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Compartilhados por Trump, vídeos antimuçulmanos têm informações falsas e fora de contexto

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante conferência na Casa Branca, em Washington - 	Susan Walsh/AP
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante conferência na Casa Branca, em Washington Imagem: Susan Walsh/AP

Megan Specia*

30/11/2017 12h46

No início da última quarta-feira (29), o presidente Donald Trump provocou indignação internacional quando compartilhou uma série de vídeos que mostram muçulmanos sob uma luz negativa.

Os vídeos, feitos em três países em três momentos diferentes, têm uma coisa em comum: todos pretendem mostrar a violência praticada por muçulmanos e não oferecem uma explicação clara do que está acontecendo diante da câmera. 

Um exame mais detalhado dos clipes --tuitados primeiramente por Jayda Fransen, do grupo marginal nacionalista Britain First, e depois retuitados por Trump-- revela mais, entretanto, inclusive que um vídeo representa erroneamente os fatos diante do espectador, enquanto os outros dois não dão o contexto do que está acontecendo. 

Aqui está uma análise do que sabemos sobre os vídeos: 

"Migrante muçulmano" que espancou menino holandês era na verdade holandês

O primeiro vídeo, de um adolescente atacando outro menino, foi apresentado no tuíte como a gravação de um "imigrante muçulmano" agredindo um menino holandês.

Segundo autoridades locais, porém, os dois meninos são holandeses e nenhum deles é migrante.

O clipe foi feito em maio em Monnickendam, uma pequena cidade da Holanda, na província de Holanda Norte. Ele mostra um adolescente socando e chutando um menino que segura uma muleta.O gabinete do promotor público da província disse que o agressor era um jovem de 16 anos "nascido e criado na Holanda". Ele foi preso depois que o vídeo foi divulgado, segundo autoridades.

O primeiro vídeo foi apresentado como a gravação de um "imigrante muçulmano" agredindo um menino holandês - Reprodução/Twitter @@realDonaldTrump - Reprodução/Twitter @@realDonaldTrump
O primeiro vídeo foi apresentado como a gravação de um "imigrante muçulmano" agredindo um menino holandês
Imagem: Reprodução/Twitter @@realDonaldTrump

O vídeo não dá indicação sobre o histórico de nenhum adolescente. Ambos falam holandês no clipe.

Marleen van Fessem, assessora de imprensa do promotor público, disse em um comunicado que o adolescente foi condenado sob um programa de infratores juvenis.

Ela não quis explicar melhor a religião de nenhum dos adolescentes, dizendo que não estava autorizada a dar essa informação. Mas disse que a rápida disseminação do vídeo sem os fatos era prejudicial.

"As notícias correm depressa, mesmo as locais!", disse ela. "A falta de informação de contexto claramente afeta sua confiabilidade."

Na tarde de quarta-feira, a conta oficial no Twitter da Embaixada da Holanda nos EUA apontou os fatos do caso ao presidente.

"@realDonaldTrump Os fatos importam. O perpetrador do ato violento neste vídeo nasceu e foi criado na Holanda. Ele recebeu e cumpriu sua pena sob a lei holandesa."

Não está claro de onde veio a versão dos fatos de Fransen quando ela tuitou o vídeo no início de quarta-feira, com a legenda "Migrante muçulmano espanca menino holandês com muletas!" A organização Britain First não respondeu a pedidos de comentários. 

Estátua da Virgem Maria destruída por extremista sírio

O segundo vídeo retuitado por Trump mostra um homem destruindo uma estátua da Virgem Maria na Síria. 

O tuíte original com o vídeo descreve o homem simplesmente como um "muçulmano". Mas ele é um religioso extremista sírio, Abo Omar Ghabra, que na época estava no grupo militante islâmico Jabhet al-Nusra. A destruição de iconografia religiosa praticada por grupos extremistas islâmicos há muito foi condenada pela população muçulmana em geral. O tuíte não inclui esse contexto. 

