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PR: Mãe é suspeita de desviar dinheiro de vaquinhas do tratamento do filho

Daiane de Paula Camargo teria usado problema de saúde do filho para arrecadar R$ 116 mil entre fevereiro de 2017 e julho de 2019, mas valor ainda pode ser maior Imagem: Reprodução

Abinoan Santiago

Colaboração para o UOL, em Florianópolis

11/11/2020 20h18

O destino do dinheiro de dezenas de mobilizações sociais ao longo de dois anos para ajudar uma criança com leucemia virou alvo de investigação criminal em Guarapuava (PR), cidade a 256 km de Curitiba. Daiane de Paula Camargo, de 42 anos, é acusada pelo Ministério Público do Paraná de usar em "benefício próprio quase todo" o recurso arrecadado para o tratamento do filho, hoje com 12 anos e em fase de recuperação da doença. Ele teve todas as despesas cobertas pelo plano de saúde, diz o hospital.

O UOL teve acesso à denúncia, protocolada e aceita no fim de outubro na Justiça. O documento narra que Daiane usou o problema de saúde do filho para arrecadar R$ 116 mil entre fevereiro de 2017 e julho de 2019. O valor ainda pode ser maior porque, segundo o MP, as campanhas nas redes sociais seguiram até janeiro de 2020. A mulher apagou todas.

Em pesquisa em um site de vaquinhas online, três campanhas ainda permanecem no ar em nome do garoto. Em uma o valor arrecadado estava em R$ 6.195, com a meta em R$ 10 mil. A outra, com intenção de receber R$ 5 mil, apresentava arrecadação de R$ 900. Em outra, a campanha não conseguiu nenhum recurso dos R$ 12 mil pretendidos.

Mãe se negava a prestar contas, diz MP

A falta de prestação de contas da acusada sobre a destinação do dinheiro motivou a desconfiança de quem ajudou. Voluntários procuraram o MP, que confirmou o suposto desvio do recurso após análise de dados da quebra do sigilo bancário da mulher.

A denúncia diz que a mãe usou o dinheiro para compras pessoais. Ela teria usado do recurso apenas o valor de R$ 50 para um exame. A informação é confirmada pelo Hospital Pequeno Príncipe de Curitiba, onde o garoto fez o tratamento contra a leucemia.

Em documento obtido pela reportagem, a unidade diz que todas as despesas desde o início do tratamento eram cobertas pelo plano de saúde do garoto, com exceção do exame de R$ 50.

"A denunciada desviou quase que a totalidade desses valores em benefício próprio, com gastos pessoais, pois o menor foi atendido pela Unimed, tendo efetuado o pagamento apenas de um exame no valor de R$ 50, sendo quase a totalidade dos valores doados gastos e usados em benefício próprio da denunciada, em gastos pessoais e compras de produtos para uso pessoal da denunciada", diz o promotor de Justiça Mauro Alcione Dobrowolski.

O UOL ouviu quatro pessoas que confirmaram a acusação do MP. Elas afirmam que Daiane teria usado parte do dinheiro para comprar celulares e roupas caras, além de pagar despesas com salão de beleza e tatuagens. A mãe do garoto diz que é diarista, mas as testemunhas negam que seja verdade.

O advogado Juliano Sidor, que defende Daiane, informou apenas que "a inocência será comprovada nos autos".

"O que eu posso comentar é que a senhora Daiane é inocente, sendo que as acusações que pesam contra ela são infundadas e carecem de prova. Todos os fatos serão esclarecidos no momento oportuno e a inocência dela será comprovada nos autos", garantiu a defesa dela em nota.

Bazar desencadeou investigação

A investigação contra Daiane Camargo surgiu após um bazar realizado em fevereiro de 2019, que mobilizou empresários e boa parte da população de Guarapuava.

Os organizadores levantaram R$ 11.936, mas o dinheiro acabou sendo depositado em juízo porque Daiane não aceitou recebê-lo com a condição de prestar contas da destinação do recurso, como havia sido combinado.

"Ela se negou e mudou o comportamento dizendo que estava se sentindo humilhada. Se fez de desentendida e disse que se soubesse que seria dessa forma, não permitiria o bazar. Estava com o dinheiro na mão e procurei o Ministério Público que me orientou a depositar em juízo", conta a oficial de Justiça Leila Denise Kaminski, de 48 anos, uma das organizadoras do evento.

A servidora pública diz que a primeira denúncia no MP foi arquivada de ofício, mas passou a ser investigada após recurso.

"Ela colocava muitos apelos na internet pedindo ajuda ao menino. Vi um desses apelos e fiquei tocada", justificou Leila sobre o que a motivou a querer fazer o bazar.

Após o desentendimento com a mãe do garoto, Leila diz que passou a procurar e receber informações de outros moradores de Guarapuava e de outras cidades que também ajudaram e ficaram sem prestação de contas do dinheiro ou se sentiram enganados.

"Falei com mais de 50 pessoas. Parecia a Lava Jato, uma pessoa falava sobre outra. Eles não denunciavam porque ou eram pouco instruídos, tinham medo de personalidade agressiva de Daiane ou de serem difamados", relata a servidora pública.

A versão é sustentada pela ex-cunhada de Daiane, a autônoma Priscila Pereira, de 26 anos. O cartão de crédito da mãe dela era usado pela acusada nas compras. O caso veio à tona aos parentes após o limite de crédito ser excedido.

