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Trump hostiliza a imprensa, mas ameaças à liberdade são herança de Obama, diz jornalista

Jim Urquhart/Reuters
Imagem: Jim Urquhart/Reuters

Beatriz Montesanti

Do UOL, em São Paulo

28/02/2018 04h00

Trump criou um preocupante clima de hostilidade para a imprensa americana desde que assumiu a Casa Branca, em 2017. Mas boa parte dos obstáculos enfrentados pelos jornalistas no país já estavam postos desde a administração de seu antecessor, Barack Obama.

É o que afirma a jornalista Alex Ellerbeck, coordenadora do programa para a América do Norte do CPJ (Comitê de Proteção a Jornalistas) e uma das criadoras do Press Freedom Tracker, plataforma criada no primeiro ano do mandato de Trump, com o objetivo de reunir e organizar dados e informações sobre a liberdade de imprensa nos Estados Unidos. Entre as 30 organizações responsáveis pela criação do site estão a Universidade Columbia, a Repórteres Sem Fronteiras e o CPJ. 

"Nos demos conta o quão ridículo era termos um país com uma sociedade civil tão vibrante e tantos grupos de imprensa, mas sem um levantamento de dados básicos sobre quantos jornalistas são parados na fronteira e precisam entregar o celular, ou quantos jornalistas são presos em protestos", diz Alex ao UOL.

Segundo os levantamentos feitos até agora, constatou-se que desde a administração Obama repórteres enfrentam problemas como processos por publicarem informações confidenciais ou dificuldade de acesso à informação. A maior diferença desde que Trump assumiu o poder é, na verdade, o clima de hostilidade em torno do jornalismo, o que torna o terreno mais propício a ameaças diversas, em particular contra jornalistas mulheres e representantes de minorias.

Alex iniciou sua carreira no Brasil - após graduar-se, mudou-se para Belém, onde foi professora de inglês na Universidade do Estado do Pará. Depois passou a trabalhar na organização de direitos humanos Freedom House como integrante da equipe para a América Latina, cobrindo liberdade na internet e direitos digitais no Brasil, Argentina, Equador e outros países da região.

Em entrevista por telefone, ela falou sobre os desafios enfrentados por jornalistas nos EUA atualmente e comparou a liberdade de imprensa norte-americana à da América Latina.

UOL: Por que acha que a imprensa americana está em perigo agora? Surgiram novos desafios ou ameaças antigas ficaram mais fortes?

Alex: Acho que há uma combinação de coisas. Novos desafios certamente surgiram. Temos agora um presidente que difama a mídia de forma que não havia antes. Ao menos, não desde [o ex-presidente Richard] Nixon (1969-1974). Ele constantemente chama a mídia de fake news e publicações críticas ao governo, "inimigos do povo". Isso criou um ambiente muito mais hostil para jornalistas. Agora temos mais casos de repórteres sendo assediados ou ameaçados online. 

Isso posto, muito do perigo não é novo. Durante a administração Obama vimos um número sem precedentes de processos contra "informantes" - indivíduos que passam informações à imprensa sem terem os nomes revelados. Em ao menos um quarto desses processos, jornalistas foram intimados e o governo tentou forçá-los a revelar suas fontes no tribunal. Esse tipo de ameaça continua. Temos ainda que ver o quanto a administração Trump seguirá os passos da Obama em termos de intimar repórteres, mas ele já ameaçou perseguir "informantes" e tornar as intimações mais fáceis, então estamos preocupados.

UOL: Considerando que essas questões aconteciam antes de Trump, como identificar o que é consequência das declarações hostis do presidente?

Alex: É sempre difícil rastrear causa e efeito, certo? Temos o US Press Freedom Tracker, que olha para tudo desde jornalistas sendo parados na fronteiras e obrigados a entregar o celular a ataques literais a jornalistas e prisões. Tivemos 34 jornalistas presos em 2017 - esse número não é muito alto. A maior parte fica detida por um tempo muito curto após protestos quando a polícia prende todo mundo que está numa área determinada e alguns jornalistas estão no meio.

