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2 meses
Entregadores protestam em condomínio após ato de racismo em Valinhos (SP)

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

08/08/2020 12h02

Um grupo de entregadores organizou hoje de manhã um buzinaço em frente ao condomínio onde Matheus Pires foi vítima de um ato racista em Valinhos, no interior de São Paulo. Um vídeo divulgado ontem mostrou as ofensas sofridas por Pires em uma entrega realizada no final de julho.

O ato em apoio ao entregador ocorreu por volta das 9h no bairro Chácara Silvania, onde fica o conjunto. Segundo organizadores do evento, ao menos 100 entregadores e apoiadores estiveram presentes no protesto.

"[O protesto é] para a gente mostrar que não pode fazer isso com a gente. Motoboy não é nenhum vagabundo, que está indo para rua querendo roubar. Motoboy é tachado como isso. Mas não, a maioria é trabalhador, pai de família", diz Gustavo Mourão, uma das lideranças dos entregadores na região de Campinas, cidade próxima a Valinhos, que fica a cerca de 85 quilômetros da capital paulista.

"Você tem inveja disso aqui"

Em 31 de julho, o contabilista Mateus Abreu Almeida Prado Couto, 31, ofendeu e humilhou Pires, 19. "Moleque, escuta aqui. Você tem inveja disso aqui, rapaz. Você tem inveja dessas famílias. Você tem inveja disso aqui também." Ao dizer esta última frase, Couto apontou para sua pele, branca. Ele também chamou Pires de "semianalfabeto". O entregador manteve a calma durante os ataques.

Os entregadores começaram a organizar o ato na noite de ontem e combinaram de se encontrar em um posto por volta das 8h30. Na sequência, partiram juntos rumo ao endereço do condomínio. Motoristas de carro que passavam pelo local também participaram do buzinaço.

Respeito

Nos discursos ditos antes do início do ato, uma palavra era comum: "respeito". Para Mourão, o crime de racismo que ocorreu em Valinhos pode ter como consequência uma mudança no comportamento de parte da sociedade.

"Acabou mostrando como tudo isso, com a repercussão que deu que, para a população, parar com essas coisas, parar de ver o motoboy como um marginal, como um ladrão", disse ao UOL. "O pessoal vai começar a enxergar que tem muito pai de família, que a gente tem voz, união."

Mourão é uma das lideranças dos "breques dos apps" e está em busca do contato de Pires. "A gente queria fazer uma live, para ele expor o menino trabalhador que ele é. Parece ser um menino bacana. Até no vídeo a gente consegue notar que ele manteve a calma a todo momento." Os grupos dos quais Mourão faz parte reúnem cerca de 2.500 entregadores apenas na região de Campinas.

Sem inquérito

Segundo a Polícia Civil, não há inquérito aberto para apurar o ato de racismo de Couto. O crime, porém, havia sido registrado em boletim de ocorrência. "Nós precisamos de uma representação da vítima para que isso possa acontecer", disse o delegado Luís Henrique Apocalipse Joia. A reportagem ainda não conseguiu contato com Pires a respeito do inquérito.

Após o ocorrido, a família de Mateus Couto argumentou que o homem sofre de esquizofrenia. O pai dele apresentou à Polícia Civil um laudo que comprovaria que ele faz tratamento médico, e pediu "compreensão" devido ao estado de saúde. Levado à delegacia no dia das ofensas, foi liberado para responder ao crime de injúria racial em liberdade.

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