando isso, em vez de trabalhar para conter a epidemia. Se ele não estivesse preocupado com a saúde, não deixaria o ministro (Luiz Henrique Mandetta) conduzir a situação."

Assim como Garcia e Silva, ela não participou do panelaço convocado em todo o país para pedir o afastamento do presidente. "Aquilo é uma pouca vergonha. Nós não estamos em hora para isso. O momento é o de se recolher, de ter compaixão pelo outro. Pra que essa gritaria?"

Psicopata irresponsável

"É um psicopata, irresponsável", diz, na gôndola ao lado, a professora universitária aposentada Ana Tomé, referindo-se a Bolsonaro. "Claro que entrei no panelaço! E entrarei em quantos houver! E olha, tampouco sou petista!"

Ela diz que está no mercado "não por imprudência", mas porque mora sozinha e não tem quem faça compras para ela. "Procuro levar mais itens do que eu preciso, para não precisar vir sempre", afirma.

Pandemia x Panelaço

Eleitor arrependido de Bolsonaro, o funcionário público José Humberto Abreu participou do panelaço com vuvuzela - Paulo Sampaio/UOL
Eleitor arrependido de Bolsonaro, o funcionário público José Humberto Abreu participou do panelaço com vuvuzela
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Em todos os lugares, graças de certa maneira ao próprio Bolsonaro, observa-se que o assunto "pandemia" rivaliza com "panelaço" na preferência dos debates.

Na altura da rua Figueiredo de Magalhães, o funcionário público José Humberto Abreu, 66, conta que entrou em recesso no trabalho, que tem o "medo de todo mundo" de contrair o vírus e que participou ativamente do panelaço.

Eleitor "arrependido" de Bolsonaro, ele diz que usou uma vuvuzela "adaptada a uma bomba de encher colchão, pra fazer mais barulho". "É um babaca!"

Medo de quê?

Na rua Barata Ribeiro, uma paralela da av Nossa Senhora de Copacabana, o ator transformista Dani ("só Dani"), 75 anos, olha absorto para uma vitrine de "antiguidades". Eu me aproximo, e iniciamos uma conversa, digamos, prosaica a respeito do covid-19. Dani diz que não entende o "alvoroço":

"Medo de quê, gente? De morrer? Mas todo mundo diz que a vida tá um horror, o povo desesperado, sem amor, sem respeito por nada nem ninguém. Eu, graças a Deus, fui muito feliz! Vivi em um tempo em que as pessoas eram talentosas, glamourosas, amáveis. Eu vi Rogéria ser aplaudida de pé no Egito!"

Dani, 75,  pergunta por que as pessoas têm tanto medo de morrer, "se todo mundo reclama que a vida está um horror" - Paulo Sampaio/UOL
Dani, 75, pergunta por que as pessoas têm tanto medo de morrer, "se todo mundo reclama que a vida está um horror"
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Outro planeta

Levando no antebraço uma bolsa da grife Louis Vuitton "legítima" ("Morei 20 anos em Paris, ganhei do homem que eu mais amei na vida"), Dani atribui o "caos atual" à "ditadura americana". "Eles estão acabando com tudo. Eu não sei se eu sou muito inteligente, ou se deveria ter nascido em outro planeta..."

Ele (a designação identitária é do próprio) diz que possui "uma força que os outros não têm". "Sempre assustei as pessoas. E vai ser assim agora também [com o vírus] . Ele que se cuide!" Dani levanta o queixo, como quem olha para holofotes imaginários, e capricha na entonação de fim de espetáculo: "Eu sobrevivi, gente!"

Paulo Sampaio