Oficina paraolímpica repara equipamentos e é um dos locais mais buscados pelos atletas

Ben Shpigel

No Rio

  • Lianne Milton/The New York Times

Havia barulho de serras, furadeiras e máquinas de costura enquanto Victor Scody, um nadador de Maurício, perambulava pela oficina de reparos paraolímpica na manhã de terça-feira (13) com um problema, ou melhor, problemas. 

O encaixe de sua perna artificial precisava de ajuste. A sensação era de que estava frouxo demais em uma área e apertado demais em outra, além de parecer em geral mais alta. O desequilíbrio estava fazendo com que as costas de Scody doessem. 

Examinando a prótese, Julian Napp, um técnico, soou esperançoso. "Talvez possamos mudar algo", disse Napp. "Talvez." 

Lianne Milton/The New York Times

Quando os atletas chegam à Vila Paraolímpica daqui, são três as coisas com as quais mais se preocupam: acesso à internet, alimentação e a localização da oficina de reparos, que a empresa alemã Ottobock opera em toda Paraolimpíada desde 1988. 

O fato de a oficina compartilhar o mesmo teto que o refeitório dos atletas ressalta sua importância. Eles não podem competir sem nutrição apropriada, assim como também não sem seu equipamento.

Assim, eles inundam a oficina, chegando em ondas, especialmente após as refeições, com pneus da cadeira de rodas precisando ser enchidos, eixos precisando de reparos, quadros precisando ser soldados. Mais cirurgiões do que mecânicos, os técnicos se comparam a uma equipe de box de automobilismo. Exceto que as equipes conhecem o carro que estão consertando quando este para no box e a língua que usam para se comunicar com o piloto. 

"Toda vez que a porta abre temos uma surpresa", disse Peter Franzel, um diretor de organização da Ottobock. 

A imprevisibilidade do trabalho exige uma série de habilidades por parte dos técnicos, além de sua perícia em próteses, soldagem e cadeira de rodas. Especialistas provenientes de 29 países e que falam 26 línguas, eles precisam ser calmos para lidar com a pressão de um local de trabalho que cuida de pelo menos 100 reparos por dia. Eles também precisam ser criativos e intuitivos o bastante para resolver problemas que nunca viram antes. 

Um dos pedidos mais desafiadores de toda Paraolimpíada surgiu na noite de segunda-feira, quando a campeã britânica de ciclismo, Sarah Storey, chegou segurando um pedaço fino e circular de metal, com poucos centímetros de diâmetro, que tinha se soltado de sua bicicleta reserva. Seja qual fosse a peça, já que nem mesmo Storey sabia, apesar de acreditar que estava relacionada ao sistema de freio, ela quebrou quando se soltou. 

Sem a bicicleta como referência e relutantes em soldar uma peça tão pequena, os técnicos improvisaram criando um molde e então produzindo uma peça substituta de fibra de carbono. Storey não precisou da bicicleta reserva na quarta-feira, quando conquistou o ouro em sua prova por tempo, mas ficou grata pela assistência. 

"Mesmo se você não precisa de reparos em cadeiras de roda ou de próteses, alguém como eu pode aparecer com uma peça aleatória e dizer: 'Socorro!'" Disse Storey minutos após buscá-la na terça-feira. "Essa é a beleza do serviço." 

O serviço, que é fornecido a todos os atletas gratuitamente, se estende a todos os espaços, onde técnicos no local trocam pneus, apertam parafusos e ajustam alinhamentos. Apenas poucos países, como os Estados Unidos, Alemanha e Holanda, trouxeram seus próprios técnicos em próteses ao Rio, mas os atletas dessas equipes, que estão entre as maiores da Paraolimpíada, também têm acesso à oficina. Assim como os especialistas em próteses das equipes, como François Van Der Watt, da equipe americana, que pode trabalhar e realizar reparos ali. 

Com base nas competições anteriores, disse Franzel, a Ottobock aprendeu o quanto estocar de cada coisa. Cada estação em cada local de competição conta com itens básicos como parafusos, porcas e cola, como também material específico de cada esporte. 

