PUBLICIDADE
Topo

Paulo Sampaio

Filha de Leila Cravo: 'O sofrimento levou minha mãe ao álcool e às drogas'

Quinta-feira, 8, Praia Vermelha, Urca: Tathiana, Penélope e Negresco - Paulo Sampaio/UOL
Quinta-feira, 8, Praia Vermelha, Urca: Tathiana, Penélope e Negresco Imagem: Paulo Sampaio/UOL
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

09/10/2020 05h00

Tathiana Cravo de Cerqueira e Souza nasceu no dia 12 de novembro de 1977, exatamente dois anos depois que sua mãe, a atriz Leila Cravo, se envolveu em um misterioso caso de polícia. Símbolo sexual e apresentadora do programa "Fantástico", Leila foi encontrada inconsciente, nua e com muitas escoriações pelo corpo, no asfalto da Avenida Niemeyer, zona sul do Rio.

Ela teria caído, ou sido jogada da suíte presidencial do motel Vip's, o mais famoso da cidade na época. Enquanto a imprensa especulava entre o suicídio e o homicídio, as autoridades divulgaram nos dias seguintes que Leila Cravo havia tentado se matar. O "homem casado" com quem a atriz teria dormido na suíte supostamente colocou um ponto final no romance dos dois, deixando-a sozinha no motel — e inconsolável.

Edgar Façanha, delegado encarregado do caso, baseou a investigação na hipótese de que a atriz, já bastante alcoolizada, havia saído do quarto sem ser vista, descido até o jardim que separa a edificação de um gradil e, de lá, se jogado.

Recolhida no asfalto da Avenida Niemeyer, Leila foi levada para o Hospital Miguel Couto - Tathiana Cravo/Arquivo Pessoal - Tathiana Cravo/Arquivo Pessoal
Recolhida no asfalto da Avenida Niemeyer, Leila foi levada para o Hospital Miguel Couto
Imagem: Tathiana Cravo/Arquivo Pessoal

"Isso tudo é tão absurdo", reage Tathiana, em entrevista exclusiva à coluna. "Minha mãe virou a bêbada maluca que se jogou do motel depois de levar um fora."

Inconformada com a versão "oficial" divulgada pela polícia e eternizada pela imprensa, Tathiana resolveu contar a "história toda". "Você acha que alguém pode cair de 18 metros de altura e não sofrer sequer uma fratura?? Quem consegue acreditar em uma loucura dessas??"

Gente muito poderosa

Sem citar nomes, Tathiana afirma que na madrugada de 12 de novembro de 1975 Leila foi conduzida ao motel e violentada "por pelo menos dois funcionários do alto escalão do governo". "Eles a espancaram, estupraram e depois pagaram para que alguém levasse o corpo inerte dela até o asfalto, e aí orientaram a polícia a veicular a versão do suicídio."

De acordo com a filha de Leila, o crime foi abafado por "gente muito poderosa". "Era época da ditadura, imagine, eles molharam a mão de todo mundo, e depois calaram a boca da minha mãe."

Fim de carreira

Nos meses que se seguiram ao "escândalo do motel Vip's'", Leila Cravo foi massacrada pela opinião pública: "Os amigos se afastaram, ela não recebia mais convites de trabalho, perdeu a paz. Com o tempo, se tornou uma pessoa estragada por dentro, sem contato com a vida nem condições de ser mãe", diz Tathiana.

Em entrevista ao colunista em 2015, Leila disse que lamentava o fim lento de sua carreira. "Eu me senti abandonada, solitária, fiquei triste, deprimida. Além do público que te assiste, você sente falta daquele que finge te admirar e na verdade só quer pegar carona no seu sucesso. São os falsos amigos. Sumiu todo mundo."

Leila (segunda, da esq. para a dir.), com a frenética Leiloca, a atriz Denise Dumont e a cantora Fafá de Belém - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo
Leila (segunda, da esq. para a dir.), com a frenética Leiloca, a atriz Denise Dumont e a cantora Fafá de Belém
Imagem: Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo

Sinal de Alerta

A trajetória da atriz começou no cinema, em pornochanchadas como "Um Whisky Antes, um Cigarro Depois", de 1970, e "Uma Pantera em Minha Cama", 1971. A oportunidade na TV veio quando o ator Carlos Vereza a apresentou ao diretor Walter Avancini, e ela conseguiu uma ponta na novela "O Semideus" (Janete Clair, 1973).

Em "Corrida do Ouro" (Lauro César Muniz e Gilberto Braga, 1974), Leila ganhou um papel propriamente dito - foi escalada para fazer Carmem, que contracenava com Isadora, personagem de Sandra Bréa, outro símbolo sexual da época. Sua última participação em novelas foi em "Sinal de Alerta", de Dias Gomes, em 1978.

