"Fiquei 3 horas sem saber se minha filha estava viva": sobreviventes relatam terror em show

Ceylan Yeginsu, Rory Smith e Stephen Castle

Em Manchester (Reino Unido)

  • REUTERS/Jon Super

    22.mai.2017 - Jovens buscam abrigo após o atentado terrorista

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Foi um momento depois que a música terminou. A estrela pop Ariana Grande tinha encerrado o bis de seu show "Dangerous Woman" [Mulher Perigosa], e os gritos das adolescentes e outros já diminuía. O show tinha acabado no palco, as luzes da arena haviam se acendido e os fãs seguravam os balões cor-de-rosa que caíram do teto como lembrança de uma noite especial.

Lisa Conway, 49, tinha comprado secretamente ingressos para o show um mês antes e reservado um quarto no Park Inn Hotel, nas proximidades da arena. Foi uma surpresa para sua filha de 14 anos, cuja artista favorita era Grande. Mãe, filha, pai e filho vieram de Glasgow (Escócia), mas o pai e o filho preferiram passar a noite na cidade, em vez de ir ao show. Seria uma viagem de união familiar, dessas que marcam a adolescência, e um pequeno passo de entrada no mundo adulto.

Então, com a arena ainda vibrando com a alegria da música, veio a explosão.

"Era para ser um sonho, não um pesadelo", disse Conway na manhã de terça-feira (23), ao tomar o café da manhã no hotel, tremendo enquanto lutava para conter as lágrimas. "Havia crianças, sangue, sapatos espalhados pelo chão."

Ela acrescentou: "Como posso explicar isso a uma menina de 14 anos? Ela não disse uma palavra desde que acordou de duas horas de sono".

Polícia confirma mortos e feridos em Manchester após relatos de explosão

A explosão na Manchester Arena na noite de segunda-feira (22) é o pior incidente terrorista no Reino Unido desde 2005, com pelo menos 22 pessoas mortas e dezenas feridas num ataque que segundo a polícia foi praticado por um homem que morreu na explosão, possivelmente um suicida. Os investigadores começam a juntar as informações sobre a identidade do atacante e se a pessoa estava ligada a organizações terroristas ou foi inspirado por elas.

O terrorismo tem sua própria linguagem e simbolismo, seja em um ataque contra um jornal satírico de Paris ou no bombardeio a um hotel de luxo em Mali. A violência se destina a instigar medo e transmitir uma mensagem. E a mensagem da explosão de Manchester foi chocante: o assassinato de adolescentes, a ansiedade dos pais esperando para levá-los para casa, a busca frenética por pessoas amadas em meio ao caos e às sirenes, tudo em uma cidade que parecia estar fora do radar dos extremistas.

Já surgem indagações sobre se a segurança na arena foi adequada. Investigadores dizem que a explosão ocorreu em um átrio, mas não ficou claro que se referiam a um espaço público entre a arena e a vizinha estação de trens Victoria ou a uma área dentro do perímetro de segurança do ginásio.

Os organizadores do show disseram que a segurança foi reforçada, com verificações rígidas do público. Mas alguns que estavam lá disseram que o ambiente era bem mais descontraído.

"Nossas bolsas foram revistadas quando entramos na arena, mas só rapidamente", disse Caitlin McCoy, 23. "Havia um bolso secreto dentro da minha bolsa que só tinha maquiagem dentro, mas eles não olharam lá. Pareciam mais preocupados em encontrar bebida do que qualquer outra coisa."

O show começou por volta das 19h35, e depois de dois números de abertura Ariana Grande subiu ao palco. Uma antiga estrela-mirim da rede de televisão Nickelodeon, Grande, 23, é conhecida por sua voz forte e, como outros astros infantis, tentou evoluir com seus fãs conforme cresceram juntos.

Seu disco de estreia em 2013, "Yours Truly", chegou ao primeiro lugar na Billboard 200 e seu álbum "Dangerous Woman", de maio de 2016, assinalou seu avanço para temas mais maduros. A canção-título é sobre querer ser uma "menina má", como uma forma de empoderamento --ser forte e corajosa--, e o álbum rapidamente alcançou o topo da parada de Álbuns Oficiais no Reino Unido.

