"Não quero ouvir falar em diálogo com as Farc enquanto houver reféns", Antanas Mockus, candidato verde à presidência da Colômbia

Mayte Rico

Enviada especial a Bogotá (Colômbia)

  • 30.mai.2010 - Luis Robayo/AFP

    Antanas Mockus, o ex-prefeito de Bogotá e candidato presidencial colombiano

    Antanas Mockus, o ex-prefeito de Bogotá e candidato presidencial colombiano

Se alguma palavra define Antanas Mockus, talvez seja "inclassificável". O candidato-revelação na campanha presidencial colombiana, um matemático e filósofo filho de lituanos, se propôs a tarefa titânica de mudar o país. E mudá-lo de baixo para cima, modificando os comportamentos dos cidadãos, ensinando o respeito às leis. Esse enfoque pedagógico teve bom resultado em Bogotá, durante seus dois mandatos na prefeitura. Mas pode ser extrapolado para um país que enfrenta problemas do calibre do narcotráfico ou da guerrilha? Mockus, 58 anos, acredita que sim.

O candidato do Partido Verde recebe "El País" na sede da campanha, enquanto toma uma infusão para acalmar uma tosse que começa a dominar seus pulmões. "Há quem diga que o senhor seria um ótimo presidente para a Dinamarca."

"Mentira. Na Dinamarca há um princípio moral e cultural a favor do cumprimento da lei, e lá eu só proporia temas exóticos. Nossa agenda é harmonizar lei, moral e cultura, isto é, a legalidade democrática, e isso na Dinamarca está resolvido. Na Colômbia não. A lei vai em uma direção e o costume ou a racionalidade moral, em outra direção. A Colômbia precisa de legalistas, porque o legalismo garante proteção à vida e probidade com os recursos públicos. É uma agenda minimalista."

Este homem com um aspecto simpático de pastor protestante, impregnado no racionalismo de sua educação francesa, rompeu os esquemas ideológicos. Talvez aí esteja a chave do enorme apoio popular que recebeu, que o levou ao empate com o candidato que parecia mais forte, o ex-ministro da Defesa Juan Manuel Santos. Com ele se medirá, de acordo com as pesquisas, em um segundo turno. O candidato do Partido Verde quer distância dos políticos tradicionais ("não concorro nesse campo", diz), mas se nega a adotar rótulos.

"Talvez eu seja uma ponte, talvez alguém heterodoxo, com a vocação de juntar fragmentos de uma perspectiva e de outra. Eu liquidei entidades públicas, privatizei, demiti funcionários e me chamam de neoliberal. Mas aumentei impostos como nunca faria um neoliberal e defendi o gasto público para gerar igualdade", declarou em uma entrevista coletiva muito concorrida, realizada minutos antes da entrevista. "Os rótulos esclarecem, mas podem ocultar muitas coisas. Pode parecer pretensioso, mas o novo merece um nome novo."

"Descobrir o lado bom das pessoas" e "compreender a conduta humana em sua complexidade' tem suas limitações. De fato, Mockus demonstra firmeza quando se põe na roda o tema das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o grupo armado que ensanguentou o país durante mais de 40 anos. O candidato se recusa a usar a palavra "guerrilha" para defini-lo, e o compara aos bandos terroristas dos anos 70 na Europa. "A motivação altruísta deixou de ser atenuante para se transformar em agravante, e o rebelde se tornou mais perigoso que o criminoso." "Não quero nem ouvir falar em negociação enquanto o grupo armado detiver reféns. Que se esqueçam de dizer que têm sequestrados. Já caímos na armadilha muitas vezes", adverte.

Ele diz que também não pensa em incorrer na "cultura do atalho" e "no vale-tudo", cujo exemplo extremo seriam os falsos positivos, o escândalo de execuções extrajudiciais que manchou o exército. "Estou certo de que nem o presidente Uribe nem o ex-ministro Santos ordenaram os falsos positivos, que derivam de uma diretriz anterior que estabelecia o sistema de incentivos. Não vejo uma responsabilidade penal. No máximo, política ou moral. A destituição de 27 militares foi uma resposta quando perceberam o que acontecia, ou quando perceberam que o mundo havia percebido?"

Com relação à Venezuela, defende o diálogo para restabelecer as relações com o presidente Hugo Chávez. A diplomacia, no entanto, não impediu que funcionários venezuelanos do mais alto nível prestassem apoio logístico e econômico às Farc. Por que em seu caso daria resultado? Mockus reflete por alguns instantes.

"Há um lado um pouco imprevisível meu, que eu espero que entre em consonância com o lado pouco previsível do presidente Chávez." Pedirá a ele, claro, que expulse a guerrilha de seu território. "As pessoas necessariamente não têm culpa de não perceber que o mundo está mudando. Eu tenho a intenção de compreender e de me fazer compreender. As más relações têm um castigo que se traduz em centenas de milhares de postos de trabalho. Há espaço para coisas boas e há que ser prudente."

Perguntado sobre com que líder europeu se sente mais em sintonia, Mockus responde sem duvidar por um segundo: "Angela Merkel". Por outro lado, com Nicolas Sarkozy e José Luis Rodríguez Zapatero, emprega uma suave ironia: "Não posso descrevê-lo, porque seria revelar meus preconceitos", diz sobre o primeiro-ministro espanhol. "Costumo cometer injustiças... bem, vamos esquecer isso. Tudo o que eu disser pode ser usado contra mim."

E sobre Sarkozy: "Gosto de sua desenvoltura, é um pouco como Uribe e Berlusconi. Demonstram grande liberdade diante da expressão de desprezo. Normalmente um dirigente não despreza as pessoas, ou não deixa mostrar esse desprezo. Isso pode ser tomado como demonstração de sinceridade ou como um enfraquecimento da cortesia... Por favor, tome isso pela boa interpretação", diz sorridente, para logo ficar sério: "O que eu mais temo é chegar a incorrer no desprezo ao próximo".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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