Ainda muito jovem, Leila investiu na imagem de símbolo sexual. Nas legendas das fotos, lia-se: "A nudez não me assusta" - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo
Ainda muito jovem, Leila investiu na imagem de símbolo sexual. Nas legendas das fotos, lia-se: "A nudez não me assusta"
Imagem: Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo

A caminho da ruína

Além da dificuldade de se recompor emocionalmente, Leila precisou conviver com uma leve deformação no olho esquerdo, decorrente dos maus tratos no episódio do motel. Ainda posou para algumas capas de revista, fez teatro, cinema e TV, mas inevitavelmente sua vida pessoal caminhava para a ruína.

Ela passou a consumir álcool e cocaína em grandes quantidades, rotineiramente. "Praticamente todo dia ela colocava um salto alto, se vestia, se maquiava e saía. Quando não saía, estava se recuperando dos excessos da véspera", lembra Tathiana.

Depois do escândalo do Vips, Leila ainda saiu em capas de revista, fez cinema, teatro e TV, mas o sofrimento e a dependência química a afastaram de tudo - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo
Depois do escândalo do Vips, Leila ainda saiu em capas de revista, fez cinema, teatro e TV, mas o sofrimento e a dependência química a afastaram de tudo
Imagem: Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo

Noites turbulentas

Na infância, as noites de Tathiana costumavam ser particularmente turbulentas. Ela dormia em uma cama de casal com Leila - a quem nunca chamou de "mãe" e nem pelo nome - e o pânico começava à medida em que o dia amanhecia...

"Quando eu ouvia o barulho de alguém tentando acertar a chave na fechadura, já me cobria com o edredom. Achava que ali estaria protegida. Até hoje tenho o hábito de me cobrir inteira quando durmo, mesmo quando está quente", diz.

Ao entrar em casa, Leila era a imagem da devastação. "Ela estava sempre transtornada, com a maquiagem borrada, a roupa rasgada, e gritava palavrões, jogava tudo longe. Ninguém me explicava aquilo, eu não sabia o que pensar, o que falar a respeito."

Tathiana com a mãe, no começo dos anos 1980 - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo
Tathiana com a mãe, no começo dos anos 1980
Imagem: Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo

De luz e de sombra

A filha acredita que Leila já era consumidora de álcool e drogas antes do acontecido, mas até então a finalidade era se divertir. "Ela estava no auge, fazia 'Fantástico', novela, adorava festa, badalo, zoeira. Depois da violência que sofreu, tudo mudou. Ela passou a colocar para fora as sombras, os demônios, a dor."

Tutelada pelos avós maternos, Tathiana afirma que eles a criaram "porque não tiveram alternativa". "Meu avô era muito fechado. Chegava em casa, jantava e ficava no quarto. Tanto ele como minha avó não tinham nenhum controle sobre minha mãe. Eram completamente impotentes, omissos."

Formada em publicidade, Tathiana tem uma filha de 16 anos e mora até hoje no apartamento de dois quartos que foi de seu avô, na Urca, zona sul do Rio. Atualmente, é professora de massoterapia. Pelo que ela conta, a família toda viveu de aluguéis de imóveis que os Cravo possuíam no bairro.

Tensão no aniversário

Ao citar o descontrole emocional da mãe, Tathiana faz questão de dizer que Leila jamais a agrediu, nem física, nem psicologicamente. Até porque elas pouco se falavam. "Nós vivíamos na mesma casa, mas não tínhamos uma relação de mãe e filha, nem mesmo éramos próximas. No meu aniversário, se tinha festa, eu ficava o tempo todo estressada, com medo que ela começasse a beber e se descontrolasse."

Em determinada ocasião, Tathiana e o namorado resolveram passar um fim de semana em um hotel fazenda, e ambos levaram as mães. "O hotel estava cheio, as pessoas na piscina, se divertindo no toboágua, até que minha mãe começou a beber. Eu congelei. Nessas horas, eu ficava em pânico de pensar que a qualquer instante ela começaria a fazer um escândalo. Era uma coisa muito desagradável, de você não querer estar perto."

Tathiana,entre a avó, a mãe e uma amiga da família - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo
Tathiana,entre a avó, a mãe e uma amiga da família
Imagem: Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo

Ainda que insistisse em ter a mãe próxima, Tathiana já não alimentava muitas esperanças de conquistar a atenção de Leila: "Nos primeiros tempos, eu sentia aquele amor incondicional que todo mundo tem pela mãe. Mas a partir da adolescência, nossa relação ficou bem complicada, a gente batia de frente direto."

Pai filhinho de mamãe

O pai de Tathiana, Maurício de Cerqueira e Souza, já morto, tampouco ofereceu suporte à filha. Sem raiva, ela diz que "ele era um filhinho de mamãe que nunca trabalhou e não tomava conhecimento de nada".

