Processo de impeachment

Análise: Estilo autocrático de Dilma afastou aliados e motivou impeachment

Andrew Jacobs

Em Brasília

  • Alan Marques/Folhapress

Eles eram idealistas, unidos na luta contra a ditadura militar do Brasil.

Quando a democracia floresceu, suas carreiras fizeram o mesmo. Um deles, Paulo Ziulkoski, tornou-se o líder de uma associação de cidades brasileiras. Outra, Dilma Rousseff, chegou ainda mais alto, ao tornar-se presidente do maior país da América Latina.

Mas sua amizade logo se desfez. Durante uma reunião contenciosa com os prefeitos do país, em 2012, Dilma rejeitou os pedidos de uma parcela das crescentes receitas do petróleo do Brasil. Depois que a sala irrompeu em vaias, segundo Ziulkoski, ela avançou para ele, espetou um dedo na sua face e o humilhou com uma série de palavrões.

"Nunca imaginei que uma presidente pudesse pronunciar tais palavras", disse Ziulkoski, notando que dezenas de prefeitos abandonaram Dilma e seu partido. Para ele, a repreensão em público foi o tipo de ruptura que simbolizou "o início do fim de seu governo".

Enquanto Dilma trava uma batalha final para evitar o impeachment e salvar sua presidência, ela acusa seus adversários no Congresso de criar confusão, dizendo que estão orquestrando um golpe de Estado para destituí-la.

Mais de dois terços da Câmara dos Deputados do Brasil votou no mês passado a favor do processo de impeachment, sob a acusação de que ela fez empréstimos ilegais de bancos estatais para tapar buracos no orçamento. (Ela não é acusada de roubar para enriquecimento pessoal.) Muitos especialistas dizem que o próximo passo, um julgamento no Senado que poderá começar nas próximas semanas, provavelmente acabará com sua deposição.

"Vou lutar com todas as minhas forças até que os golpistas sejam derrotados", disse Dilma em uma entrevista.

Mas muitos analistas políticos dizem que a queda da presidente em câmera lenta também pode estar ligada a uma personalidade autocrática e um estilo de trabalho individualista, que afastou dezenas de aliados políticos, ex-membros de equipe e do gabinete ministerial, muitos dos quais suportaram episódios escaldantes de humilhação pública.

"Ela alienou tantos políticos e desperdiçou a boa vontade de tantas pessoas, em parte por causa de suas terríveis técnicas políticas, mas também por sua arrogância", disse Edson Sardinha, editor da revista "Congresso em Foco", que examina a corrupção no governo. "Em seu momento de necessidade, muito poucas pessoas se dispõem a correr em sua defesa."

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A revolta vai muito além do estilo de liderança de Dilma. O Brasil sofre sua pior crise econômica em décadas, com milhões de pessoas caindo da classe média para a pobreza. Para aumentar sua raiva, as elites políticas de todos os matizes se fartaram em um esquema de corrupção de bilhões de dólares envolvendo a companhia de petróleo nacional.

Dilma, que foi politicamente massacrada pelo escândalo, disse que foi vítima de um claro golpe de poder e de suposições sexistas sobre como uma mulher deveria liderar. Ela também disse que foi um bode expiatório conveniente para algo que não pode controlar: a queda global do preço das matérias-primas, que atirou a economia em uma espiral descendente.

Mas sua promessa de levar milhões de brasileiros às ruas em sua defesa gerou pouco apoio popular. Apoiando seus adversários há dezenas de antigos aliados --incluindo cinco ex-ministros de seu governo--, o vice-presidente do país e juízes do Supremo Tribunal Federal que foram indicados por Dilma ou por seu mais poderoso defensor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em mais de cinco anos no cargo, Dilma geralmente se recusou a reunir-se com membros do Congresso, oponentes e aliados, desgastando o apoio majoritário de que desfrutava na Câmara. Os agravados incluem Eduardo Suplicy, um ex-senador e figura amada no Partido dos Trabalhadores, que disse que ela recusou diversos pedidos de reunião.

"Na política, ou você fala ou morre", disse Alfredo Nascimento, um ex-ministro dos Transportes. Em abril, ele votou a favor do impeachment. "Não posso apoiar uma presidente que é incapaz de governar", disse ele.

Em Brasília, a capital, quase todo mundo conta histórias sobre a intolerância de Dilma com os dissidentes e seu pavio curto. As anedotas incluem o episódio em que ela quebrou um computador do gabinete em um acesso de raiva, sua recusa a reunir-se com líderes indígenas ou ativistas dos direitos gays e a punição de assessores pelas menores infrações.

Ela também está encontrando pouca simpatia da mídia noticiosa brasileira, que há muito tempo a vê como fria e condescendente --um contraste marcante com a abordagem carismática e afetuosa de Lula.

Alguns concordam que Dilma está sendo julgada por um critério duplo que afeta injustamente as mulheres poderosas ao redor do mundo. Ela seria considerada tão obstinada e não cooperativa se fosse um homem? Ou seria apenas chamada de um líder forte e decidido?

"A presidente está sofrendo todos os estereótipos e preconceitos da sociedade brasileira, altamente patriarcal e oligárquica", disse Rosana Schwartz, historiadora e socióloga na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. "Já ouvi pessoas dizerem: 'Nunca mais votarei em uma mulher'."

Mas Antonia Melo, ex-integrante do PT, disse que as maneiras bruscas de Dilma alienaram muitos dos fiéis do partido. Ela descreveu uma reunião quando Dilma era ministra das Minas e Energia, durante a qual ativistas pretendiam defender sua tese contra um projeto polêmico de usina na Amazônia.

