No Afeganistão, é um rio que oferece consolo diante da ameaça do Taleban

Mujib Mashal

Em Lashkar Gah (Afeganistão)

  • Moises Saman/The New York Times

    9.mar.2016 - Vale do rio Helmand, no Afeganistão, fonte de alento e resiliência para a cidade de Lashkar Gah, conhecida como Pequena América

    9.mar.2016 - Vale do rio Helmand, no Afeganistão, fonte de alento e resiliência para a cidade de Lashkar Gah, conhecida como Pequena América

As margens do plácido rio Helmand sempre foram o centro social de Lashkar Gah, a capital provincial do sul do Afeganistão, às vezes chamada de Pequena América durante as décadas de tentativas de modernização aqui.

A atração do rio afasta as preocupações terrenas, que são abundantes, ultimamente. A água é tranquila nesta época do ano, o pôr-do-sol, maravilhoso. Para descontrair no final do dia, as pessoas vêm até o rio para "bandaar" --conversar tomando um chá ou, se for a época certa, comer as deliciosas romãs que deram fama a esta região. Outros visitantes desaceleram seu mundo com haxixe, deitados de costas dentro da água, longe da multidão, olhando fascinados para o céu azul.

Em uma viagem recente para o jornal, eu estava especialmente interessado em falar com um amigo daqui, um jovem professor universitário que tem ideias valiosas sobre este lugar. Mesmo pelos padrões locais, a região da província de Helmand sofreu um ano duro, sangrento. Os talebans, fazendo grandes incursões, agora estão agrupados em um subúrbio de Lashkar Gah, do outro lado do rio. Estava ele temeroso de que a cidade possa cair, que a vida à qual se habituou --um ambiente educacional vibrante, diversos canais privados de TV e rádio-- esteja ameaçada?

Depois de uma conversa enquanto tomávamos chá com leite em um sofá gasto num pequeno café de frente para o rio, ele sugeriu que jantássemos com alguns amigos, também professores da universidade, em um restaurante de peixes que foi aberto perto da cidade, em Karez. O subúrbio é considerado um dos mais seguros, disse ele.

Mesmo quando os talebans entraram em Lashkar Gah, alguns anos atrás, encontraram firme resistência em Karez. Antes de sairmos para o restaurante, os professores estenderam seus xales junto ao rio para a oração da noite. Todos saboreamos a beleza do poente em seus últimos momentos.

O curso do rio nos faz lembrar que a vida continua, apesar dos tumultos violentos, fluindo pela região dos talebans e do ópio, desacelerando nesta cidade e depois correndo para a província de Nimruz, o polo de contrabando na fronteira com o Irã. Suas águas calmas sustentaram a agricultura e as cidades em pleno deserto, e candidatos a conquistadores foram conduzidos por seu trajeto durante eras.

É este papel que inspira um poema na língua pashtu de Abdul Bari Jahani, hoje ministro da Informação e Cultura do Afeganistão. Ele diz em um trecho:

Helmand,

eu te pergunto na linguagem do coração:

lembras-te das crueldades de teu tempo?

Bem sabes o que aconteceu em tuas bordas.

Escutaste enquanto o céu irado rugia

e a morte chovia em balas.

Viste o sangue correr em tuas ondas

enquanto carrascos despejavam corpos sofridos.

E presenciaste os que roubaram

os anéis do nariz da jovem nômade:

tudo em nome do grande senhor.

Helmand,

como aprendeste a correr com tanta calma?

Na maior parte do dia, eu tinha tentado captar o ambiente da cidade.

"Estamos muito tristes porque nossos números estão disparando", disse Dejan Panic, que dirige o Hospital de Emergência local, com 91 leitos. O número de pacientes internados por trauma aumentou 20% este ano, assim como a gravidade dos ferimentos, disse Panic. O hospital construiu recentemente uma casamata subterrânea para funcionários e pacientes, caso a violência traga o tipo de bombardeio que ocorreu na cidade de Kunduz.

Jamila Niazi, diretora de assuntos das mulheres na província de Helmand, disse que perdeu o contato com os conselhos de mulheres nos distritos dominados pelos talebans. As escolas para meninas também foram fechadas lá. Mas Niazi manifestou confiança em que as forças de segurança conseguirão manter a cidade.

"Há anos temos combates aqui, e a cidade não caiu", disse ela.

Ghulam Rabbani, um vendedor de CDs e DVDs no centro de Lashkar Gah, estava mais preocupado. Não tinha vendido nada o dia todo. Seus revendedores em distritos dominados pelos talebans, que são contra a música e a televisão como não islâmicos, não vêm mais comprar.

"Quando os talebans se aproximaram da cidade, alguns anos atrás, não ficamos tão preocupados porque as tropas estrangeiras ainda estavam aqui e sabíamos que eles seriam repelidos novamente", disse Rabbani. "Desta vez, elas não estão mais aqui."

Na tentativa de encontrar o restaurante, dirigimos pelo deserto em um pequeno Toyota Vitz, muitas vezes pedindo informações. Mas sempre chegávamos a ruas sem saída, o que gerou perguntas sobre o movimento que o lugar poderia esperar, mesmo que os clientes se esforçassem para encontrá-lo.

Após quase uma hora de procura, encontramos o restaurante. Era lindo, após uma ladeira calçada de pedras e de frente para o rio. As luzes do primeiro andar estavam reduzidas, as portas, trancadas. Uma pequena janela no segundo andar se abriu e um homem olhou para fora. "Vocês são os caras do peixe?", perguntou, sorrindo.

A normalidade, em um lugar cercado pela guerra, lembrou uma Helmand perdida que ainda está muito presente na imaginação afegã. No início do dia, um político nostálgico que hoje está encarregado da batalha aqui, Abdul Jabar Qahraman, tinha falado sobre a Helmand perdida enquanto descrevia uma conversa com um general da Otan.

"Se alguém em algum lugar do mundo pensasse no Afeganistão, certamente se lembraria de Helmand", ele havia dito. "Então ele pensou na beleza de Lashkar Gah e disse: 'Isto é a pequena Nova York, a pequena Washington'."

"Hoje, quando alguém no mundo pensa no Afeganistão, pensa no mal e pensa em Helmand, que é o centro dele", continuou Qahraman, lamentando.

"Quarenta anos atrás, tínhamos uma vida ótima aqui, tínhamos até discoteca", disse ele. "Mas então caímos no buraco do infortúnio. Quero apenas ver de novo aquela Helmand enquanto eu viver."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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