Latinos se mobilizam na Flórida para votar contra Donald Trump

Jeremy W. Peters, Amy Chozick e Lizette Alvarez

  • Angel Valentin/The New York Times

Donald Trump chamou os imigrantes ilegais de assassinos e estupradores. Por sua vez, Hillary Clinton contratou uma mulher que por muitos anos foi uma imigrante ilegal como sua diretora nacional para a comunidade latina.

Os organizadores de Hillary percorreram as ruas de Orlando, Flórida, tocando reggae em seus carros, convocando os moradores porto-riquenhos a votarem na mulher que muitos deles conhecem como "La Hillary".

E no Arizona, um grupo de base divulgou um videogame online que recompensa os jogadores toda vez que batem no rosto de Trump e de Joe Arpaio, o xerife do condado de Maricopa, com uma sandália de tiras, mas que também diz às pessoas que jogam onde votar.

Os votos ainda precisam ser apurados, mas uma coisa já está clara: a comunidade latina dos Estados Unidos está mobilizada como nunca na eleição de 2016, e está despontando como uma força formidável, com poder para eleger um presidente.

Entenda os 'swing states', que definem a eleição americana

Energizados pela fúria contra Trump e por uma campanha democrata agressiva para que saiam para votar, os latinos estão comparecendo em número recorde e podem fazer a diferença no resultado de vários Estados altamente disputados.

E com o comparecimento dos afro-americanos até o momento aquém dos níveis históricos de 2008 e 2012, os latinos podem vir a compensar a diferença. De fato, eles podem vir a ser a porta corta-fogo de Hillary.

Na Flórida, um Estado que provavelmente será decidido pela menor das margens, cerca de 1 milhão dos quase 6,2 milhões de votos antecipados já apurados até a manhã de domingo foram dados por latinos, um aumento de quase 75% em comparação a 2012. No condado de Clark, Nevada, lar de Las Vegas e da maior população latina do Estado, um recorde de 57 mil pessoas votaram apenas na sexta-feira.

Há oito anos, o presidente Barack Obama inspirou uma onda de comparecimento afro-americano, com os eleitores negros esperançosos e profundamente emocionados com sua candidatura. Desta vez, não é uma figura admirada, mas uma detestada, Trump, que está estimulando o aumento entre os latinos.

Motivados pelo medo do que uma presidência de Trump poderia significar para suas famílias, muitos latinos dizem que não podem se dar ao luxo de permanecer em casa.

"Temo pelo futuro do meu país", disse Cinthia Estela, 30, que está ajudando a organizar a Latinos pelo Partido Democrata do Arizona. Às vezes, Estela traz sua mãe e duas filhas pequenas, que têm 8 e 9 anos, para ajudar no esforço.

"Isto está nos fazendo em pedaços", ela disse a respeito da eleição. "Isso está nos fazendo retroceder muitos anos."

 

De modo crucial, muitos dos latinos que estão votando são novos eleitores. Segundo uma análise dos resultados da votação antecipada na Flórida por Daniel A. Smith, da Universidade da Flórida, mais de um terço dos latinos que votaram até o momento não votou em novembro de 2012.

"É realmente histórico", disse Smith. "Donald Trump fez mais para mobilizar os latinos na Flórida do que qualquer candidato democrata."

Mas os democratas vinham preparando o terreno muito antes de Trump despontar como candidato republicano, com anos de planejamento organizacional e dezenas de milhões de dólares em investimentos por grupos pró-imigração, organizações estaduais do Partido Democrata e pela própria campanha de Hillary.

Desde o início de sua campanha, Hillary e sua equipe viram o potencial inexplorado nos 27 milhões de latinos que teriam direito de votar em 2016, um aumento de 26% em comparação a 2012.

Mas o comparecimento dos eleitores latinos para votar permanecia teimosamente baixo. Na campanha presidencial de 2012, apenas 48% dos eleitores latinos votaram, em comparação a 64% dos eleitores brancos registrados, segundo uma pesquisa Pew.

Assim, Hillary e sua campanha os contatou em suas comunidades, conversou com eles na língua deles, com a crença de que contatá-los da forma mais pessoal possível, nas igrejas, adegas, pontos de ônibus e salões de beleza, também era a mais persuasiva. E o esforço se concentrou em mais do que eleitores registrados potenciais. Os democratas buscaram tornar a política eleitoral uma parte da conversa diária para uma grupo demográfico que até agora permaneceu em grande parte de lado.

Começando em Nevada, a campanha reuniu grupos de mulheres para discutir assuntos que eram importantes para elas, como atendimento de saúde e educação. Após cada encontro, era pedido às mulheres que escrevessem os nomes e contatos de cinco outras mulheres que poderiam apoiar Hillary. O programa, chamado Mulheres na Política, foi considerado um tamanho sucesso que a campanha o reproduziu no Colorado e em outros Estados com grande população latina.

"Nós entendemos esta comunidade. Nós sabemos culturalmente quais são as mensagens mais fortes que funcionam para ela", disse Lorella Praeli, a diretora nacional da Alcance Latino de Hillary, que viveu por anos como imigrante ilegal após chegar aos Estados Unidos vinda do Peru, mas agora é cidadã americana. "Isso não foi criado em um escritório; Isso foi construído em solo."

Hillary também teve que lidar com o fato de muitos eleitores latinos terem se decepcionado com Obama, que aumentou as deportações e fracassou em promover uma reforma das leis de imigração do país. Hillary sabia que precisava dizer aos eleitores latinos no início de sua campanha presidencial que iria mais longe do que Obama para ampliar o caminho para a cidadania, mesmo que isso significasse perturbar o presidente.

Hillary e seus aliados democratas agora têm uma presença em todos os Estados com grande população latina, com estratégias individuais para cada.

Na Flórida, a campanha identificou desde cedo o afluxo de porto-riquenhos que fugiram da ilha em meio a sua crise econômica como um bloco potencial de novos eleitores democratas. Tanto Bill Clinton quanto Amanda Renteria, a diretora política da campanha, foram enviados para Porto Rico. E a campanha exibiu mensagens bilíngues de apoio ao financiamento do combate à disseminação do vírus da zika e encorajando legislação para tratar da crise da dívida de Porto Rico.

No Arizona, um Estado que os democratas acreditam ter uma chance de vencer pela primeira vez desde que o ex-presidente Bill Clinton venceu ali em 1996, Hillary e seus aliados concentraram grande parte de seus esforços nas políticas contra imigração que foram aprovadas pelo governo estadual republicano.

Ela tem abraçado os imigrantes ilegais de uma forma que seria praticamente impensável na época em que seu marido concorreu à presidência em 1992. E prometeu transformar a questão politicamente inflamável da reforma da imigração em uma prioridade de seus primeiros 100 dias de governo, caso seja eleita.

Os democratas focaram especialmente nas mulheres latinas em sua campanha. Da mesma forma que as mulheres negras foram um influente motor de apoio para Obama, as mulheres latinas têm sido centrais para os esforços de organização dos democratas.

As latinas têm trabalhado ao telefone e batendo de porta em porta, com frequência em duplas mãe-filha. E dizem estar ouvindo a mesma história repetidas vezes de vizinhos que persuadiram a sair para votar: eles nunca votaram antes, mas sentem que agora precisam por não poderem tolerar a ideia de Trump na Casa Branca.

Ao ser perguntado se havia algo em particular que o levou até o local de votação em West Tampa, Flórida, no domingo, Oscar Diaz, 44 anos, um funcionário de manutenção de raízes porto-riquenhas, disse simplesmente: "A boca grande de Trump".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos