Europeus debatem defesa nuclear própria após a vitória de Trump

Konstantin von Hammerstein, Christiane Hoffmann, Peter Müller, Otfried Nassauer, Christoph Schult e Klaus Wiegrefe

  • David Parody/ AP

Por décadas, as armas nucleares americanas serviram como garantia da segurança europeia. Mas o que acontecerá se Donald Trump colocar em dúvida esse escudo nuclear? Já teve início em Berlim e Bruxelas o debate sobre alternativas à capacidade dissuasiva americana

A questão é tão sigilosa que nem mesmo está listada em qualquer agenda diária do quartel-general da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Quando oficiais militares e diplomatas falam a respeito dela em Bruxelas, eles o fazem de forma privada e em grupos muito pequenos, às vezes com apenas duas ou três pessoas de cada vez. Há um motivo para avisos serem exibidos no quartel-general dizendo, "nenhuma conversa confidencial".

E trata-se de uma questão extremamente sensível. A aliança deseja evitar uma discussão pública a qualquer custo. Tal debate, alerta um diplomata, poderia provocar uma "avalanche". As fundações da arquitetura de segurança transatlântica poderiam ser colocadas em risco caso essa "caixa de Pandora" seja aberta.

Grande incerteza

A discussão envolve a dissuasão nuclear. Por décadas, a linha final de defesa da Europa contra uma possível agressão russa tem sido fornecida pelo arsenal nuclear americano. Mas desde a eleição de Donald Trump como 45º presidente dos Estados Unidos, as autoridades em Berlim e Bruxelas não têm mais certeza de que Washington continuará fornecendo proteção à Europa.

Ainda não está claro que curso tomará a política externa do novo governo, isto é, se é que tomará algum. Pode ser que Trump comande a política externa sob o mesmo princípio que adota em seu império corporativo: um nível máximo de imprevisibilidade.

Com seus comentários depreciativos durante a campanha sobre a Otan ser "obsoleta", Trump já colocou em dúvida a lealdade dos americanos à aliança. Consequentemente, a Europa começou a se preparar para um futuro no qual é provável que tenha que assumir uma parcela muito maior dos custos por sua segurança.

Mas e se o presidente eleito tiver em mente uma mudança ainda mais fundamental para a política de segurança americana? E se ele questionar o escudo nuclear que forneceu segurança à Europa durante a Guerra Fria?

Por mais de 60 anos, a Alemanha confiou sua segurança à Otan e sua principal potência, os Estados Unidos. Sem uma dissuasão crível, os países europeus membros da Otan estariam vulneráveis às possíveis ameaças da Rússia. Seria o fim da aliança transatlântica.

Franceses ou britânicos poderiam ocupar o lugar?

Nas capitais europeias, as autoridades contemplam a possibilidade de uma capacidade nuclear europeia dissuasiva desde a eleição de Trump. Os obstáculos (militares, políticos e da lei internacional) são enormes e não há intenções concretas e nem planos. Mesmo assim, diplomatas franceses em Bruxelas já começaram a discutir a questão com seus pares de outros países membros: poderiam os franceses e britânicos, ambos detentores de arsenais nucleares, passar a fornecer proteção para outros países, como a Alemanha?

"É bom isso estar sendo finalmente discutido", diz Jan Techau, diretor do Fórum Holbrooke da Academia Americana, em Berlim. "A questão do futuro da defesa nuclear da Europa é o elefante na sala no debate da segurança europeia. Se a garantia de segurança nuclear dos Estados Unidos desaparecer, então será importante esclarecer quem nos protegerá no futuro. E como devemos nos prevenir de sermos chantageados a respeito da questão nuclear no futuro?"

Um ensaio na edição de novembro da revista "Foreign Affairs" argumenta que se Trump questionar seriamente as garantias americanas, Berlim terá que considerar o estabelecimento de uma capacidade nuclear dissuasiva europeia baseada na capacidade francesa e britânica. Enquanto isso, o respeitado jornal "Frankfurter Allgemeine Zeitung" até mesmo contemplou o "impensável" em um editorial: uma bomba alemã.

