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Para evitar assédio nas ruas de BH, jovem adota careta do "dentinho"

No início desta semana, Débora relatou sua técnica contra a abordagem em seu perfil nas redes sociais, e o post foi um sucesso - Reprodução/Facebook
No início desta semana, Débora relatou sua técnica contra a abordagem em seu perfil nas redes sociais, e o post foi um sucesso Imagem: Reprodução/Facebook

Carlos Eduardo Cherem

Do UOL, em Belo Horizonte

20/03/2015 10h30

Cansada de ser assediada por homens nas ruas de Belo Horizonte, a estudante de administração pública na FJP (Fundação João Pinheiro), Débora Adorno, 22, resolveu adotar uma técnica inusitada para dar fim às cantadas indesejadas: uma careta.

“Essas cantadas, esse fiu-fiu nas ruas, só ofendem as mulheres. Nenhuma mulher se sente envaidecida com isso. Muito pelo contrário, humilha e constrange as mulheres”, afirma a estudante.

A técnica consiste em dobrar o lábio superior para dentro da boca, de forma que a arcada dentária fique exposta constantemente. “Algo entre o ridículo e o constrangedor”, diz ela. Ela chama a careta de “dentinho”. “Os homens ficam com asco. É uma situação ruim para eles.”

No início desta semana, Débora relatou sua técnica contra a abordagem em seu perfil nas redes sociais. O texto foi curtido, compartilhado e comentado por milhares de pessoas.

“Foi uma surpresa absoluta. Não esperava que fizesse tanto sucesso. Mas é legal poder colocar a questão em discussão”, afirma. “Tem homens que veem a cantada de rua como um elogio. Pensa que a mulher gosta e que está na rua para isso mesmo.”

O preconceito do “dentinho”

“Não sou um pedaço de carne exposto na rua. Não é porque a rua é pública, que o meu corpo também é público”, diz Débora. Mas, se o sucesso foi grande, a estudante também recebeu críticas de pessoas que afirmaram ser o “dentinho” preconceituoso por causa de portadores de deficiências.

“Jamais quis ridicularizar ou ofender essas pessoas. Se o fiz, peço imensas desculpas. O objetivo principal do relato foi criticar a cultura machista das cantadas de rua e relatar a maneira que encontrei de me defender dos assédios”, afirmou.

Igualdade de gêneros no serviço público

Débora é “feminista convicta”. Embora não seja militante, a estudante explica que sempre está presente em eventos de 8 de março, quando é comemorado o Dia da Mulher, e nas Marchas das Vadias. “Vou a todos esses eventos. Participo muito, mas não sou militante de nenhuma organização”.

Ela lembra que, no próximo ano, quando se forma no curso de administração pública da FJP, pretende participar de uma pesquisa sobre a “igualdade de gêneros no serviço público”, que será feita pela Fundação. “Quando formamos na FJP, automaticamente somos funcionários públicos do Estado. Pretendo estudar e poder trabalhar muito ainda com questões de feminismo e gênero.”

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