Por que o modelo de financiamento do Estado Islâmico está falhando agora?

Christoph Reuter

  • AFP PHOTO/AHMAD AL-RUBAYE

    17.out.2016 - Exército do Iraque lança ofensiva para retomar a cidade de Mosul do controle do Estado Islâmico

    17.out.2016 - Exército do Iraque lança ofensiva para retomar a cidade de Mosul do controle do Estado Islâmico

Onde o Estado Islâmico (EI) arruma seu dinheiro, de verdade? Como a "mais rica organização terrorista do mundo" se financia? Artigos de jornais e declarações de políticos publicados nos últimos anos nos forneceram alguma ideia, mas a imagem resultante só refletia parcialmente a realidade. Sequestros e contrabando de antiguidades foram continuamente mencionados como importantes fontes de renda, apesar de faltarem provas para qualquer uma das teorias. Políticos também exigiram que o dinheiro vindo de fontes estrangeiras fosse bloqueado, um pedido que parece vir de presunções baseadas no fato de que a Al-Qaeda recebeu dinheiro de Estados do Golfo Pérsico no passado. Mas tampouco existem provas de que o Estado Islâmico está usando esse modelo.

Pesquisadores da King's College de Londres, juntamente com a firma de auditoria Ernst&Young, desta vez procuraram analisar de forma sistemática as finanças do EI. Em um relatório intitulado "Califado em Declínio", eles usaram relatos da mídia, documentos do EI, documentos governamentais de acesso público e suas próprias pesquisas para examinar como o EI se financia e quão sadias estão suas finanças atualmente. O estudo foi noticiado pelo "Spiegel" e pelo "Washington Post" antes de ser apresentado no sábado ao Conselho de Segurança de Munique. Ele descarta o clichê que sustenta que patrocinadores clandestinos estão por trás do grupo extremista islâmico, e seus autores observam que não há provas de que existam tais doadores. O relatório também alega que os sequestros em troca de resgates e o contrabando de antiguidades também não são fontes significativas de renda. Na verdade, a maior parte do dinheiro do grupo viria de "taxas e impostos" cobrados nessas regiões que estão sob controle do grupo. As receitas oriundas do petróleo vêm em segundo lugar, seguidas por "saques, confiscos e multas".

Em 2014, o EI recebeu uma quantia estimada entre US$ 300 e US $400 milhões (R$ 930 milhões e R$1,24 bilhão) em taxas e impostos. De acordo com o estudo, o total havia subido até US$ 800 milhões (R$ 2,48 bilhões) em 2015. O relatório alerta contra o uso de abordagens tradicionais para analisar as finanças do EI, advertindo que essa prática poderia resultar em "graves falácias" porque o grupo é "fundamentalmente diferente" de organizações terroristas anteriores. Ele também observa que, como o grupo terrorista depende menos de doadores estrangeiros e de fontes clássicas de renda, os esforços tradicionais voltados para conter o financiamento do terrorismo não vão funcionar.

Um modelo de negócios em declínio

O modelo de negócios do EI pode ser descrito essencialmente da seguinte maneira: o grupo enviaria um grupo de reconhecimento para as áreas que ele pretende conquistar depois, para se infiltrar e construir estruturas de inteligência. Essas estruturas eram importantes por razões militares, mas elas também permitiam a extorsão criativa e impiedosa da população. Um conhecimento preciso das estruturas de poder e de finanças eram extremamente úteis nesse esforço. Uma constante entrada de novas taxas, impostos e multas cobrados dos 8 milhões de súditos que o EI tinha sob seu controle resultou em centenas de milhões de euros em receitas.

"Outra importante fonte de renda do EI que ficou extremamente clara a partir dos documentos", diz o especialista em terrorismo Peter Neumann, um dos quatro autores do estudo, "foi o confisco de propriedades e revenda de terras, casas e carros, mas também de joias".

Contudo, esse é um modelo de negócio que quebra quando o EI deixa de se expandir e sua estratégia de aumentar o território sob seu controle para de funcionar, o que é o caso atualmente. O grupo terrorista vem perdendo território, pessoas e poços de petróleo há meses. Entre o verão de 2014 e novembro de 2016, de acordo com o estudo, o total de territórios controlados pelo EI no Iraque encolheu 62%, enquanto na Síria caiu 30%.

Quando o califado encolhe, as receitas encolhem junto; a predatória economia da exploração não funciona mais. O orçamento total do grupo caiu mais ou menos pela metade em dois anos, partindo de uma quantia que o estudo estima entre US$ 970 milhões a US$ 1,89 bilhão (R$ 3 bilhões a R$ 5,8 bilhões) em 2014, para entre US$ 520 milhões e US$ 870 milhões (R$ 1,6 bilhão a R$ 2,7 bilhões) no ano passado.

Parece provável que as receitas vão continuar caindo, já que em breve o EI perderá o controle sobre Mossul, no norte do Iraque, a maior cidade que o grupo já conquistou. O relatório também lista três outras razões para a queda de renda do Estado Islâmico: a decisão tomada pelo governo central do Iraque em Bagdá de interromper o pagamento de salários a servidores públicos em Mossul e outras áreas ocupadas, porque o dinheiro beneficiava diretamente o EI; o fato de que desde 2015 a Força Aérea dos EUA vinha bombardeando refinarias improvisadas e navios petroleiros que pertenciam ao EI; e esforços para eliminar o contrabando através da fronteira com a Turquia.

Mas no que diz respeito à ameaça que o terrorismo do EI representa aos europeus, as problemáticas finanças do grupo provavelmente não terão muita influência. Os custos desses ataques são simplesmente baixos demais. "De acordo com uma estimativa produzida pelas autoridades francesas, não foram necessários nem 20 mil euros (cerca de R$65 mil) para os atentados de 13 de novembro em Paris", diz Peter Neumann. "E tanto os ataques de Paris quanto os de Bruxelas foram financiados a crédito".

Tradutor: UOL

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