Vítimas do Boko Haram agora sofrem rejeição da comunidade nigeriana

Dionne Searcey

Em Dalori (Nigéria)

  • Ashley Gilbertson/The New York Times

    Hafsat Ibrahim (dir) e sua filha de 15 meses, de um militante do Boko Haram, em um campo para civis que fugiram do grupo, nos arredores de Maiduguri, na Nigéria

    Hafsat Ibrahim (dir) e sua filha de 15 meses, de um militante do Boko Haram, em um campo para civis que fugiram do grupo, nos arredores de Maiduguri, na Nigéria

Zara e seu irmão menor pensaram que estivessem finalmente em segurança. Depois de ser mantidos em cativeiro pelo Boko Haram durante meses, eles chegaram a este acampamento do governo para milhares de civis que fugiram da crueldade dos militantes.

Mas em vez de lhes dar as boas-vindas os moradores se reuniram ao redor deles e os perturbaram com perguntas e olhares.

Eles bateram no menino de 10 anos, convencidos de que qualquer um que passou tempo entre os rebeldes, mesmo uma jovem vítima de rapto, poderia ter se tornado um simpatizante, possivelmente até uma bomba humana.

Na verdade, Zara escondia um perigoso segredo atado a suas costas: um bebê. O pai da menina era um membro do Boko Haram que a estuprou, e Zara sabia que a multidão duvidaria de sua lealdade. Por isso ela rapidamente inventou a história de que os militantes tinham matado seu marido, deixando-a uma jovem mãe viúva.

"Se eles soubessem que meu bebê era de um insurgente, não nos deixariam ficar", disse Zara, cujo nome completo não é usado para proteger sua segurança. "Eles nunca esquecerão quem é o pai dela, assim como um leopardo não esquece suas manchas."

No nordeste da Nigéria, os anos de sofrimento sob o Boko Haram arrasaram a vida de centenas de milhares de pessoas, roubando algo --ou tudo-- de um número incontável de famílias.

Ashley Gilbertson/The New York Times
Movimento no campo de Dalori

Hoje há uma profunda desconfiança contra qualquer pessoa que tenha vivido com o grupo --mesmo as meninas que foram raptadas, estupradas e deixadas para criar os filhos de seus carrascos.

Grande parte da raiva vem do medo. O Boko Haram usou dezenas de mulheres e meninas, muitas delas ainda adolescentes, como bombas humanas nos últimos meses, matando centenas de pessoas em ataques a lugares como mercados e escolas. Meninas foram enviadas para explodir a si mesmas em um acampamento como este.

Os militares da Nigéria fizeram um grande progresso contra os insurgentes. Soldados têm recuperado áreas que estavam sob o controle do Boko Haram, e as vitórias dos militares reanimaram o espírito dos nigerianos, que ousam falar em uma vida pós-Boko Haram.

As esperanças aumentaram nesta semana, quando mais uma das 200 meninas sequestradas de seu internato na cidade de Chibok há dois anos foi encontrada viva, vagando pela floresta.

Mas a descoberta também reforçou o trauma constantemente enfrentado pelas ex-reféns: ela esperava um bebê, acompanhada por um homem que afirmava ser seu marido e também um prisioneiro fugitivo. Os militares disseram que o homem era na verdade um suspeito combatente do Boko Haram.

Ashley Gilbertson/The New York Times
Yagana Bukar, originária de Bama, costura roupas em troca de dinheiro no campo de Dalori

Na medida em que milhares de prisioneiros libertos chegam aos campos, surge uma rixa entre dois tipos de vítimas: as pessoas que conseguiram escapar das garras do grupo e as que não conseguiram.

"Eu nunca vou confiar nelas", disse Adamu Isa, um vendedor no mercado, referindo-se a qualquer pessoa que foi detida pelo Boko Haram. "O governo deveria prendê-las pelo resto de suas vidas."

Nem mesmo as escolares desaparecidas, cujo sequestro ajudou a unir o país contra o Boko Haram e atrair a atenção internacional para a saga das vítimas nigerianas, estão livres de suspeita.

Em uma reunião com moradores dos campos, trabalhadores de ajuda disseram que um homem insistiu que os pais das meninas desaparecidas rejeitem suas próprias filhas, caso elas voltem.

"Descobrimos algumas opiniões radicais", disse Mohammed Ngubdo Hassan, diretor-executivo da Iniciativa de Desenvolvimento da Comunidade Herwa, em Maiduguri.

