Violência no Rio

Família mostra buracos de tiro na casa onde criança foi baleada no Rio

Giovani Lettiere

Colaboração para o UOL, no Rio

Parentes da estudante Vanessa dos Santos, 10, morta com um tiro na cabeça dentro de casa durante tiroteio na favela Camarista Méier, no Complexo do Lins, zona norte do Rio de Janeiro, mostraram na tarde desta quinta-feira (6) o estado em que ficou a residência da menina após o tiroteio entre policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) e bandidos na terça-feira (4). Há muitas marcas de tiros pela casa, na parede da sala, no sofá, no computador e até numa cortina.

"Fiquei impressionado com a quantidade de tiros. Não consegui nem contar. Não sou perito, mas, aparentemente, houve tiro de fora para dentro e de dentro para fora da casa, já que haveria um policial dentro do imóvel. É uma residência muito humilde, de três cômodos apenas e hermeticamente fechada, não tem porta na parte de trás e o telhado é de laje. Não há como escapar dali", ressalta Antônio Carlos Costa, fundador da ONG Rio de Paz e que visitou o local logo após o sepultamento da menina no cemitério de Inhaúma, na quinta-feira, para dar apoio à família.

Antônio revelou ainda que a família de Vanessa - a mãe da menina, Adriana Maria dos Santos, o atual companheiro dela e os outros dois filhos - deixou a residência e está agora na casa de parentes.

"A família está com medo de retaliação e se disse ameaçada, preferindo sair dali", conta. "O clima na comunidade é de medo. Há um temor grande da polícia. As ruas estão vazias", acrescentou o responsável pela ONG.

Ele classificou a ação na Camarista Méier como "desastrada". "Pedimos o fim da cultura do confronto. É muito difícil não haver vítimas até por conta da precariedade das construções na favela. Considero que não há motivo para dar tiro em direção à casa da menina. O que levou a uma ação tão desastrada? Estamos cobrando uma investigação", exige Costa, que ficou impressionado também com as péssimas condições de trabalho dos policiais na UPP.

Procurada pelo UOL para comentar o estado em que se encontrava a casa em que Vanessa morava, a assessoria do comando das UPPs do Rio de Janeiro se limitou a dizer que "a Divisão de Homicídios está investigando o caso".

Desde a morte da estudante, na terça-feira (4), há muitas versões sobre o tiroteio. O coronel Ivan Blaz, porta-voz da Polícia Militar do Rio de Janeiro, afirmou que o policiamento foi atacado com tiros que vieram de trás da casa de Vanessa e que o tenente Márcio Luiz, atingido no ombro por bandidos, entrou na casa com outros policiais. Segundo ele, a menina foi atingida por disparos vindos de criminosos que estavam do lado de fora da residência. 

O depoimento do coronel difere da nota divulgada pela assessoria do comando das UPPs, que garante que o tenente não viu a estudante e não chegou a entrar na casa onde ela estava, sendo ferido na porta.

"O oficial, que portava apenas um fuzil no momento da ação, durante um deslocamento para checar a reforma da base avançada na localidade Boca do Mato, e a equipe foram alvos de disparos de criminosos que estavam na parta alta da comunidade, mas não revidaram. Ao seguirem para localizar os bandidos, o tenente foi alertado por uma moradora sobre uma movimentação suspeita próximo à casa. Ao tentar entrar na residência, ele foi alvejado por três disparos de pistola no colete efetuados do interior da casa. Ao se virar para proteger duas mulheres que estavam do lado de fora e se identificaram como parentes da criança, o mesmo foi atingido por outros dois tiros nas costas, também de pistola, sendo um no ombro e outro também no colete. O tenente ressalta que não viu a menina nem o suspeito em nenhum momento do ataque", informa o comunicado da UPP.

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