Quando Grande terminou seu bis e saiu do palco, por volta de 22h30, as luzes aumentaram e as pessoas começaram a seguir para as saídas. Então ocorreu o que alguém descreveu como uma "poderosa explosão". Algumas testemunhas lembram que sentiram cheiro de enxofre. Um vento percorreu a arena. Por um instante, ninguém sabia o que tinha acontecido. Algumas pessoas se perguntavam se alguns balões cor-de-rosa tinham estourado.

De início, McCoy disse a si mesma que não podia ser uma bomba. A nuvem de fumaça branca a fez pensar que fossem fogos de artifício soltos depois da canção final, um último brinde do show espetacular. "Pensei que uma bomba tivesse outro aspecto, outro som", disse ela. "Não sei por quê."

Quando McCoy, 23, e sua amiga Amy Hedley se sentaram na parte superior da arquibancada, elas comentaram como a multidão era jovem. "Eram na maioria garotas adolescentes", disse ela. "A média de idade devia ser 14 anos."

A potência da explosão sacudiu a arena, e muitas pessoas começaram a gritar e correr. Fora do ginásio, pais esperavam para apanhar seus filhos. Diane Burnett, de Edimburgo (Escócia), procurava seu filho de 17 anos no momento da explosão. "Foi um estouro forte, depois silêncio, e então muitas meninas gritando", disse ela. "Você não sabia o que era, talvez um acidente de trem."

Outro pai, Kevin Pickford, correu para a entrada principal procurando pelas duas filhas. "Houve um anúncio pedindo que as pessoas saíssem lenta e calmamente", lembrou ele. Mas o pânico superava a calma.

"Todo mundo chorava e gritava", disse Sophie Tedd, 25, que tinha ido ao show com sua amiga Jessica Holmes. "Ninguém sabia para que lado ir."

Uma mulher mais velha em uma cadeira de rodas ficou presa no tumulto, enquanto outro espectador gritava para que a multidão a deixasse passar.

Molly Cronin, 18, descreveu uma disparada de fãs em pânico. "As crianças eram esmagadas e nós tentávamos ajudá-las", disse ela, notando que o momento da explosão pareceu "deliberado".

Lá fora, logo apareceram policiais, tentando orientar as pessoas para a segurança. "Eles nos diziam para correr, continuar correndo para longe da Estação Victoria", disse Tedd. Frotas de ambulâncias com sirenes ligadas se aproximavam da cena.

Poucas pessoas, porém, sabiam para onde ir. Um cordão policial rapidamente se formou. Os hotéis locais abriram suas portas, oferecendo refúgio para os desorientados.

No interior do ginásio, Louise Reid, 48, levava sua filha Patty, de 15 anos, para a saída quando a avalanche de pessoas as envolveu. "Eu me virei e parecia que centenas de pessoas caíam sobre mim", disse ela, descrevendo a potência da multidão que a separou de sua filha. "Eu não conseguia voltar, senti-me tão impotente!"

Quando chegou à área onde tinha ocorrido a explosão, Reid ficou horrorizada. Pais e outras pessoas olhavam freneticamente para os corpos, tentando identificar seus parentes, até que guardas de segurança os obrigaram a sair.

Reid foi um dos pais frenéticos, procurando sua filha. "Mas Patty não saiu e eu me recusei a sair até que fui forçada pelos paramédicos e a polícia", disse ela. "Eu não sabia o que fazer, para onde ir. Não tinha telefone. Só fiquei gritando por Patty."

Três horas se passaram antes que a polícia encontrasse a menina em um hotel próximo. "Três horas sem saber se minha filha estava viva ou morta", disse Reid, com lágrimas escorrendo pelo rosto, sentada na casa de um morador próximo da arena.

"Como voltaremos ao normal depois disso?", perguntou ela. "A tragédia mostra que pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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