Na bocha, um esporte com bola onde há predominância de cadeiras de rodas motorizadas, há necessidade extra de fusíveis. Os jogadores de tênis em cadeira de rodas gastam seus pneus rapidamente, de modo que pneus sobressalentes são necessários. Nas arenas onde são realizados o rúgbi e basquete em cadeira de rodas, os esportes paraolímpicos mais duros, unidades de solda estão disponíveis para conserto dos quadros danificados. 

Os reparos mais complexos são realizados na oficina principal, que ocupa cerca de 250 metros quadrados do espaço de 650 metros quadrados reservado à Ottobock, em uma seção fechada do refeitório. 

Lianne Milton/The New York Times

O espaço abriga cerca de 15 mil peças sobressalentes, que variam de próteses finas de fibra de carbono para corridas até articulações de joelho e couro artificial, enviados para cá com antecedência; uma sala dedicada a soldagem e outra para moldar plástico; e uma área central, com três bancadas e uma série de maquinários, onde na manhã de terça-feira especialistas corriam para concluir os trabalhos. 

No fundo, Ricky Benzing disse que estava colando encaixes temporários para a prótese do lançador de disco de Níger. Ao lado, Jan Snytr serrava uma barra de metal, que seria usada para alongar e estabilizar o apoio que um arremessador de peso palestino necessita. Quando o treinador palestino, Mohammad Dahman, chegou para buscá-lo, ele apertou a mão de Franzel. 

"Esperamos que ele consiga arremessar o peso um pouco mais longe", lhe disse Franzel. "Tomara que ele quebre um recorde paraolímpico." "Tomara", disse Dahman. 

Até quinta-feira, a Ottobock já tinha realizado ou estava realizando 2.970 reparos, com a grande maioria (2.435) envolvendo cadeiras de rodas. 

"Sempre fico feliz quando os números não são altos, porque significa que há menos problemas", disse Franzel. "Em jogos perfeitos, estaríamos jogando cartas." 

O total de reparos não inclui os óculos de sol quebrados trazidos por um cadeirante que Franzel se ofereceu a ajudar. Por motivos óbvios, os técnicos priorizam o equipamento necessário para competição, apesar de também atenderem as cadeiras de rodas e próteses cotidianas, uma bênção para atletas de países mais pobres e que carecem de profissionais no campo. 

Isso beneficiou o atleta de Ruanda que usava uma prótese que parecia ter 50 anos de idade, disse um especialista, assim como Liam Malone, um corredor amputado bilateral da Nova Zelândia, que recebeu suas próteses finas de corrida do serviço de próteses neozelandês que Malone disse carecer de experiência em próteses esportivas. 

"Tudo o que posso fazer é colocar um calço e tirar um calço", disse Malone na semana passada. "Isso é tudo o que posso fazer. Cara, veja, estou prendendo minhas pernas com fita adesiva. Tanto eu quanto eles ficamos tentando descobrir o que fazer. Mas nenhum de nós realmente sabe." 

Lianne Milton/The New York Times
Victor Scody, nadador de Maurício, recebe ajuda de funcionário da oficina de reparos

O barulho das serras, furadeiras e máquinas de costura prosseguia enquanto Scody aguardava sentado na sala de espera fora da oficina. Ele se ocupava jogando o jogo de empilhar blocos Jenga, enquanto técnicos eliminavam um centímetro do encaixe de sua perna artificial, perto da região pélvica. Ao sair da oficina com a prótese, Daniel Napp levou Scody a uma sala privada para que ele a colocasse. Ele colocou suas mãos no quadril de Scody para avaliar o alinhamento. 

Estava melhor, mas não perfeito. Ainda faltava um pouco. "Mais um centímetro", disse Napp. Scody concordou e sorriu, e Napp saiu, de volta ao trabalho.

Deficiente visual, fotógrafo registra olhar diferente na Paraolimpíada

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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