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Torneiras e chuveiros recebem água salgada na cidade baiana de Itabuna

Caminhões pipas abastecem 130 tanques com capacidade de 20 mil litros instalados em vários bairros de Itabuna, sul da Bahia, para diminuir a falta de água que atinge a cidade devido à estiagem - Divulgação/ Prefeitura de Itabuna
Caminhões pipas abastecem 130 tanques com capacidade de 20 mil litros instalados em vários bairros de Itabuna, sul da Bahia, para diminuir a falta de água que atinge a cidade devido à estiagem Imagem: Divulgação/ Prefeitura de Itabuna

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

25/04/2016 18h17

Ao abrir a torneira e chuveiro, jorra água salgada do mar. Essa é a rotina de habitantes de uma cidade da Bahia desde o último mês de dezembro. Moradores da cidade baiana de Itabuna (435 km de Salvador) reclamam que estão com problemas de pele porque a água fornecida pela Emasa (Empresa Municipal de Águas e Saneamento) é imprópria para consumo e mesmo para higiene pessoal. Pelo menos dez bairros estão sem água nas torneiras há quase dois meses.

Devido ao índice de cloretos na água acima do normal - ou seja, a água está com sal acima dos limites -, a prefeitura alertou que pessoas hipertensas não podem beber a água que sai das torneiras, mesmo filtrando o líquido.

Para amenizar o problema, a prefeitura informa que instalou 130 tanques com capacidade de 20.000 litros para que os moradores tenham água potável diariamente, fornecida por 30 caminhões-pipa que vão às comunidades afetadas.

 A Emasa alega que a estiagem severa é responsável pelo alto teor de sal na água e pela falta de regularidade no sistema de abastecimento em Itabuna.

Segundo a empresa, esta é a estiagem mais longa já registrada nos últimos 50 anos na região - a falta de chuvas no sul da Bahia, no mês de março, diminuiu de 45% para 30% na captação do principal manancial da cidade, o rio Castelo Novo, e dificulta o abastecimento de água em Itabuna.

A situação é inusitada e, ao mesmo tempo, preocupante. O alto teor de cloreto de sódio (sal) contido na água distribuída ocorre porque o rio Castelo Novo, localizado próximo à Ilhéus, está no mesmo nível do mar e volume baixo para conter a invasão do mar durante a maré cheia. Apesar do processo de tratamento, a água distribuída nas torneiras não está potável.

Os problemas de abastecimento de água em Itabuna já renderam protestos e estão com "memes" na internet. Um deles diz: "o preço da água de Itabuna aumentou porque a cada dez litros você recebe um quilo de sal".

Outro meme mostra duas fotos do ator Rodrigo Santoro, uma com os cabelos penteados lavados com água de outra cidade, e outra, com a cabeleira despenteada depois de tomar banho em Itabuna.

Moradores compram água

Para poder cozinhar e beber água, moradores são obrigados a comprarem garrafões de água mineral. Segundo eles, a água fornecida só pode ser usada na limpeza da casa e para tomar banho.

“A água vem com cor escura e com forte odor. Mesmo assim, temos de usá-la porque não temos como comprar água mineral para tomar banho. Minha pele está irritada e os cabelos desidratados, duros, de tanto sal que vem na água. O sabonete e o xampu não espumam, e a gente acaba gastando mais produto no banho”, diz a comerciária Karla Lisboa Borges, 34.

Ela conta que paga por mês cerca de R$ 120 de conta de água, além de o consumo de água mineral ter dobrado. A família de Karla Borges, com três pessoas, consome dois galões de 20 litros de água por semana. Se tivesse a água limpa nas torneiras, ela diz que gastaria apenas um. Atualmente, um galão de 20 litros de água mineral custa R$ 10 na cidade - R$ 3 a mais do que dez dias antes.

Para diminuir as despesas com a compra de água mineral, moradores estão armazenando água da chuva em casa. “A população toda está comprando balde para armazenar a água da chuva”, disse Karla Borges.

 

Torneiras e chuveiros de Itabuna recebem água salgada - Divulgação/Prefeitura de Itabina - Divulgação/Prefeitura de Itabina
Rio Castelo Novo é o principal manancial que abastece a cidade de Itabuna, mas recebe a água do mar quando está na maré alta; a água distribuída à população está com alto teor de cloreto de sódio (sal), o que a torna imprópria para consumo
Imagem: Divulgação/Prefeitura de Itabina

Água distribuída é pouca

A população reclama que a quantidade de água fornecida pelos caminhões-pipa é insuficiente para atender a demanda do município. “Logo que amanhece, a gente tem de estar aqui na fila para pegar a ficha da água. Se demorar muito, ficamos sem", diz a aposentada Ivone Francisca da Silva, 66. "Ela serve para tudo: beber, cozinhar, lavar roupa, tomar banho. Duas vasilhas não dá pra quase nada.”

Outros moradores contam que as torneiras e pias estão enferrujando por conta do sal na água. Eletrodomésticos, como máquina de lavar roupas e chuveiros, apresentam problemas porque a a água com excesso de sal afeta a corrente elétrica de forma intensa, aumentando o risco de choques. “Eu ligo a máquina de lavar e aviso logo as crianças que não cheguem perto”, contou a dona de casa Mary Menezes Silva, 35.

O professor Carlos Eduardo gravou um vídeo mostrando o problema da condução de energia elétrica na água distribuída pela Emasa em Itabuna. No vídeo, ele mostra dois copos com água, um com água mineral e outro com água da Emasa. Quando o fio entra em contato com a água com alto teor de sal, a lâmpada acende. Já na água mineral, a lâmpada permanece desligada.  

Revezamento

A Emasa informou ao UOL que está fazendo o revezamento entre os bairros para minimizar a falta de água e evitar o colapso ocasionados pela seca dos mananciais que abastecem Itabuna. Segundo a empresa, atualmente, o sistema opera com 50% da capacidade de captação de água nos mananciais.

“Sem perspectiva de chuva para os próximos dias e com a consequente diminuição das vazões, Castelo Novo passou a ser o principal ponto de captação que abastece, hoje, a cidade. A questão é que Castelo Novo fica próximo à cota do nível do mar", informou a mepresa em nota. "Com o avanço das marés e a redução de vazão de contribuição nos mananciais, os índices de cloretos na água tendem a aumentar”, informou a Emasa, destacando que estuda “fontes alternativas, em áreas próximas a Itabuna, para garantir o abastecimento.”

A prefeitura informou ainda que decretou situação de emergência para acelerar as ações de combate a seca na região de Itabuna e que conseguiu a liberação de R$ 3,8 milhões da Secretaria de Infraestrutura Hídrica e Saneamento para ações emergenciais, como realocação da captação de água do bairro Nova Ferradas, e a recuperação da estação de tratamento de água da localidade, que possibilitará o aumento da oferta e a melhoria da qualidade da água distribuída em Itabuna.

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