Diego Herculano/AFP

Violência no Rio

Rio é "Caribe e Síria no mesmo lugar", diz autor da faixa "Welcome to hell"

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • Márcia Foletto/Agência O Globo

    Faixa criada por movimento de policiais saúda a chegada de passageiros no Galeão. Grupo realizou duas manifestações e conseguiu espaço na mídia internacional

    Faixa criada por movimento de policiais saúda a chegada de passageiros no Galeão. Grupo realizou duas manifestações e conseguiu espaço na mídia internacional

"Welcome to hell" ("Bem-vindo ao inferno"), diz a faixa do grupo Juntos Somos Fortes. Assim foram recebidos no Rio de Janeiro, sede dos Jogos Olímpicos de 2016, os turistas e passageiros que desembarcam no aeroporto do Galeão, na zona norte carioca, durante os protestos realizados pelo movimento que reúne policiais civis, PMs, bombeiros e profissionais de outras categorias da segurança pública afetados pela crise financeira no Estado.

As manifestações realizadas nos dias 27 de junho e 4 de julho, respectivamente, ganharam destaque em vários jornais pelo mundo, como "BBC", "The Guardian" e "The Independent". A foto que mostra a saudação atribuída à cidade olímpica também teve grande repercussão nas redes sociais. Os Jogos vão começar daqui a 13 dias.

Criador da faixa, o policial civil André Dutra, lotado na 37ª DP (Ilha do Governador), afirmou ao UOL que, além das reivindicações trabalhistas, como pagamento de salários e gratificações que atrasaram em razão do estado de calamidade pública no Rio, o movimento surgiu com objetivo mais amplo: denunciar para o mundo o que ele chama de "mentira olímpica".

"Inicialmente, a ideia era só a questão salarial. Estávamos há praticamente dois meses sem receber. Mas observamos que a gente também precisava mostrar a realidade que a gente vive aqui. Estamos em uma verdadeira guerra civil, mas isso não é divulgado lá fora. No Rio, a gente vê comboios de traficantes armados com fuzis passeando para lá e para cá. Em qualquer lugar do mundo, isso seria terrorismo, guerrilha. Mas aqui é normal", afirmou.

Dutra diz acreditar que o Rio inaugurou uma nova modalidade turística: "o turismo de guerra".

"Quem chega no Galeão sabe que aqui não é a Disney. É um turismo arriscado, muitos vêm aqui para ver favela. Além de conhecer os pontos turísticos, eles vêm para ver o que é ruim, praticamente um turismo de guerra. O cara não quer se arriscar na Síria ou no Iraque, é melhor vir para o Rio de Janeiro porque, depois de passear na favela, ele pode voltar para o hotel, tem o Cristo Redentor, a parte bonitinha da coisa. Ele vê a guerra e depois vai à praia para tomar caipirinha."

No Rio, o turista conhece o Caribe e a Síria no mesmo lugar.

UOL
Banhista se refresca na praia do Arpoador (à esq.), no Rio, em dia de mar cristalino; militares realizam simulado antiterror (à dir.) em estação de trem da capital fluminense

Movimento criado pelo WhatsApp

O movimento Juntos Somos Fortes surgiu com um grupo no WhatsApp, do qual participam policiais civis e militares, bombeiros, agentes do Degase (Departamento Geral de Ações Socioeducativas) e da Seap (Secretaria de Estado de Administração Penitenciária), e profissionais de outras categorias da segurança pública no Estado. Todos trabalham ou moram no bairro da Ilha do Governador, na zona norte carioca, onde está situado o Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão.

Com salários atrasados e sem receber gratificações de 2015, eles começaram a utilizar o grupo criado no aplicativo de mensagens para organizar o primeiro protesto, convocado para o dia 27 de junho. A mobilização foi feita em apenas uma semana. "Eu dizia a eles: o WhatsApp ajudou a derrubar o governo do Egito. Por que a gente não se organiza também? Articulamos tudo em uma semana, sem verba ou patrocínio. Fizemos uma 'vaquinha' e cada um deu R$ 10 para ajudar a confeccionar as faixas. Toda a divulgação foi feita só com WhatsApp e Facebook", explicou.

A escolha pelo Galeão foi estratégica. Além de estar localizado na área de atuação (a Ilha do Governador) do grupo, o aeroporto representaria "a porta de entrada do Rio para o mundo". "Nós já estávamos mesmo aqui do lado. Começamos a debater a ideia da faixa, a ideia era dar as boas vindas para o turista, mas não podia ser qualquer coisa. Foi nessa hora que surgiu o 'Welcome to hell'. Nós vivemos em um verdadeiro inferno."

Se fosse só uma mensagem 'bacana' de boas-vindas, as pessoas poderiam pensar que estávamos satisfeitos com a nossa realidade.

O policial disse ainda que as duas manifestações contaram com o apoio da população e dos passageiros e turistas que circulavam pelo Galeão. O mesmo, porém, não ocorreu com as autoridades. Na visão de Dutra, a repercussão internacional da faixa e o clima de insegurança pública em contraste com a proximidade dos Jogos Olímpicos foram fatos que aceleraram a transferência de um aporte de R$ 2,9 bilhões por parte do governo federal. Com o socorro liberado pela União, o Estado conseguiu quitar os salários atrasados dos policiais e ainda quitou parte das gratificações do ano passado.

Estado ainda deve

O movimento Juntos Somos Fortes afirma que o Executivo não conseguiu quitar todos os débitos trabalhistas com as polícias Civil e Militar. No caso da Civil, explicou Dutra, foram pagos os quase dois meses de salário atrasado e o primeiro semestre de bonificações referentes ao cumprimento de metas do ano passado. O governo confirma.

Restam a pagar: o segundo semestre de gratificações, o bônus do RAS (Regime Adicional de Serviço) desde fevereiro desse ano e, no caso da Polícia Militar, os valores referentes ao Proeis (Programa Estadual de Integração na Segurança) desde novembro de 2015.

"Além do dinheiro que o Estado ainda não pagou, também estamos reivindicando que seja mantido o calendário inicial. O salário passou do segundo ou terceiro dia útil para o décimo dia útil. A programação do décimo terceiro também vai ser alterada", disse. "O governo pode até pagá-lo integralmente até o fim do ano, ele não é obrigado a pagar em parcelas. Mas isso quebra qualquer planejamento. Muita gente contava com esse dinheiro agora em julho."

Em nota, o governo do Estado informou ter quitado no dia 6 de julho os salários de junho dos servidores ativos e inativos, além de pensionistas dos profissionais de segurança pública. No total, o valor líquido corresponderia a R$ 694 milhões. O pagamento ocorreu após a liberação do aporte do governo federal.

Resta a pagar uma dívida de R$ 218 milhões referentes a gratificações do sistema de metas, RAS e Proeis, informou a Secretaria de Estado de Fazenda. Em relação aos três programas, o Executivo quitou outros R$ 216,5 milhões neste ano, sendo R$ 12,3 milhões pelo RAS (de fevereiro a maio de 2016), R$ 1,29 milhão pelo Proeis (referente a 2016) e R$ 203 milhões com premiações (R$ 166 milhões para a PM, e R$ 37 milhões para a Polícia Civil).

"Novos repasses vão ser efetuados nas próximas semanas, totalizando os R$ 2,9 bilhões, conforme publicado no Diário Oficial do Estado. (...) O atraso no repasse é um reflexo da grave crise econômica observada em especial no Estado do Rio de Janeiro. Neste momento, a prioridade é o pagamento de todo o funcionalismo público e as exigências constitucionais", informou o governo.

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