Medvedev vê na Alemanha o parceiro chave para a modernização da Rússia

Pilar Bonet

Moscou (Rússia)

  • Sergei Chirikov/EFE

    Angela Merkel encontra o primeiro-ministro russo Dmitri Medvedev na Rússia

    Angela Merkel encontra o primeiro-ministro russo Dmitri Medvedev na Rússia

A Rússia considera a Alemanha o país chave para a sua nova política externa, segundo confirmou ontem o presidente Dmitri Medvedev na presença da chanceler alemã, Angela Merkel, no final de uma cúpula bilateral na cidade de Ekaterimburgo. Na segunda-feira, diante dos embaixadores russos convocados a Moscou, o líder do Kremlin informou que as novas prioridades internacionais do Estado passam pela modernização tecnológica e a incorporação de elementos inovadores na economia, e também por uma atitude mais construtiva e aberta diante do mundo. No contexto das chamadas "alianças de modernização", a Rússia, segundo seu presidente, "quer colaborar com países como Alemanha, França, Itália, a UE em seu conjunto e os EUA". Em maio, em Rostov, a Rússia e a UE assinaram um primeiro documento conjunto para desenvolver esse novo quadro de relacionamento.

Referindo-se às "alianças de modernização", Medvedev disse ontem que a Alemanha ocupa "o número 1 na lista". "Temos magníficas relações econômicas e por isso na aliança para a modernização a Alemanha deve ocupar o lugar mais digno", afirmou em uma declaração veemente. Merkel correspondeu ao entusiasmo, afirmando que se sentia "obrigada" e esperava ser merecedora do posto que a Rússia lhe atribuiu.

Os dois líderes estavam acompanhados por um amplo séquito de políticos e empresários. Os contratos mais notáveis assinados durante a cúpula corresponderam à Siemens, que por 2,6 bilhões de euros abastecerá as ferrovias russas com 240 trens durante dez anos. A Siemens também modernizará estações ferroviárias e centros de manobras de trens mediante um contrato de 600 milhões.

Medvedev expressou sua confiança em que a Siemens participe em Skolkovo, o projeto para fundar uma cidade tecnológica dedicada à pesquisa nos arredores de Moscou. Medvedev apoiou os projetos da Siemens de construir um centro de pesquisa energética e biológica e de participar dos órgãos de direção de Skolkovo. A Siemens e duas empresas russas (Rostecnologia e Rosgidro) criaram uma empresa mista para produzir instalações de energia solar.

Além disso, a Airbus, do consórcio EADS, entregará aviões A330 à companhia russa Aeroflot no valor de mais de 2 bilhões de euros.

A Alemanha é o primeiro parceiro comercial da Rússia e nos quatro primeiros meses de 2010 o intercâmbio aumentou 50% - alcançando 15,2 bilhões de euros - e, segundo Medvedev, superou a crise e está praticamente no mesmo nível de 2008. Na Rússia operam 6 mil empresas alemãs e os investimentos acumulados são de cerca de 16 bilhões de euros. Os investimentos russos na Alemanha são inferiores, mas Medvedev disse ter "desejo e dinheiro" de investir nesse país que é "confortável", já que os russos têm bem menos dificuldades que em outros países da UE. O mandatário russo insistiu na necessidade de suprimir os vistos. Merkel, por sua vez, apoiou a simplificação de procedimentos para facilitar vistos, mas considera que a supressão é uma tarefa de prazo mais longo.

Entre os temas que Merkel e Medvedev discutiram na quarta-feira até altas horas da noite esteve a investigação do assassinato de Natalia Estemirova, a ativista de direitos humanos sequestrada e assassinada na Chechênia há exatamente um ano. Medvedev manifestou que a investigação continua "a toda marcha" e afirmou que se conhece o nome do executor do crime, contra o qual há ordem de busca e captura. Suas palavras surpreenderam os colegas de Estemirova, da organização não governamental Memorial, já que a tese oficial é que o assassino foi Aljazur Bashaev, um guerrilheiro morto em uma operação policial em novembro na Chechênia. Na Memorial consideram que o instigador do crime é o presidente checheno, Ramzan Kadirov.

Medvedev e Merkel discutiram a lei que amplia as competências do Serviço Federal de Segurança. A lei, em processo de aprovação na Duma Estatal, prevê a legalização da conversação "preventiva", uma prática soviética que dá aos serviços de segurança prerrogativas para citar um cidadão que na sua opinião poderia cometer um crime.

A relação entre Medvedev e Merkel é fluida. Ambos se tratam pela segunda pessoa e em seu jantar na quarta-feira em Ekaterimburgo falaram da Copa do Mundo de Futebol e, segundo o líder russo, comeram o irmão do polvo Paul que previu a derrota da Alemanha. Segundo Medvedev, uma parte importante da delegação russa na cúpula de Ekaterimburgo torcia para a equipe alemã.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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