Antonia disse que ela mal havia terminado sua primeira sentença quando Dilma a cortou, bateu na mesa e prometeu acelerar a construção da usina. Então deu meia volta e saiu da sala. "Ficamos ali olhando uns para os outros perplexos, em silêncio", disse. "Sentimo-nos muito desrespeitados e rejeitados."

O episódio foi chocante diante da origem do PT e do histórico de Dilma como defensora dos despossuídos. Os fundadores do partido foram guerrilheiros marxistas que chegaram ao poder através de uma coalizão de sindicalistas, agricultores sem terra, ativistas indígenas e intelectuais de esquerda que ajudaram a abrir caminho para o restabelecimento da democracia em 1985.

Mas essa coalizão está em frangalhos. Dilma refuta acusações de que ela escondeu a profundidade dos problemas econômicos brasileiros para reforçar suas chances de reeleição. Muitos apoiadores firmes estão decepcionados com a ampla corrupção na companhia de petróleo nacional, Petrobras, e pelo que muitos descrevem como a mudança de posição de Dilma, após sua reeleição em 2014, sobre várias promessas de campanha para preservar os generosos gastos do governo.

Nas últimas semanas, pelo menos 135 prefeitos alinhados com o PT mudaram suas afiliações partidárias --cerca de um quinto dos prefeitos do país que foram eleitos na chapa do PT. Entre eles está João Paulo Ribeiro, 31, prefeito de Monte Sião (MG), uma pequena cidade que disse que se cansou dos ataques de moradores e até de amigos que questionavam sua associação ao partido de Dilma.

"Eu tenho de ouvir as pessoas", disse Ribeiro, que mudou de partido no mês passado, esperando melhorar suas possibilidades de reeleição em outubro.

Não que as figuras políticas alinhadas para derrubar Dilma sejam vistas como salvadoras. Muitas delas enfrentam graves acusações de corrupção e ocupavam cargos de grande poder quando a economia do país, antes invejável, encalhou.

O crescente desemprego e a ampla inquietação sobre a economia brasileira só aumentaram as tensões entre Dilma e o Congresso. Se a economia estivesse em alta --como estava em 2005, quando seu antecessor, Lula, foi envolvido no mensalão--, ela poderia ter saído ilesa.

O fim da bonança do Brasil complicou o patrocínio usado para navegar pela frágil legislatura, em que mais de duas dúzias de partidos disputam financiamentos do governo.

"Temos um sistema político baseado em tirar dinheiro da economia e transferi-lo para partidos políticos para financiar as eleições", disse Rubens Ricupero, que foi ministro da Fazenda em meados dos anos 1990.

Muitos economistas e políticos brasileiros afirmam que a crise econômica foi em grande parte um produto da própria Dilma. Ela aumentou a pegada do governo na economia, gastando grandes quantias em indústrias e corporações preferidas para reforçar campeões nacionais.

Isto não apenas produziu uma série de grandes projetos inacabados e más dívidas, que hoje emperram os bancos estatais, como também abriu as portas para a corrupção em grande escala.

"O Brasil insistiu em praticar uma política industrial desprovida de lógica", disse Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central do Brasil. "Quando o governo oferece às empresas todo tipo de vantagem, por meio de proteção, subsídios e contratos, cria um espaço enorme para esse tipo de coisa."

Quase dois terços dos 594 membros do Congresso enfrentam sérias acusações, como propina, fraude eleitoral, sequestro e homicídio, entre eles Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, que lidera a iniciativa de impeachment. Ele é acusado de acumular US$ 40 milhões em propinas.

Dilma não foi acusada de corrupção, mas muitas pessoas questionam sua inocência, diante de seu papel como presidente da Petrobras na época em que o esquema épico de propinas estava sendo gestado.

Em entrevista, Dilma descartou sugestões de que seu desprezo pela política no varejo e as negociatas necessárias para aprovar leis contribuíram para seus problemas. Ela defendeu sua decisão de ignorar membros do Congresso.

"Havia certos tipos de negociações chantagistas que eu não aceitaria", disse.

Durante algum tempo, o público brasileiro viu positivamente sua decisão férrea. Durante seu primeiro ano no cargo, a popularidade de Dilma ficou em 77%, dentre as mais altas na história recente. Hoje em dia, o número está em um dígito.

Muitos brasileiros ainda admiram a ética de Dilma. Mas depois de dois anos de turbilhão econômico seus discursos na televisão provocam barulho nas ruas, quando milhares de pessoas batem panelas para abafar sua voz.

Poucos dão crédito a Dilma pelas grandes conquistas, incluindo uma importante lei de liberdade de informação e medidas que dão à Polícia Federal e aos promotores instrumentos para atacar a corrupção.

De certas maneiras, segundo analistas, Dilma tornou-se vítima dessas leis, que abriram caminho para as investigações que atingiram dezenas de membros da elite política e empresarial do país, expondo a profundidade da decadência política do Brasil.

"Este é um dos grandes paradoxos de sua queda, porque ela implementou mecanismos que apanharam os políticos mais importantes", disse Gregory Michener, professor na Fundação Getúlio Vargas, um instituto de pesquisas no Rio de Janeiro. "Dilma fez muito pelo bom governo, e acho que no fundo ela queria um bom governo, mas afinal não foi uma boa política, porque no sistema partidário clientelista do Brasil ela não quis dar a seus aliados sua parte."

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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