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Juiz do caso Carandiru luta MMA e jiu-jitsu para "desacelerar"

O juiz do caso Carandiru, José Augusto Nardy Marzagão, com uma de suas medalhas de campeão paulista de jiu-jítsu - Liene Vicente / TJ-SP
O juiz do caso Carandiru, José Augusto Nardy Marzagão, com uma de suas medalhas de campeão paulista de jiu-jítsu Imagem: Liene Vicente / TJ-SP

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

08/04/2013 06h00Atualizada em 08/04/2013 15h36

Ao menos indiretamente, as artes marciais auxiliarão aquele que é considerado pelo próprio Tribunal de Justiça de São Paulo o maior julgamento na história do judiciário paulista. A partir das 9h, da próxima segunda-feira (15), no Fórum Criminal da Barra Funda (zona oeste de SP), 26 policiais militares sentam no banco dos réus acusados, em conjunto, pela morte de 15 presos no massacre do Carandiru, complexo penitenciário do Estado implodido em 2002.

Ao todo, são 79 réus e 111 internos assassinados –em processos que devem ser julgados até o final do ano.

O Tribunal do Júri do caso Carandiru, que começaria na segunda-feira (8) no Fórum Criminal da Barra Funda (zona oeste de São Paulo), teve o início adiado para 15 de abril, após uma jurada, com problemas de saúde, ser dispensada .

Segundo o juiz José Augusto Nardy Marzagão, a equipe médica que dá suporte ao júri constatou “impossibilidade” da jurada de permanecer no tribunal. Por conta disso, o Conselho de Sentença (corpo de jurados), sorteado nesta manhã, teve de ser dissolvido.

A maratona de depoimentos das 23 testemunhas (13 da acusação e dez da defesa) e os interrogatórios dos 26 réus será presidida pelo juiz José Augusto Nardy Marzagão, 41, do Fórum de Santana (zona norte), pelas próximas duas semanas. O tempo é uma estimativa do TJ-SP.

Lutador de MMA (sigla em inglês para artes marciais mistas, ou "mixed martial arts") e campeão paulista de jiu-jitsu, o magistrado nascido em Bragança Paulista, interior do Estado, tem no julgamento do massacre dos presos talvez o caso mais midiático de seus 15 anos de carreira, já que boa parte dela, contou, em entrevista ao UOL, foi dedicada à área cível. Artistas de TV já foram condenados pelo juiz por danos morais, assim como prefeitos acusados de corrupção e um padre que respondia pelo crime de pedofilia.

Adepto das artes marciais desde os seis anos, Marzagão começou com o judô, mas só na magistratura aderiu ao jiu-jítsu --e por incentivo de um amigo também juiz. O preconceito que ela afirma que tinha em relação ao esporte, ao associá-lo à violência, logo acabou.

Onde entra o esporte na rotina da magistratura?

“Sou hiperativo. O esporte me dá calma, serenidade, sem ele eu seria muito ‘pilhado’. Já foi a época em que se associava essas lutas a violência: elas me dão disciplina”, disse. “E ainda assim, sou meio acelerado”, salientou.

Em tempo: no caso Carandiru desde julho de 2012, o magistrado decidiu já em setembro que o júri fosse realizado em 28 de janeiro deste ano. A data acabou adiada para abril a pedido do Ministério Público e da defesa dos réus.

O júri que começa nesta segunda é a primeira etapa e obedece a ordem da acusação, que apontou grupos distintos da PM relacionados a mortes de presos localizados em pavimentos distintos do pavilhão 9, onde ocorreram todas as 111 mortes.

Finalizado esse primeiro júri, o magistrado pretende marcar o segundo –de 28 PMs acusados da morte de outros 73 presos –para “daqui dois ou três meses”. “Quero julgar tudo até o fim do ano”, disse.

À época do massacre, juiz era acadêmico de direito

O adiamento do júri em janeiro ocorreu após pedido da acusação e da defesa para que a perícia do confronto balístico fosse refeita. Mês passado, o Instituto de Criminalística respondeu ao juiz que era impossível refazer a análise decorrido tanto tempo do crime–armas e projéteis estavam inutilizados. Lá se vão 20 anos e seis meses do massacre. Desde então, cinco dos 84 réus morreram.

À época dos fatos, outubro de 1992, Marzagão cursava o segundo ano de direito. Se tanto depois um júri desse tipo tem efeito educativo para sociedade?

“Foram muitos recursos que travaram esse processo, infelizmente, e o judiciário não tem que ficar em uma redoma de vidro, mas também não pode dar opinião que influencie os jurados. Tem que dar informação. E também é papel da imprensa reviver o que aconteceu”, declarou.

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