Vítimas das enchentes catam itens no lixo: 'Só tenho a roupa do corpo'
Com o recuo da enchente, uma caçamba de lixo a apenas 100 m do Mercado Público de Porto Alegre despertou o interesse de famílias que perderem quase tudo. Cerca de 30 pessoas pareciam não se importar com a lama que ainda estava por todos os cantos. Após jogarem os itens da lixeira no chão, eles se ajoelharam para vasculhar se havia algo de valor ali. E ninguém saiu de mãos vazias.
Algumas pessoas usavam luvas para vasculhar o lixo em meio ao entulho da rua. Outras, nem isso. Havia até crianças e idosos por ali, que tratavam os produtos de camelôs levados pela enxurrada no centro histórico da capital gaúcha como tesouros em meio a tantas perdas.
Sheila Meireles, 43, não conseguiu mais fazer bicos como diarista após os alagamentos. Ela estava com a filha de 7 anos em meio à lama. Saiu de lá com uma carteira e outros itens em uma sacola de plástico, como se estivesse deixando uma loja.
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"Ela quis pegar um estojo e a gente veio. Acho que não vai transmitir doença, é só lavar bem", disse. Duas pessoas já morreram por leptospirose no Rio Grande do Sul devido ao contato com a água contaminada após as enchentes.
O autônomo Wuelinton Santos, 21, se mudou há apenas dois meses de Portão, no interior do Rio Grande do Sul, para morar com o pai no bairro Humaitá, um dos mais atingidos pelas enchentes na capital gaúcha.
A casa foi para o chão, na real. Agora, moro em um abrigo e não conheço nada na cidade. Não tenho nem documentos, só tenho a roupa do corpo. Mano, consegui brinco, alargador, uns bagulhos para a minha filha e até maquiagens para a mãe dela. Tem bastante coisa aqui, tá ligado? É só olhar com atenção e ter paciência para catar aqui.
Wuelinton Santos
Ele estava com Lucas Nunes, 27. Os dois se conheceram no abrigo do Grêmio Náutico União. Lucas, que morava com a mãe no bairro Sarandi, também perdeu todos os seus pertences na enchente.
"A água subiu até o segundo andar e eu perdi tudo. Até a minha camisa do Grêmio foi. A gente não esperava por isso, mas tenho fé que a gente vai conseguir recuperar de novo".
Sem dinheiro, ele estava em busca de produtos levados pela enchente no centro histórico de Porto Alegre. "Encontrei um fone de ouvido na caixa, brinquedo para o meu sobrinho, bijuteria... Também achei uma carteira para a minha irmã, umas correntes, capa de celular. Peguei coisa que dá para aproveitar ainda".
Procurada pelo UOL, a prefeitura de Porto Alegre diz manter mais de 12 mil pessoas abrigadas em 140 instituições na capital gaúcha graças a parcerias e o auxílio de voluntários. A administração municipal diz ainda ter distribuído mais de 13 mil cestas básicas às vítimas dos alagamentos. Mas não quis comentar o episódio envolvendo a retirada de produtos no lixo no centro histórico de Porto Alegre.