O caso foi um dos motivos para a separação de Daiane e o irmão de Priscila, diz a ex-cunhada.

Testemunhas relatam que Daiane usou dinheiro com celulares e roupas caras, além de pagar despesas com salão de beleza e tatuagens Imagem: Reprodução

"Com o dinheiro da primeira arrecadação, ela comprou um celular e roupas caras", afirma. "A máscara dela caiu depois do bazar. Achou que iria ganhar dinheiro fácil, sem questionar como iria gastar. Depois disso, muitas pessoas a viam se esbaldando em shoppings em Curitiba e gente dizendo que também foi enganada."

Vítimas eram escolhidas nas redes sociais

Antes do bazar, no entanto, outras pessoas também teriam sido alvo de Daiane, segundo apurou o UOL.

No início de 2019, o empresário Cézar Augusto Guerra foi um dos primeiros a desconfiar da acusada. Ela o teria procurado pelas redes sociais alegando que precisava de dinheiro para pagar o aluguel de onde estava hospedada para o tratamento do filho, em Curitiba. Sensibilizado, o empresário mobilizou amigos para ajudar na causa.

Cézar desconfiou de Daiane quando pediu para ela listar quais seriam as prioridades de pagamentos. A mulher recusou e exigiu dinheiro na própria conta corrente.

"Se não fosse um cara que já tivesse levado golpes na vida, daria o dinheiro de bom coração. Me espantou naquele momento ela me dizer que o aluguel não precisava mais pagar dias depois de pedir e que o recurso seria para outras coisas. Pedi o comprovante para saber o valor para pagar os próximos meses. Ela não quis mandar nem enviar o contato do locatário. Não poderia entrar nessa porque meus amigos iriam perguntar o que foi feito com o dinheiro", relatou o empresário.

De acordo com César, a diarista o procurou novamente para pedir dinheiro para remédio, mas não enviou a receita, mais uma vez exigindo apenas o valor.

"Depois de 30 dias, ela me procurou de novo para dizer que estava precisando de remédio. Eu disse que poderia dar os medicamentos, mas ela recusou. Cadê a urgência que dizia ter?", questiona o empresário.

O mesmo ocorreu com a autônoma Cibele Rodrigues. Ela também foi procurada pelas redes sociais. Em outubro de 2019, doou uma compra de alimentos para a mãe do garoto, mas as duas acabaram se desentendo.

Daiane não gostou de uma publicação de agradecimento no Facebook da voluntária, pois achava que estava sendo "humilhada". Isso acendeu o alerta na autônoma e acabou notando que Daiane usava itens caros para uma pessoa que não tinha renda.

"A gente acabou se desentendendo. Me chamou de Judas e me afastei. O menino anda muito bem vestido. Isso não se pode negar. Agora ela também, com unhas e cabelos bem-feitos, mesmo sem fazer nada da vida", disse Cibele.

Mulher também teria mentido sobre doença, diz MP

O filho de Daiane atualmente está com 12 anos, apurou o UOL. Diagnostico com leucemia aos 9 anos, recebeu transplante de medula óssea em 2020 e atualmente passa por recuperação da doença.

De acordo com a denúncia do MP, Daiane também é suspeita de inventar que o garoto tinha doença de enxerto.

"O guarapuavano [filho da suspeita] já passou por um transplante de medula óssea, em que a irmã foi doadora. Agora, enfrenta a doença de enxerto", escreveu Daiane, no início de 2020, nas redes sociais, como mostra anexo da denuncia obtido pela reportagem.

A publicação gerou até matérias jornalísticas em veículos de comunicação da região, mas um ofício de 11 de fevereiro de 2020 não atesta a doença. O documento é emitido pelo Hospital Pequeno Príncipe de Curitiba, onde o garoto fazia o tratamento de leucemia.

"Até a presente data, o paciente não apresentou doença recidiva, nem doença do enxerto, nem outra em decorrência do transplante", diz o documento, enviado à Polícia Civil, que investigou o caso antes de ser enviado ao MP.

O Hospital Pequeno Príncipe ainda informou no ofício que buscou conversar com a mãe para saber "a real necessidade do dinheiro das campanhas", mas que a tentativa de diálogo foi negada por Daiane. A unidade também diz que denunciou o caso à Polícia Civil.

Mãe responde por estelionato e apropriação indébita

Segundo o MP do Paraná, Daiane responde por dois crimes na Justiça: estelionato e apropriação indébita.

Para o promotor Mauro Alcione Dobrowolski, "com essas condutas, pelo período de dois anos, ela induziu ao erro inúmeras pessoas, além das organizadoras dos movimentos sociais" que buscavam ajudar no tratamento do filho.

"A denunciada induziu ao erro as pessoas que contribuíram financeiramente e também os organizadores das ações sociais que despendiam seu tempo e esforço para contribuir com uma causa justa, quando na verdade estavam apenas destinando dinheiro para que a denunciada usasse em seu proveito pessoal, deixando de ajudar outras pessoas que de fato precisavam desse dinheiro para subsistência e real tratamento médico", ratifica o promotor de Justiça.

O caso ainda está na fase processual inicial e tramita na 3ª Vara Cível de Guarapuava.

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