Ao longo dos anos, milhões de pessoas em toda a África ocidental foram arrancadas de suas casas pelo Boko Haram e pela campanha militar às vezes impiedosa contra o grupo.

Mas a maioria dos desalojados conseguiu fugir antes que os militantes chegassem e os submetessem à dura interpretação do islã adotada pelo Boko Haram.

Em geral, quando combatentes desse grupo tomam uma aldeia, matam muitos rapazes e meninos que se recusam a entrar em suas fileiras. As mulheres são frequentemente forçadas a cozinhar para os combatentes ou treinadas para tornar-se mulheres-bombas.

Algumas, como Zara, são obrigadas ao que o grupo chama de "casamentos". Como em muitos conflitos em que o estupro se torna uma arma de guerra, as reféns às vezes têm filhos dos agressores.

Essas vítimas hoje enfrentam um intenso estigma, e em alguns casos espancamentos brutais, quando retornam para suas comunidades, segundo grupos humanitários. Um relatório recente do Unicef documentou essa desconfiança, citando um líder comunitário que chamou os bebês filhos de combatentes de "hienas entre cachorros".

Ashley Gilbertson/The New York Times
Yasha Ali, dá banho na filha Yakana, 7, no campo de Dalori

"Algumas pessoas não aceitam um filho do inimigo", disse Abba Aji Kalli, um coordenador do Estado para a Força-Tarefa Conjunta Civil, um grupo de voluntários que combate o Boko Haram.

Em um dos acampamentos, Hazida Ali fervia diante da menção de qualquer pessoa que tivesse se tornado uma "esposa" do Boko Haram, como são chamadas muitas vezes as mulheres forçadas ao casamento.

"Todas essas mulheres que viveram com o Boko Haram também são soldados do grupo", disse Ali. "Os militares não devem cometer o erro de libertá-las. Se não puderem executá-las, deveriam descobrir o que fazer com elas."

"Elas não devem ser autorizadas a viver junto com os que sofreram", acrescentou Ali.

Os alvos desse ódio incluem Rukkaiya, 13, cujo ventre redondo é bem visível sob o vestido, em um campo nesta cidade. Ela foi sequestrada quando visitava sua irmã em uma aldeia próxima. Um combatente a tomou como "esposa".

"Eu estava assustada, mas não podia fazer nada", disse Rukkaiya. "Ficava rezando para Deus me salvar."

Ela disse que não entendia por que parou de menstruar até que os militares libertaram a aldeia e ela pôde perguntar a uma amiga o que estaria errado.

Rukkaiya ficou devastada quando soube que estava grávida do combatente. Sua primeira ideia foi fazer um aborto. Mas depois de refletir decidiu ficar com o bebê.

"Deus me deu esse bebê agora", disse. "Estamos nesta guerra. Que bem faria tirar mais uma vida?"

Quando o Boko Haram tomou a aldeia de Zara, ela estava com 17 anos. Um combatente exigiu que seus pais a entregassem para casar. A mãe de Zara foi contra, mas o pai cedeu, temendo que todos fossem mortos.

O combatente levou Zara até uma casa que ele havia ocupado na aldeia, um pequeno galpão, onde a engravidou.

"O sonho dele era que eu tivesse um menino", disse ela. "Eu não queria ter o filho de um rebelde."

Ashley Gilbertson/The New York Times
Crianças comem arroz no campo

Antes de o bebê nascer, ele morreu em uma batalha com os militares nigerianos, disse Zara. Outro combatente decidiu se casar com ela e a levou para uma casa com duas outras meninas que ele havia tomado. Ele fazia rodízio com elas, violentando uma a cada noite.

O novo marido de Zara não queria filhos, contou ela. Desejava o martírio para si próprio e suas mulheres.

"Queria que nos tornássemos mulheres-bombas", disse Zara. "Dizia-nos que não iria doer muito --como quando uma abelha a morde. Não seria muita coisa, porque teríamos uma vida melhor no paraíso."

Zara resistiu. Para ganhar tempo, disse-lhe que queria esperar que o bebê tivesse alguns meses. Mas logo os militares chegaram e libertaram os reféns.

Zara disse que ama sua filha, apesar de ela se parecer com o pai. É uma imagem da qual Zara não poderá se livrar.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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