Túnel escavado à mão por prisioneiros judeus é descoberto em campo do Holocausto

Nicholas St. Fleur

  • Ezra Wolfinger/Israel Antiquities Authority via AP

    Equipe de pesquisadores encontrou o túnel no campo de concentração Ponar (Lituânia)

    Equipe de pesquisadores encontrou o túnel no campo de concentração Ponar (Lituânia)

Uma equipe de arqueólogos e cartógrafos diz ter descoberto um túnel esquecido, escavado à mão por 80 judeus enquanto tentavam escapar de um campo de extermínio nazista na Lituânia, há cerca de 70 anos. 

O campo lituano, chamado Ponar, possui valas comuns onde até 100 mil pessoas foram mortas e seus corpos enterrados ou cremados durante o Holocausto. 

Usando radar e ondas de rádio para análise sob o solo, os pesquisadores encontraram o túnel, uma passagem de 30 metros entre 1,5 metro e 3 metros abaixo da superfície, anunciou a equipe nesta quarta-feira (29). 

Uma tentativa anterior feita por uma equipe diferente em 2004 para encontrar a estrutura subterrânea localizou apenas a entrada, mas não a deixaram marcada. A nova descoberta traça o túnel da entrada até a saída e fornece evidência para apoiar os relatos dos sobreviventes do esforço angustiante para escapar dali. 

"O que conseguimos fazer foi não apenas resolver um do maiores mistérios e uma das maiores histórias de fuga do Holocausto", disse Richard Freund, um arqueólogo da Universidade de Hartford, em Connecticut, Estados Unidos, um dos líderes da equipe, "mas também desvendar um dos maiores problemas que tínhamos em um campo como este: quantas valas comuns existem?" 

Freund e seus colegas, trabalhando com a série de ciência "NOVA", do canal "PBS", em um documentário que será exibido no ano que vem, também descobriram outra vala comum contendo as cinzas de talvez 7.000 pessoas. Essa seria a 12ª vala comum identificada em Ponar, hoje conhecida oficialmente como Paneriai. 

De 1941 a 1944, dezenas de milhares de judeus da cidade próxima de Vilna, conhecida como a Jerusalém da Lituânia, foram trazidos para Ponar e executados à queima-roupa. Seus corpos foram jogados em valas comuns. 

"Considero Ponar o ponto zero do Holocausto", disse Freund. "Aqui tivemos pela primeira vez o assassinato sistemático sendo realizado pelos nazistas e seus assistentes." 

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Segundo Freund, os eventos no local ocorreram cerca de seis meses antes dos nazistas começarem a usar câmaras de gás em outras partes para seus planos de extermínio. 

Cerca de 100 mil pessoas, incluindo 70 mil judeus, morreram em Ponar. Ao longo de quatro anos, cerca de 150 colaboradores lituanos mataram prisioneiros, geralmente em grupos de cerca de 10. 

Em 1943, quando ficou claro que os soviéticos tomariam a Lituânia, os nazistas começaram a encobrir as evidências do extermínio em massa. Eles forçaram um grupo de 80 judeus a exumarem os corpos, cremá-los e enterrar as cinzas. Na época eles eram chamados de Leichenkommando, ou "unidade de cadáveres", mas nos anos que se seguiram, passaram a ser conhecidos como Brigada da Cremação. 

Por meses, os prisioneiros judeus escavaram e cremaram corpos. Um relato fala de um homem que identificou sua esposa e duas irmãs entre os cadáveres. O grupo sabia que assim que seu trabalho fosse concluído, eles também seriam executados, de modo que desenvolveram um plano de fuga. 

Cerca da metade do grupo passou 76 dias escavando um túnel, no local onde eram mantidos presos, com as mãos e com colheres que encontraram entre os corpos. Em 15 de abril de 1944, a última noite da Páscoa judaica, quando sabiam que a noite seria a mais escura, a brigada se arrastou pela entrada de 60 centímetros do túnel e até a floresta. 

O barulho alertou os guardas, que perseguiram os prisioneiros com armas e cães. Dos 80, 12 conseguiram escapar, dos quais 11 sobreviveram à guerra e contaram suas histórias, segundo os pesquisadores. 

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Freund e sua equipe usaram a informação dos relatos dos sobreviventes para procurar o túnel. Em vez de escavar e afetar os vestígios, ele e sua equipe usaram duas ferramentas não invasivas –tomografia elétrica e radar de penetração no solo. 

A tomografia elétrica é como uma imagem por ressonância magnética, mas para o solo. Ela fornece uma imagem clara do que há abaixo da superfície. Ela usa eletricidade para identificação de pedras, metal e argila, assim como perturbações no solo como as causadas por escavação. 

"Nós usamos a ferramenta para determinar os locais onde as pessoas mais provavelmente abriram um túnel", disse Paul Bauman, um geofísico da WorleyParsons, uma empresa de engenharia australiana, que foi responsável pelo manuseio da ferramenta de tomografia. "Estamos altamente confiantes de que identificamos exatamente onde está o túnel." 

Com a ferramenta, eles também encontraram uma vala comum antes desconhecida, que acreditam ser a maior descoberta na área. Eles estimam que possa conter até 10 mil corpos. 

A outra ferramenta, o radar de penetração no solo, usa ondas de rádio FM para sondar até cerca de 3 metros abaixo da superfície. 

"O que estamos fazendo é usar essas ondas de rádio FM, que as pessoas escutam em seu carro, e as estamos utilizando no solo", disse Harry Jol, professor de geologia e antropologia da Universidade de Wisconsin-Eau Claire. "Assim conseguimos reflexos dos elementos arqueológicos ou paisagens no subsolo, de modo que podemos imaginar o que está acontecendo." 

A equipe também usou o radar de penetração no solo para procurar pela Grande Sinagoga de Vilna, que foi destruída pelos nazistas. 

"O Holocausto é tão esmagador que realmente olhamos apenas para o fim da história, mas isso não é toda a história", disse Jon Seligman, um arqueólogo da Autoridade de Antiguidades de Israel, que também liderou a equipe. "A história toda é a história dos judeus que viveram nesta área por muitos, muitos séculos." 

Antes da Segunda Guerra Mundial, Vilna era um movimentado centro judeu com mais de 100 mil habitantes. Quando os soviéticos tomaram a Lituânia, eles construíram uma escola sobre os escombros da Grande Sinagoga da cidade. Usando o radar, a equipe encontrou artefatos da sinagoga, incluindo sua casa de banho ritual. 

"Se nunca tivéssemos descoberto o túnel, daqui 20 anos as pessoas pensariam que ele era um mito, e então questionariam: 'o que realmente aconteceu?'" disse Freund. "Esta é uma grande história de como as pessoas superaram a pior condição possível e mantiveram a esperança de que conseguiriam escapar."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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