Agora, isso está diretamente relacionado a Trump? Difícil dizer. Sabemos que havia prisões antes dele. Sabemos que jornalistas rotineiramente são presos em protestos nos Estados Unidos e no resto do mundo. O que nos preocupa é que quando o presidente usa uma linguagem tão hostil a repórteres, pode ter um efeito-gatilho. Talvez não facilite para um xerife prender mais jornalistas, mas facilita para um governador ou um político desacreditar um jornal e decidir que não dará mais entrevistas [a determinado veículo].

E há também alguns casos em que é possível fazer uma conexão mais facilmente. Recentemente em Montana um congressista agrediu o repórter do [jornal britânico] "The Guardian" Ben Jacob. Acho que isso não tem precedentes. Um candidato e agora congressista simplesmente agrediu um repórter em Montana. Realmente não vimos isso na história recente. Ele certamente ecoou a linguagem usada por Trump.

Outros casos em que é possível ver uma conexão direta: ameaças feitas online. Trump tuitou umas 60 vezes sobre [a então âncora da Fox] Megyn Kelly que ela acabou tendo que contratar um guarda-costas, pois estava recebendo muitas ameaças. E essas ameaças frequentemente espelham aquilo que Trump diz. [...] E devo dizer que, no geral, o clima tem tido esse tipo de hostilidade.

Mais pessoas passaram a assinar o jornal "New York Times" após Trump ser eleito - Spencer Platt/Getty Images/AFP - Spencer Platt/Getty Images/AFP
Mais pessoas passaram a assinar o jornal "New York Times" após Trump ser eleito
Imagem: Spencer Platt/Getty Images/AFP

UOL: Quais são os principais resultados desse cenário para a imprensa?

Alex: Acho importante ressaltar um ponto: Trump não teve um efeito de arrefecer o jornalismo. A imprensa, ao contrário, está mais eletrizada que nunca. A grande mídia está melhor agora, mais pessoas assinam o "New York Times" do que antes, mas quando você olha para a mídia local, ela não recebeu o mesmo impulso em assinaturas. Eles têm menos recursos e para eles é cada vez mais difícil ter acesso à informação ou enfrentar um político que se recusa a falar com eles. [...]

Para além disso, há desafios para repórteres individualmente, que são potencialmente identificados pelo presidente. Os desafios são maiores para repórteres mulheres ou que representam minorias. Há um medo real de que Trump comece a perseguir indivíduos que vazam informações para a imprensa e então intimar repórteres. Há um medo real entre jornalistas que cobrem segurança nacional. Há mais revistas nas fronteiras e isso é uma preocupação grande - quando repórteres são obrigados a entregarem seus celulares e computadores para inspeção -, pois os jornalistas têm a obrigação de proteger a informação que recebem e suas fontes.

UOL: Como esse “clima” se compara ao enfrentado pela imprensa na América Latina, em particular, no Brasil?

Alex: Acho que há alguns pontos aqui. Nos Estados Unidos hoje é muito, muito, muito raro que um jornalista seja morto em represália ao seu trabalho. Houve alguns casos nos anos 1990, mas é muito raro. Nos preocupamos com as ameaças de morte que os jornalistas recebem, acho que devemos levar isso a sério, mas jornalistas não são mortos por seu trabalho nos EUA. Já no Brasil há um problema contínuo, especialmente em pequenas cidades e em áreas rurais, de jornalistas sendo mortos pelo trabalho que desempenham. E há também uma crise de impunidade - há pouquíssimas condenações nesses casos.

Também diria que no Brasil há um problema enorme com censura judicial. Frequentemente juízes decidem tirar informações do ar ou censurar informações que envolvem grandes negócios ou figuras políticas, que tentam silenciar a reportagem. Nos EUA isso é um problema muito menor. Temos problemas com bilionários processando jornais, mas a frequência de um processo que resulta em informação sendo censurada é bem menor.

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