Esqueça a "louca dos gatos". Em Nova York, a onda é ser a "louca dos ratos"

John Surico

Em Nova York

  • Celeste Sloman/The New York Times

    Breonne Rittinger e seu rato de estimação Nibbler, em seu apartamento em Nova York; ela se define como a "louca dos ratos"

    Breonne Rittinger e seu rato de estimação Nibbler, em seu apartamento em Nova York; ela se define como a "louca dos ratos"

Quando Breonne Rittinger, 21, e seu namorado, Taylor Cowan, 27, começaram a procurar por um animal de estimação ano passado, eles pensaram nas opções.

Como modelos que viajavam frequentemente, o casal queria um pet que exigia pouca supervisão. Eles compartilham um apartamento no bairro de Upper West Side, em Manhattan, com duas outras pessoas, e um dos colegas já tinha dois gatos. Um cachorro não parecia factível.

Então Rittinger teve uma ideia: ratos.

Agora eles têm três.

"Eu realmente me tornei 'a louca dos ratos'", disse Rittinger, enquanto sua ratinha Zelda guardava sucrilhos na mochila de Cowan e outro rato, Nibbler, corria por uma caixa vazia em sua jaula. "Mas estou bem com isso."

Nibbler e sua irmã Leela chegaram em janeiro, adotados de uma família em Staten Island que os havia resgatado de um pet shop local. Algumas semanas mais tarde, veio outro par, Liliu e Daisy, de uma "rataria" de boa reputação em Long Island. Quando Leela morreu em april, e Liliu logo em seguida, Zelda se juntou aos demais. 

Rittinger já estava familiarizada com roedores -- ela cresceu com hamsters na Geórgia. Mas Cowan hesitava. Seu antigo apartamento, no Lower East Side, era infestado com ratos, um problema que ele atribuía ao proprietário. Após pesquisar, Cowan acabou se acostumando com a ideia: "Era muito difícil achar coisas negativas online sobre ratos de estimação".

Cowan disse que, no início, sua irmã ficou com nojo dos animais, assim como muitos de seus amigos. Quando Rittinger levou os ratos para a agência de modelos, dois funcionários se recusaram a vê-los. Muitas pessoas olhavam torto para eles quando levavam os ratinhos para o Central Park. 

Essas experiências, dizem os donos de ratos, não são novos. Conhecidos por correrem sorrateiramente pelas latas de lixo e por roubarem pedaços de pizza no metrô, ratos sempre foram vistos como a escória da cidade. Pesquisas recentes sugerem que a população de ratos nas ruas pode ser de até 3 milhões. É fácil ver porquê muitos nova-iorquinos não vão aceitar sua domesticação.

Mas os donos de ratos dizem que isso é grande mal-entendido.

Celeste Sloman/The New York Times
Breonne Rittinger com seu rato de estimação Nibbler

"Quando você diz a palavra 'gato', as pessoas automaticamente associam essa palavra com um pet em casa, não um gato feral na rua", diz a produtora de TV e cinema Melissa Stewart, 34. "Mas se alguém diz 'rato', você imediatamente pensa que é feral ou um rato de rua." 

Apesar de raras, há histórias de domesticação de ratos de rua, mas esses ratos têm muita dificuldade em encontrar um lar, diz ela. Ratos de rua são os ratos marrons, explica Stewart, e são tido como menos civilizados e sadios e são diferentes dos ratos "chiques", das espécies que a maioria dos nova-iorquinos busca para adotar. 

Stewart teve contato com a ratos de estimação pela primeira vez há oito anos, numa festa no bairro de Williamsburg, no Brooklyn, em que alguém lhe contou que uma rata chamada Minky estava para adoção. Stewart, uma nova-iorquina nativa que tinha tido um ouriço na escola, ficou interessada.

"Assim que a adotei, fiquei impressionada com o quão incrivelmente legais, espertos e sociáveis eles são", disse. "Eles não mordem. Eles são como pequenos cachorros, misturados com gatos."

Isso foi cinco ratos atrás. 

Agora, Stewart é uma ferrenha defensora da adoção e frequentemente se acha explicando a cultura do rato para colegas de trabalho. "A reação inicial deles é assim 'sério?'", diz. Mas depois de algumas fotos, a maioria fica mais receptiva à ideia. 

O único ponto negativo, segundo ela, é sua vida útil, que em média dura apenas cerca de dois anos.

Fóruns e comunidades online

Celeste Sloman/The New York Times
Breonne Rittinger e seu namorado Taylor Cowan com o ratinho Nibbler, no apartamento em que vivem em Nova York
Muitos poucos médicos tratam ratos. "A maioria dos veterinários não tem interesse ou trata só gato e cachorro e, sem a correta orientação, acaba prestando um desserviço a esse tipo de pet", afirma Anthony Pilny, do Centro de Medicina Aviária e Exótica, que recentemente teve cinco ratos. 

Ele afirma que esse deficit de cuidadores levou a comunidade a foruns online e grupos de encontro, onde "orgulhos pais e mães de ratos" trocam dicas, truques e fotos. 

Raças como Dumbos, conhecidas por suas orelhas grandes, são descritas em detalhes, enquanto seus novos pais pedem por conselhos: quais são os cuidados de higiene? (Eles se limpam, mas os rabos podem ficar sujos.) Eles precisam de companhia? (Certamente.) O que eles comem? (Provavelmente não pizza.) E viver junto com gatos? (Depende.). 

Ter essa comunidade pode ser reconfortante, dizem os donos, já que pedidos por "rat sitters" ou dúvidas médicas são rapidamente respondidos. Os participantes dos fóruns encorajam a aquisição de ratos de criadores, em vez de pet shops, que tipicamente vendem ratos para serem consumidos por cobras, e temas como rodinhas dentro das jaulas e produtos para ratos são altamente debatidos. O site de artesanato Etsy é uma importante fonte de redes para ratos, casacos para ratos, casas para ratos e até fantasias para ratos no formato de fatias de pizza de pepperoni.

A adoção de ratos está acontecendo em outros lugares além de Nova York. Depois de usar a hashtag #ratsofinstagram ao postar suas fotos, Stewart se conectou com donos na Europa, onde a adoção de ratos supostamente cresceu após a exibição do filme da Disney "Ratatouille", em 2007.

É uma aceitação que ela espera que sua cidade natal um dia adotará.

Mas praticamente desde sua criação, Nova York tem lutado uma guerra infinita contra ratos, com alguns cidadãos assumindo para si essa caçada. Em 2005, o Departamento da Saúde investiu US$ 2,9 milhões extras contra os "reservatórios de ratos", ou áreas com grandes concentrações, e começou recentemente testes de pequena escala de esterilização. A Prefeitura também oferece oficinas em Treinamento no Manejo de Ratos para proprietários e síndicos. 

Mas Abigail Stringer, 13, do bairro Windsor Terrace, no Brooklyn, quer fazer uma clara distinção aos colegas que fazem graça dela na escola. "Conto para meus amigos sobre os ratos, e eles fazem 'Eca, onde você os pega, no metrô?'"

"Estes são tipos diferentes de ratos, estes são ratos chiques", ela explica, enquanto seu rato albino, Squeak, caminha pelo seu pescoço. "Não é a mesma coisa."

Pelo menos esse foi o argumento que Abigail usou com sua mãe, Ruth, quando lhe mostrou uma apresentação com PowerPoint para defender a ideia de adotar um rato. Ela mostrou ainda artigos citando sua inteligência e histórias do HeroRATS, que são usados para detectar minas terrestres em Angola, no Camboja e em outros países. 

"Gosto de pensar neles como pequenos cachorros, que custam menos e são mais espertos", disse ela, escondendo pequenos pedaços de cenoura para depois Squeak farejar e comer. 

"Ele é mais esperto que Rascal", disse sua mãe sobre o cachorro da família, um Cavalier King Charles spaniel, ali perto. 

Abigail respondeu: "Definitivamente".

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