Cotado para negociar paz no Oriente Médio, genro de Trump é quase um desconhecido na região

Peter Baker e Isabel Kershner

Em Jerusalém (Israel)

  • Spencer Platt/Getty Images/AFP

Ele é amigo do prefeito e já tentou comprar uma empresa de seguros israelense. Os nomes de seus pais estão gravados em um campus hospitalar, um tributo a doadores generosos. Mas para muitos israelenses e palestinos, Jared Kushner é um mistério.

De repente, Kushner, 35, genro do presidente eleito Donald Trump e também um magnata dos negócios, surgiu como uma figura potencialmente importante para o futuro dessa região perturbada. Trump disse nesta semana que Kushner poderá ter um papel chave, embora ainda indefinido, nas iniciativas para levar a paz ao Oriente Médio.

Poucos dos israelenses e palestinos que estão envolvidos há anos no frustrante processo de paz se lembram de ter conhecido Kushner, e muitos correram para saber mais. Mas o tempo passado na mesa de paz mais uma vez não produziu exatamente a paz, e alguns dos que conhecem Kushner disseram que sua juventude e seus laços estreitos com o próximo presidente americano poderão fazer dele um novo ator valioso.

As autoridades israelenses, especialmente as mais chegadas ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, estavam otimistas, considerando Kushner um aliado.

"Não há dúvida de que ele sente um forte compromisso com a segurança e o futuro de Israel", disse Ron Dermer, o embaixador israelense nos EUA, que forjou um relacionamento estreito com Kushner.

Os líderes palestinos são mais discretos.

Mark Wilson/Getty Images/AFP
Donald Trump cumprimenta Jared Kushner e Ivanka Trump após o discurso da vitória

"Não conheço pessoalmente Jared Kushner e nunca o encontrei, mas aprecio a ideia de vê-lo ajudar a romper o impasse nas negociações do conflito", disse Amin Maqboul, secretário-geral do conselho revolucionário da Fatah, partido que controla a Autoridade Palestina.

A extensão da relação de Kushner com Israel não está clara. Ele não é um visitante assíduo nos corredores dos hotéis elegantes de Israel ou nos restaurantes da moda de Tel Aviv, nem estabeleceu laços profundos com o pujante setor de negócios em Israel.

Ele conhece Netanyahu casualmente desde a infância por meio de seu pai, Charles Kushner, um magnata do setor imobiliário que é atuante nos negócios e em filantropia em Israel. E é amigo de Nir Barkat, o prefeito de Jerusalém. Mas eles se encontram principalmente em Nova York, e não aqui.

Em uma entrevista a "The New York Times" nesta semana, Trump indicou Kushner como um ator influente nas futuras iniciativas de paz no Oriente Médio. "Quero dizer, ele conhece aquilo muito bem", disse Trump. "Ele conhece a região, as pessoas, conhece os atores."

Mas isso parece ser um exagero paternal. Certamente Kushner conhece a região e os atores melhor que Trump, que tem pouca experiência aqui. Mas telefonemas e e-mails a dezenas de políticos, diplomatas e jornalistas em Israel e nos territórios palestinos mostraram que poucos já o encontraram de fato.

"Eu nunca encontrei Jared Kushner", disse Dore Gold, um antigo assessor de Netanyahu que recentemente se demitiu do cargo de diretor-geral do Ministério das Relações Exteriores.  

Tampouco o conheciam Sallai Meridor, um ex-embaixador nos EUA; Yaakov Amidror, ex-assessor de Segurança Nacional de Netanyahu; ou Avinoam Bar-Yosef, presidente do Instituto de Política do Povo judeu, um grupo sediado em Jerusalém que pesquisa as relações Israel-EUA.

Mas Kushner foi o intermediário de Trump com diversos atores importantes israelenses e americanos judeus, incluindo Netanyahu, Dermer e doadores ricos como Sheldon Adelson, o magnata dos cassinos de Nevada. Kushner intermediou uma reunião entre Trump e Netanyahu em setembro e participou dela.

"Ele acompanha a questão. É um pensador estratégico", disse Martin Peretz, ex-dono de "The New Republic", que conheceu Kushner na Universidade Harvard e hoje divide seu tempo entre Israel e os EUA.

"Ele sabe o suficiente? Ele sabe mais que Aaron David Miller? Provavelmente não. Ele sabe mais que Dennis Ross? Provavelmente não", disse Peretz, citando dois antigos negociadores dos EUA. Mas "ele certamente sabe mais sobre a área que Barack Obama e mais que John Kerry".

Gabinete do premiê do Japão/AFP
Primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, durante encontro com o presidente eleito, Donald Trump, Ivanka Trump e Jared Kushner

Neto de sobreviventes do Holocausto, Kushner foi criado em uma família judia ortodoxa em Nova Jersey e se formou em uma escola judaica antes de estudar em Harvard. Ele observa o shabbat, e sua mulher --a filha de Trump, Ivanka-- se converteu ao judaísmo antes de se casar.

A equipe de transição de Trump não quis dizer com que frequência Kushner visitou Israel ou se ele tem alguma conexão com os palestinos. Mas um assessor do presidenteeleito enfatizou que Kushner seria apenas um dos muitos assessores para o Oriente Médio.

Kushner, que assumiu o império imobiliário de sua família com 20 e poucos anos e comprou o jornal "The New York Observer", visitou Israel em 2014, quando tentou adquirir uma posição de controle na seguradora Phoenix Holdings. Ele assinou um memorando não compulsório de entendimento para a compra de 47% da firma do Delek Group, um conglomerado israelense, por cerca de US$ 434 milhões. Mas o negócio não avançou, em parte por causa de exigências regulatórias.

Kushner estava em Israel durante a guerra com Gaza naquele verão, o que pareceu irritar sua mulher.

"Temos filhos pequenos, e Ivanka não gostou da ideia de eu estar aqui", disse ele ao jornal israelense "Yedioth Ahronoth". "Como americana que ouve as notícias a toda hora, e ouvindo sobre 90 mísseis que atingiam Israel diariamente, ela me perguntou: 'Que diabos você está fazendo?'"

Mais tarde naquele ano, enquanto o negócio da Phoenix se desfazia, seus pais viajaram a Jerusalém para dedicar um novo campus de 4,6 hectares ao Centro Médico Shaare Zedek, em frente ao monte Herzl, chamado de Campus Seryl e Charles Kushner. Os Kushner doaram US$ 20 milhões ao hospital, e Seryl Kushner serviu no conselho nacional de uma comissão americana que apoiava o Shaare Zedek.

Boaz Bismuth, o editor de exterior do jornal "Israel Hayom", de propriedade de Adelson, lembrou-se de que entrevistou Trump em dezembro.

"A primeira coisa que ele mencionou foi Jared; falou dele como alguém com quem pode contar", disse Bismuth. "Ele me disse que Jared conhece Israel, acompanha o que acontece aqui."
Agora, em vez de apenas acompanhar, Kushner poderá ter uma oportunidade de conduzir.

Colaboraram Rami Nazzal, de Ramallah, Cisjordânia, Maggie Haberman, de Nova York, e Jonathan Martin, de Washington

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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