O incidente ocorreu em outubro de 2013 em Qunaya, uma aldeia na área rural no norte da província de Idlib, segundo Nazir Abdo, 28, que vivia na aldeia na época.

 

O segundo vídeo retuitado por Trump mostra um homem destruindo uma estátua da Virgem Maria na Síria - Reprodução/Twitter @realdonaldtrump - Reprodução/Twitter @realdonaldtrump
O segundo vídeo retuitado por Trump mostra um homem destruindo uma estátua da Virgem Maria na Síria
Imagem: Reprodução/Twitter @realdonaldtrump

Abdo hoje trabalha como ativista de mídia documentando violações de direitos humanos na Síria e foi contatado na Turquia por telefone. Ele disse que o religioso mais tarde entrou para o Estado Islâmico em Raqqa, mas fugiu quando forças apoiadas pelos EUA capturaram a cidade. Ghabra foi eventualmente detido por rebeldes sírios em Alepo.

Antes desse incidente, militantes da Jabhet al-Nusra destruíram outra estátua da Virgem Maria na principal rotatória da cidade, cortando-a com um machado e depois demolindo-a. Mais tarde ergueram sua bandeira ali.

A gravação de Ghabra circulou amplamente por meio de vários grupos em 2013, incluindo o canal de notícias dirigido pelo Estado iraniano Al Alam e o Infowars de Alex Jones --o site de extrema-direita que costuma difundir teorias de conspiração e boatos. Ele continuou vivo no mundo da extrema-direita, em canais antimuçulmanos e de ativistas conservadores na mídia.

Gravação de homem empurrado de prédio durante rebelião no Egito 

O último clipe retuitado por Trump foi descrito no tuíte original como "Multidão islâmica empurra adolescente do telhado e o espanca até a morte!"

A gravação foi feita em 5 de julho de 2013, durante choques no bairro de Sidi Gaber em Alexandria, no Egito, entre seguidores de Mohammed Morsi, o presidente eleito democraticamente que tinha sido deposto, e seus adversários. Essa informação não constava do tuíte, assim como qualquer explicação da complexa situação política no Egito na época. 

O incidente ocorreu dias depois que os militares egípcios derrubaram Morsi, quando as tensões estavam fortes em todo o espectro político. Depois da saída de Morsi, houve uma onda de choques entre seus apoiadores, adversários e a polícia em diferentes partes do Egito. Essa violência foi mais tarde superada em muito pelos militares que dispersaram manifestações islâmicas no Cairo em agosto daquele ano, matando mais de 800 manifestantes em um único dia.

O último clipe retuitado por Trump foi descrito no tuíte original como "Multidão islâmica empurra adolescente do telhado e o espanca até a morte!" - Reprodução/Twitter @realdonaldtrump - Reprodução/Twitter @realdonaldtrump
O último clipe retuitado por Trump foi descrito no tuíte original como "Multidão islâmica empurra adolescente do telhado e o espanca até a morte!"
Imagem: Reprodução/Twitter @realdonaldtrump

Um homem ao fundo do vídeo é visto carregando uma bandeira preta, que foi inicialmente levada por muitos seguidores de diferentes grupos islâmicos antes de se tornar símbolo do Estado Islâmico.

O homem com a bandeira preta, Mahmoud Ramadan, foi considerado culpado pelo assassinato de um dos adolescentes empurrados do telhado; ele foi enforcado em março de 2015. Os adolescentes no telhado teriam atirado pedras contra uma manifestação contra os militares, o que pode ter provocado o ataque captado em vídeo, segundo a mídia estatal egípcia.

Enquanto o vídeo foi uma clara exibição de violência, tuitá-lo fora de contexto deixa de levar em conta a inquietação política e os atos de muitas partes que foram orientados por suas afiliações políticas.

*Colaboraram Nour Youssef, do Cairo, e Karam Shoumali, de Istambul 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves