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Suspeito de crimes sexuais, pastor criou cultos 'Vem, Novinha' e 'Tinder'

Ranieri Costa

Colaboração para UOL

12/04/2024 04h00Atualizada em 12/04/2024 11h02

Preso suspeito de crimes sexuais contra fiéis, Davi Passamani teria criado cultos para os jovens de sua igreja com títulos diferentes do que geralmente é utilizado por igrejas evangélicas —como "Vem, Novinha", "Rei do Camarote", "Tinder, o Culto" e "Open Bar, o culto".

Culto para atrair jovens na linguagem deles

Antes de as acusações de abuso sexual virem à tona e Passamani ser preso, o pastor teria criado cultos para jovens. A Casa Share, ministério de jovens da Igreja Casa, realizou o culto "Vem, Novinha" em 13 de agosto de 2022.

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Ele repercutiu após cantar música sertaneja em culto, como "É o Amor", de Zezé di Camargo e Luciano. Como justificativa para essas ações, à época, Passamani disse em pregação: "Vai ter momentos que para derrubar os inimigos lá fora, nós vamos ter que derrubar a espada que eles usam".

Giovanna Lovaglio, casada com Passamani na época e pastora da Igreja Casa, e defendeu o evento "Vem Novinha". "É uma oportunidade de tocarmos em temas que, apesar de muitos religiosos não aceitarem, fazem parte do cotidiano desses jovens e precisam ser encarados. Nos valemos da linguagem dos jovens e das tendências que observamos nas redes sociais para tocar nesses temas".

Segundo reportagem do portal O Fuxico Gospel, publicada na época, o culto reuniu mais de mil jovens. Giovanna explicou ao site que foram distribuídas "mais de 500 coroas para elas e explicamos na Igreja Casa que merecem ser tratadas como princesas".

Perguntado sobre os cultos, o advogado de Passamani disse que o pastor não tomava as decisões sozinho e que teria sido contrário aos nomes adotados. Quem criou os títulos foi o pastor de jovens Áthila Moura, acusou Leandro Silva.

Ao UOL, Áthila Moura rdisse que todas as ações e decisões da igreja eram de Passamani. Desde sua fundação até o dia em que foi acusado por crimes sexuais e se desligou da liderança, foram "sempre pautadas na visão e direcionamento do ex-pastor Davi Passamani".

Pastor investigado por abusos a fiéis

Passamani fundou a Igreja Casa, da qual se afastou, e atualmente é pastor da Igreja US Goiânia. A assessoria de Giovanna Lovaglio disse que ela "já está divorciada e que Passamani não faz mais parte da Igreja Casa".

Três mulheres, fiéis assíduas da Igreja Casa, o acusam de abuso sexual. Segundo o advogado delas, Rafael Augger, os processos que estão sob segredo de justiça, mas esta não seria a primeira vez que ele é acusado de crimes assim. Além disso, outras mulheres foram ouvidas, mas não participaram da denúncia, por terem tido de fato um envolvimento consensual ou por medo da exposição, já que são "de famílias tradicionais na cidade de Goiânia.

Foi levado em conta o histórico dele dos casos antigos para ajudar na fundamentação da prisão. Já conversei com mais de dez vítimas que sofreram assédio

"Justiça foi feita", disse uma vítima ouvida pelo UOL, ao comentar a prisão do pastor. Como ainda é preventiva, ela afirmou que tem esperança de que ele seja julgado, condenado e preso definitivamente.

O que diz a defesa

A defesa de Passamani disse que a prisão do pastor pegou a todos "de surpresa". Segundo advogado Leandro Silva, é "impensável alguém imaginar que possa ser preso pelo motivo de frequentar louvores ou práticas religiosas" e que o pastor "nunca teve nem mesmo contato físico com nenhuma delas [as mulheres que o acusam de abuso]."

As acusações realizadas são referentes a um suposto diálogo realizado por meio de aplicativo e elas apontam Davi Passamani como sendo o outro interlocutor [o pastor nega]

A defesa alega que "cerca de 14 mil pessoas passavam toda semana pela igreja", sendo a maioria mulheres. "Com exceção de três, nenhuma delas reclamou algum constrangimento em relação a ele. Não existe nenhuma representação que ele tenha tido contato físico com qualquer mulher que frequentasse aquele local. Ao contrário, tem boa reputação."

Passamani deixou a Igreja Casa em dezembro, mas "não existe nenhuma ordem judicial que o impeça de exercer seu direito constitucional de crença e consciência", disse o advogado. Sobre a US Goiânia, ele explica que não se trata de uma nova igreja, mas apenas um grupo que participa de "reuniões de louvores".

Críticas de outros religiosos

Jacy Junior, pastor da Igreja Vineyard de Magé (RJ), crítico do evento, disse que esse tipo de marketing religioso tem feito muitos evangélicos não se sentirem representados. Segundo ele, há uma má interpretação e distorção do contexto do texto bíblico "para com os fracos, tornei-me fraco, a fim de ganhar os fracos" dito pelo apóstolo Paulo (1 Coríntios 9.22).

Assombra-me ver que chamadas deste tipo atraia tantas pessoas. Mas, ao que parece, tem demanda. E se tem demanda, sempre vai haver aqueles que se prestam a tal.
Jacy Junior

Jacy considera um grande equívoco esse tipo de estratégia. Para ele, é "um verdadeiro desserviço ao que acreditamos ser o estabelecimento do Reino de Deus".

Outro que fez críticas públicas foi o pastor Anderson Silva, líder do movimento da Machonaria, que acusou outros pastores de serem "sócios dessa desgraça". Em dezembro de 2023, ele disse que foi procurado por uma mulher que dizia ter sido vítima de assédio cometido por Passamani.

Depois, outras mulheres apareceram para denunciar o pastor por assédio, e a ASSEPI (Associação Evangélica de Pastores e Igrejas - GO) emitiu uma nota descredenciando-o "para o exercício do ministério pastoral" tendo em vista suas "ações repugnantes", afastando-o do Conselho de Pastores da cidade. "Não tem mais espaço em nossa cidade para o exercício do ministério pastoral", diz o texto.

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