Por mais que tente ser fiel aos acontecimentos, Tathiana nem sempre consegue encontrar as palavras para definir o que sentia. Seu discurso é forte, quase agressivo, e isso faz parecer que ela está pedindo socorro o tempo todo.

Maurício, o pai de Tathiana ("só na hora da foto") - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo
Maurício, o pai de Tathiana ("só na hora da foto")
Imagem: Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo

Sem condição

Na entrevista de 2015, Leila contou que havia morado um tempo em Cascavel, no Paraná, onde apresentava um programa dominical em uma repetidora da TV Bandeirantes. Tathiana diz que não se lembra muito dessa época. "Ela morou fora em alguns momentos, mas eu não sei exatamente onde."

Em um de seus retornos ao apartamento da Urca, Leila se aproximou da neta, Ana Julia, que era uma criança. A menina via na avó "uma novidade".

Tathiana: "Eu queria deixar as duas juntas, achava bom que elas convivessem, e ao mesmo tempo sabia que não podia confiar na minha mãe nem para acompanhar a Ana Julia até a van que a levava para a escola. Imagina alguém sem compromisso nenhum com horários, com dinheiro, com família, nada. A coisa que minha mãe mais gostava era comer em um bom restaurante. Gastava tudo que tinha, sem pestanejar. Adorava ir ao shopping. Quando não saía, passava o dia inteiro no sofá, assistindo TV, absolutamente despreocupada."

Em 2006, no batizado de Ana Julia - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo - Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo
Em 2006, no batizado de Ana Julia
Imagem: Arquivo Pessoal/Tathiana Cravo

Pastel e cervejinha

Há cerca de três anos, quando Tathiana passou a frequentar os cultos do Santo Daime e a "colocar todo o passado para fora", mãe e filha se aproximaram. "Nós conseguimos sentar para tomar um café, comer um bolo, sem agressões nem ressentimentos. Antes da quarentena, houve um momento muito legal. A gente foi à feira juntas, comemos pastel, tomamos uma cervejinha."

Mas já havia um bom tempo que Leila Cravo tinha se tornado refém de outra droga...

Mudança de vício

Nos últimos 20 anos, segundo estimativas de Tathiana, Leila desenvolveu um relacionamento com um homem que conseguiu mantê-la longe das drogas, mas exercia um forte controle sobre ela: "O que aconteceu foi que minha mãe trocou uma dependência por outra", afirma.

"Esse companheiro dela [Tathiana não quis identificá-lo pelo nome] a afastou não só do vício, mas da família toda. Ele a impedia de ter uma vida social, e ela acatava aquilo passivamente. Eles moravam no apartamento do andar debaixo, que era dela, mas eu não me sentia à vontade para ir lá. Sabia que seria recebida com cara feia, que talvez ouvisse alguma coisa desagradável, e que ela não o enfrentaria para ficar do meu lado."

Em foto de 2015, 40 anos depois de enfrentar o "massacre" da opinião pública. "Minha mãe trocou a dependência química pela de um homem" - Zô Guimarães - Zô Guimarães
Em foto de 2015, 40 anos depois de enfrentar o "massacre" da opinião pública. "Minha mãe trocou a dependência química pela de um homem"
Imagem: Zô Guimarães

Chá de hortelã

Leila morreu no último dia 5 de agosto, de complicações decorrentes de uma obstrução intestinal. Uma semana antes, ela ligou para a filha, dizendo que estava passando muito mal e que achava que não ia resistir. "Nunca vi minha mãe falar daquele jeito", conta Tathiana.

Segundo ela, o companheiro de Leila "permaneceu o tempo todo sentado na sala, repetindo que um chá de hortelã resolveria". "Ele dizia: 'São gases'".

Sem conseguir assistir àquela situação passivamente, Tathiana levou a mãe para o hospital [Miguel Couto, o mesmo que a atendeu na madrugada de 25 de novembro de 1975]. "Entrei com ela pela CER (Coordenação de Emergência Regional), e eles a colocaram em uma cadeira de rodas. Foram acolhedores, mas a fizeram passar por todo o protocolo da triagem. Aquilo não tinha cabimento. Ela já não conseguia manter a cabeça erguida. Desfalecia a todo instante."

O fim

Da CER, Leila passou ao setor de traumas, onde se atendem casos graves, e foi entubada. Ali, Tathiana teve mais dificuldade de obter notícias da mãe.

"Eu perguntava qual tinha sido o resultado da tomografia, dos exames de sangue, mas ninguém me respondia. Um dos médicos me barrou a entrada no quarto, eu forcei passagem, ele chamou o segurança. Ainda fiquei um tempo do lado de fora, esperando, até que me deixaram entrar."

Mas Leila não reagia mais.

Tathiana foi para casa tomar um banho. A caminho, ela recebeu um telefonema do hospital, avisando para voltar com a família. Dessa vez, Leila tinha partido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL