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Paulo Sampaio


Com sexo virtual, atriz pornô diz que triplicou faturamento na quarentena

A atriz com os três troféus que ganhou na premiação do canal Sexy Hot, considerado o "oscar do pornô" no Brasil - Foto: Iwi Onodera/UOL
A atriz com os três troféus que ganhou na premiação do canal Sexy Hot, considerado o "oscar do pornô" no Brasil Imagem: Foto: Iwi Onodera/UOL
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

05/04/2020 11h24

A premiada atriz pornô Dread Hot, 24 anos, pertence a um dos raros segmentos profissionais que puderam tirar vantagem do isolamento social imposto pela pandemia do covid-19. Ela diz que, como camgirl (garota da câmera, que cobra para fazer sexo virtual) triplicou seu faturamento. "Não tenho dados concretos, mas observo pelo número de clientes que passaram a entrar por hora. Isso aumentou extraordinariamente", afirma.

Com apenas dois anos vendendo sexo virtual, ela amealhou 837 mil seguidores em seu canal do youtube (QG da Dread), 657 mil no instagram e 131 mil no twitter. Dread conta que a média que as moças recebem na plataforma onde ela faz "camming" (se apresenta virtualmente) é R$ 2,40 por minuto, mas tem de deixar uma porcentagem para o veiculador. Em geral, ela se apresenta com o marido, o ator Alemão, mas, dependendo da vontade do freguês, ela aparece sozinha.

Na edição de 2019 do prestigiado prêmio Sexy Hot, considerado o "o oscar do filme pornô" pela industria nacional do gênero, Dread ganhou três troféus: "Melhor Cena de Sexo Oral"; "Melhor Cena Homo Feminina"; "Melhor Atriz Hétero".

Fase muito sapatão

Precavida, ela acredita que o momento é de otimizar o confinamento, já que "uma hora a crise vai vir". "Agora tá incrível. Todo mundo fechado em casa, querendo socializar...o ser humano é sociável, né? Mas se a quarentena se prolongar por muito tempo, o dinheiro da galera vai acabar..."

Na entrevista abaixo, ela fala como evoluiu profissionalmente em tão pouco tempo, até chegar a ter uma produtora de filmes pornô "gourmet" e poder escolher os filmes que faz, os atores com quem contracena, o figurino, a iluminação, "tudo". Embora só tenha contracenado com o marido, ela diz que seu début com outro ator está para ser gravado. "Era para ser em março, mas adiamos, claro." De qualquer maneira, ela diz que está em uma "fase muito sapatão", preferindo filmar com mulheres.

Dread com o marido, Alemão, único homem com quem interagiu nos filmes: o début com outro seria em março - Foto: Iwi Onodera/UOL - Foto: Iwi Onodera/UOL
Imagem: Foto: Iwi Onodera/UOL

Notícias — Com tem sido o seu faturamento depois da quarentena?

Dread Hot — Fazendo um cálculo por alto, triplicou. Eu não vou conseguir te dar dados, porque ainda não fechamos março. Percebi pelo que eu ganhei por minuto. Qual era o meu recorde em uma hora? Vamos supor, R$ 800. Isso aumentou extraordinariamente.

Notícias — Como é cobrado?

A plataforma de stream e webcam aluga um espaço para a modelo, ela paga uma porcentagem do que ganha. Embora eu faça lives pelo whatsapp, na maior parte das vezes os shows são pelo site Câmera Privê. Existe o chat público e o privado. No público, a tarifa aumenta de acordo com a gorjeta. Você faz o show para todo mundo assistir e vai pedindo o "tips". Já no chat privado, é cobrado por minuto.

As garotas mais antigas ganham o teto. Eu, como já estou há quase três anos, entro nessa categoria. Uma média de R$ 2,40, o minuto.

Notícias — Como é o serviço, exatamente?

O camming (exibição sexual por câmera) é muito amplo. Tem o atrativo do sexo, claro, mas não dá ficar só no on-line. Como eu sempre digo às meninas que fazem o meu curso de camgirl, você depende 30% do on-line, 70% do off line. É fora dali que você fideliza o cliente, faz seu marketing pessoal. Hoje, existem pessoas que entram especialmente para me pedir dicas sexuais, por exemplo. Então, você cria uma fanbase (base de fans) mesmo, sabe?

Notícias — Off-line? Existe um contato pessoal com o cliente?

Não, nada é pessoal. Faço vídeos, tenho um canal no youtube, trabalho rede social, marketing, grupos de whatsapp, snapchat, e também monitoro nos sites os vídeos dos quais eu participo. Vale a pena gastar duas horas fazendo um vídeo, porque eu vou rentabilizar isso para o resto da vida. Os sites gringos (estrangeiros) pagam em dólar.

O grupo de whattsapp é parte do marketing off-line - Reprodução - Reprodução
O grupo de whattsapp é parte do marketing off-line
Imagem: Reprodução

Notícias — O usuário do seu serviço dispõe de um cardápio de opções?

Existe isso, mas no caso da plataforma em que eu exibo meus filmes não é separado por categoria, e sim por gênero. Garotas, garotos, transex e transboys. Outros sites, que têm essa divisão por categoria, já conseguem segmentar melhor. Geralmente, as meninas falam o que gostam de fazer nos perfis delas. Por exemplo: todo mundo sabe que o Alemão (com quem ela contracena nos filmes) é meu marido. Então, já tem o usuário que se identifica com o tipo de apresentação da modelo. Já vão direto nela.

Notícias — Quando se exibe diante da câmera, você enxerga o cliente, ou só ele a enxerga?

Isso fica a critério dele. Eu gosto muito de ver com quem eu estou falando, até porque posso mostrar interesse pelo cara. É um tipo de estratégia que eu uso para fidelizar o cliente. Mas como a maioria é casada, eu tenho de respeitar o anonimato.

Notícias — E se o cara abrir a câmera e você não sentir nenhuma atração por ele? Acredita-se que para as mulheres é mais fácil fingir tesão, já que elas não precisam ter ereção nem ejacular.

Isso é um trabalho pra mim, quase sempre faço sem tesão. Mas quando eu me identifico com o cara, é mais fácil fazer o show. Eu não me ligo muito no externo, curto ver quais são as ideias da galera, gosto de conversar. De qualquer maneira, é isso mesmo: para a gente (mulheres) é mais tranquilo do que para os homens. Só colocar um lubrificante e já era.

Notícias — Desde quando você está nesse mercado?

Comecei com câmera em 2017. Os filmes eu faço desde 2018. Nasci no interior, passei a adolescência em Santos, e lá eu comecei a namorar o Alemão. A gente ingressou nessa indústria junto.

Notícias — Como seus amigos da época reagiram?

Alguns ficaram indignados e se afastaram. Mas surgiram outros. Foi bom porque eu pude separar o feijão podre, do saudável.

Notícias — O quer você fazia antes?

Eu trabalhava em uma agência de publicidade e sempre tive preconceito em relação ao cinema pornô. Aí eu descobri que podia mudar muito a cabeça das pessoas. Minha relação com o filme pornô é bem política.

Notícias — Os especialistas costumam classificar o tipo de filme que você faz como "pornô gourmet".

Eu hoje estou muito focada na produção, direção e em criação de roteiro. Em questão de atuação, eu escolho o que eu gravo, com quem eu gravo. Só aceito participar do filme quando aprovo o acabamento.

Notícias — Na ocasião da premiação do canal Sexy Hot, o Alemão disse que você estava prestes a contracenar com outro homem, pela primeira vez.

Sim, o filme era com o Apolinário, que é um ator incrível. Ia ser filmado no final de março. Não rolou, claro. Mas depois da quarentena vai rolar. De certa forma, eu sou nova no pornô. No dia em que eu gravar com outro homem, vai ser um boom,. Isso é um tipo de marketing que a gente trabalha.

Notícias — O Alemão interage com outras mulheres?

Sim. Ultimamente, muita gente tem me cobrado gravar com outro homem, já que o Alemão grava com outras mulheres.

Ele nunca me impediu, isso é uma questão minha. Eu estou preferindo bem mais fazer cenas com mulheres. Eu tô em um momento muito sapatão da minha vida. Tipo me descobrindo. Então, não é hora de me desesperar com esse tipo de neura.

Notícias — Você acha que as profissionais do sexo, por lidar o tempo todo "mecanicamente" com os homens, tendem a perder vontade de desenvolver algo mais sério com eles?

No meu caso, depois de conviver tanto tempo com o desejo masculino, eu passei a ter um pouco de receio dos homens na vida real. E me descobri mais identificada com as mulheres, com o papo delas, com o rolê mesmo. Então, eu diria que o meu inconsciente deu uma mudada.

Notícias — De quantos filmes você já participou?

Entre dez e quinze, para a Fever (produtora do casal). Trinta por cento disso produzindo e dirigindo.

Notícias — Podemos dizer que o seu setor é um dos poucos em que os profissionais não estão preocupados com a crise financeira...

Por hora, está incrível. Todo mundo fechado em casa, querendo socializar...o ser humano é sociável. Mas se a quarentena se prolongar muito, o dinheiro da galera vai acabar, né?

Existe uma preocupação porque nós sabemos que as pessoas que têm dinheiro para gastar com pornografia são as que estão empregadas. As que estão em casa, sem trabalho, sabendo que vão passar necessidade, não vão gastar com isso. Até porque têm sites que oferecem esse conteúdo gratuitamente.

Notícias — Vocês interromperam os trabalhos na produtora?

Sim. Por causa da pandemia, paramos totalmente a gravações de filmes. A gente está fazendo grana com o que já foi produzido. Temos conteúdo para lançar até a metade de abril. Pensamos agora em alternativas para depois disso.

Paulo Sampaio