'A última coisa que a Alemanha precisa agora'

Os políticos em Berlim querem impedir um debate a todo custo. "Um debate público sobre o que acontecerá caso Trump mude a doutrina nuclear americana é a última coisa que a Alemanha precisa no momento", diz Wolfgang Ischinger, chefe da Conferência de Segurança de Munique. "Seria um erro catastrófico se Berlim, dentre todos os lugares, iniciasse esse tipo de discussão. Será que a Alemanha poderia de fato querer uma arma nuclear, apesar de todas as promessas do contrário? Isso não poderia alimentar uma campanha antialemã?"

O debate, entretanto, não mais está relegado ao círculo relativamente seguro dos centros de estudos e publicações de relações exteriores. Em uma entrevista que ganhou atenção internacional em meados de novembro, Roderich Kiesewetter, o presidente pela bancada conservadora democrata-cristã no Comitê de Relações Exteriores do Parlamento alemão, propôs um escudo nuclear francês-britânico caso Trump coloque em dúvida a proteção americana à Europa. "O escudo nuclear e as garantias de segurança nuclear americanas são imperativas para a Europa", ele disse à agência de notícias "Reuters". "Se os Estados Unidos não mais quiserem fornecer essa garantia, a Europa ainda precisará de proteção nuclear para fins de dissuasão."

No último fim de semana, o chefe de gabinete de Angela Merkel, Peter Altmaier, disse em uma entrevista que o fornecimento de um escudo nuclear para a Europa é do "interesse de política de segurança" dos Estados Unidos. Além disso, ele disse, "dois países membros da UE possuem armas nucleares".

Impopular e politicamente explosivo

Kiesewetter argumenta que a Europa deve se preparar para todas as eventualidades. "Não pode se colocar limites ao nosso debate sobre a segurança", ele diz. O especialista em política de segurança da União Democrata Cristã é um ex-coronel das Forças Armadas alemãs e também trabalhou tanto no quartel-general da Otan, em Bruxelas, quanto no quartel-general militar da aliança em Mons, Bélgica. Após a eleição de Trump, ele conversou não apenas com diplomatas franceses e britânicos, mas também levantou os pontos de vista dentro do governo alemão.

Ele diz que conversou com Christoph Heusgen, o conselheiro de segurança de Merkel, e com o Gésa von Geyr, o diretor de políticas do Ministério da Defesa. Kiesewetter diz que a questão não está sendo tratada pela chancelaria ou pelo Ministério da Defesa. Ao mesmo tempo, ele diz, ele também não ficou com a impressão de que suas ideias foram desdenhadas como fantasia.

É compreensível que o governo alemão queira acabar rapidamente com o debate. A questão é politicamente explosiva e seria altamente impopular. Nas pesquisas, mais de 90% dos alemães são contrários à ideia da Alemanha possuir sua própria bomba nuclear. O escudo nuclear americano ofereceu até o momento aos alemães o luxo de permanecerem no lado certo do debate moral, já que Washington garante a segurança deles.

'A mensagem errada'

As autoridades em Bruxelas também não estão empolgadas com as declarações que saem de Berlim. "O fato de essas considerações terem se tornado públicas é profundamente preocupante", diz um diplomata que representa um dos países membros da Otan. "Isso enviaria a mensagem errada à América, assim como uma mensagem grotescamente errada à Rússia", diz Ischinger. Ele alerta que não se pode enviar a Washington a mensagem de que a Europa está em processo de explorar alternativas ao escudo protetor americano.

Mas oficiais militares e diplomatas estão tratando do assunto dentro do quartel-general da Otan. Um diplomata diz que essas ideias estão circulando "informalmente e em 'off'" dentro do quartel-general da Otan já há alguns meses. "As declarações feitas pelo sr. Kiesewetter refletem as preocupações que existem por toda parte na Europa a respeito do que a posse de Trump significará para o envolvimento americano e sua estratégia de dissuasão nuclear."

Na questão nuclear, Trump chamou atenção principalmente por seus comentários improvisados feitos durante a campanha. "Se temos armas nucleares, por que não podemos usá-las?" ele teria dito durante um briefing de política externa em meados do ano.

Durante a campanha, ele também brincou com a ideia de eliminação do escudo nuclear americano, que fornece proteção ao Japão e Coreia do Sul. Basicamente, ele sugeriu que os dois países asiáticos deveriam desenvolver suas próprias armas nucleares. Os europeus então passaram a temer que uma ameaça semelhante poderia ser direcionada a eles.

Esses comentários surgem em um momento em que Moscou está mais focada em seu papel como potência nuclear do que desde o final da Guerra Fria. Assim como os Estados Unidos, a Rússia está no momento em processo de modernização de seu arsenal nuclear. Há alguns anos, ameaças veladas sobre o arsenal nuclear de Moscou se tornaram parte do repertório padrão da retórica do presidente Vladimir Putin.

Dissuasão britânica e francesa

A Europa enfrentaria obstáculos muito altos caso desejasse criar seu próprio escudo nuclear. Por que o Reino Unido, atualmente em processo de saída da União Europeia, concordaria com isso? E por que os franceses dariam aos alemães algum poder de decisão sobre sua "Force de Frappe" dissuasora? Ambos teriam supostamente recusado considerar a noção em sondagens iniciais por Bruxelas. Mas há uma questão ainda maior. Caso concordassem em cooperar, o arsenal nuclear mantido pelas potências nucleares europeias seria suficiente para assegurar uma capacidade nuclear de dissuasão?

É provável que sim. Somados, Reino Unido e França podem ter apenas 10% do número de armas nucleares americanas, mas sua capacidade de ataque é forte o suficiente para dissuadir de forma eficaz qualquer agressor potencial.

O escudo nuclear que os Estados Unidos criaram para os países membros da Otan é composto de dois componentes: o elemento estratégico consiste de centenas de mísseis balísticos intercontinentais, uma imensa frota de bombardeiros e cerca de uma dúzia de submarinos da classe Ohio. Cada submarino conta com mais de 20 mísseis Trident II (D5) com múltiplas ogivas à disposição.

O elemento tático projetado especificamente para o teatro de guerra europeu é composto de pouco mais de 180 mísseis b61-3 e 4 transportados por aviões, posicionados em seis bases aéreas em cinco países membros da Otan diferentes. Até 20 bombas nucleares estão armazenadas no vilarejo de Büchel, Alemanha, que podem ser lançadas de caças Tornado alemães.

Juntos, Reino Unido e França contam com cerca de 450 ogivas nucleares. A França usa quatro submarinos com mísseis balísticos estratégicos, cada um com capacidade de carregar 16 mísseis com quatro a seis ogivas múltiplas. O país também tem cerca de 50 caças Mirage 2000N e Rafale com capacidade de ataque nuclear, cada um equipado com mísseis de cruzeiro nucleares.

O Reino Unido conta com quatro submarinos da classe Vanguard que também levam mísseis Trident II (D5) que podem levar até 160 ogivas nucleares. Mas, tecnologicamente, os britânicos são dependentes dos americanos.

'Suficientes para defesa da Alemanha'

"Visto totalmente pelo ponto de vista militar, as armas nucleares que a França e o Reino Unido possuem seriam suficientes para defesa da Alemanha", diz Techau, da Academia Americana. O fato de não terem o mesmo número de armas nucleares que a Rússia realmente não importa. "A capacidade de segundo ataque retaliatório, que é decisiva para dissuasão, existe."

Entretanto, do ponto de vista político, as coisas se tornam mais complicadas. A França sempre viu sua capacidade nuclear como um ativo nacional e nunca colocou suas armas sob um mandato da Otan. Ela coordena com Bruxelas, mas decidiria de forma independente da aliança sobre qualquer posicionamento potencial de suas armas nucleares.

Mesmo durante a Guerra Fria, vários esforços políticos foram feitos para estabelecer uma cooperação nuclear franco-alemã, mas nada resultou deles.

O chanceler Konrad Adenauer e o ministro da Defesa, Franz Josef Strauss, esperavam trabalhar junto com Paris. Mas Charles de Gaulle suspendeu imediatamente o projeto secreto assim que foi eleito em 1958.

Posteriormente, dois anos após perder o cargo nas eleições, o ex-chanceler alemão Helmut Schmidt, do Partido Social Democrata de centro-esquerda, também propôs um acordo. Ele sugeriu que a França expandisse sua dissuasão nuclear visando incluir a Alemanha. Em troca, a Alemanha Ocidental ofereceria seu "capital e força financeira" para ajudar a financiar o programa francês de armas nucleares.

A França rejeitou a Alemanha

Helmut Kohl, que era chanceler na época, rejeitou a ideia como um "artifício intelectual". Um protocolo secreto, datado de dezembro de 1985 (e que se tornou público apenas no início deste ano), mostrou por que a desconfiança de Kohl era justificada. Nele, o presidente francês François Mitterrand admite para Kohl que a França não estava disposta a "fornecer proteção nuclear à Alemanha". Ele disse que o potencial nuclear da França só poderia servir à proteção de um "pequeno território", em outras palavras, a França. Se Paris expandisse sua proteção, disse o líder francês, isso exporia seu país a uma "ameaça letal". Em outras palavras, Mitterrand não queria correr o risco de morrer defendendo a Alemanha.

Mesmo se a França mudasse de posição, isso seria difícil sob a lei internacional para que a Alemanha participasse militarmente de um escudo nuclear europeu. Se a participação da Alemanha em um escudo nuclear da Otan é permitida ou não pela lei internacional já é tema de considerável debate. Uma bomba alemã de fato violaria os termos tanto do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) quanto do Acordo Dois Mais Quatro, o tratado que resultou na reunificação da Alemanha.

Ao se tornarem signatários do TNP em 1975, os alemães se comprometeram a "não receber transferência por parte de qualquer transferidor de armas nucleares ou de outros artefatos nucleares explosivos, ou de controlar essas armas ou dispositivos explosivos direta ou indiretamente". Durante as negociações para a reunificação alemã em 1990, o então chanceler Kohl também afirmou a "renúncia" pela Alemanha da fabricação, posse e controle de armas nucleares. O artigo se tornou parte integral do Acordo Dois Mais Quatro.

Uma potência nuclear europeia?

Mas os alemães sempre deixaram uma brecha aberta. Em anotações diplomáticas anexadas aos documentos de ratificação alemã do TNP, o governo em Bonn declarou na época que a assinou "convencido de que nenhuma estipulação no tratado pode ser interpretada como impedindo o desenvolvimento da unificação europeia, especialmente a criação de uma União Europeia com capacidades apropriadas", Wolfgang Mischnick, o líder no plenário do Parlamento pelo Partido Democrático Liberal, que compartilhava o poder com os democrata-cristãos de Kohl na época da reunificação, esclareceu publicamente o que isso significava durante uma sessão do Bundestag (o Parlamento alemão) em 20 de fevereiro de 1974: "Ainda é possível o desenvolvimento de uma potência nuclear europeia", ele disse.

Quarenta anos depois, a questão agora está sendo levantada pela primeira vez. Com ela também vem a questão do grau com que os europeus confiam de fato uns nos outros. O verdadeiro teste virá se os Estados Unidos decidirem retirar seu apoio nuclear da Europa. Então os europeus seriam forçados a perguntar se Paris e Londres estão preparados para garantir a segurança da Alemanha e de outros países europeus. Além disso: os alemães depositariam sua confiança em um escudo nuclear fornecido por seus parceiros europeus?

Para a França, que sempre suspeitou da dependência europeia da Otan, um escudo nuclear europeu também poderia se transformar em uma oportunidade. Um arsenal nuclear sob a liderança francesa, com grandes partes financiadas pelos alemães, colocaria o país economicamente enfraquecido em uma posição dominante em termos da segurança europeia.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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