Segundo Fidel, a guerra nuclear deveria começar nas quartas de final da Copa

Lluís Bassets

  • Alex Castro/EFE

    O ex-presidente cubano Fidel Castro, em sua primeira aparição pública desde que adoeceu. Fidel visitou o Centro Nacional de Investigações científicas, em Havana

    O ex-presidente cubano Fidel Castro, em sua primeira aparição pública desde que adoeceu. Fidel visitou o Centro Nacional de Investigações científicas, em Havana

O calor dos caldeirões é o que mais conforta o diabo e o faz reviver quando desmaia. Fidel Castro goza dando voltas na ideia de uma guerra nuclear. Na última segunda-feira apareceu na televisão oficial cubana - não há outra - para falar sobre o iminente conflito que começará com um ataque dos EUA e Israel contra o Irã, ao qual se seguirá uma reação antecipada da Coreia do Norte, "que não poderá não ser nuclear", segundo o octogenário ex-guerrilheiro e ditador.

Assustar crianças é uma das funções do velho Pedro Botero. Faz quase 50 anos, quando a União Soviética instalou 162 ogivas nucleares em mísseis mobilizados que apontavam de Cuba para os EUA, soube o que significava ter o futuro do planeta pendente de um fio. No final dos anos 1970, Fidel afirma que voltou a conhecer sensação idêntica quando os 60 mil jovens cubanos que mandou combater na África foram alvo de um suposto ataque do exército do regime racista sul-africano com armas nucleares fornecidas por Israel.

Ninguém vai discutir sua autoridade em termos nucleares nesta altura. Em 1962 Castro foi partidário de manter a tensão nuclear com os EUA, e teve de ser Nikita Kruschev quem decidiu retirar os mísseis depois de pactuar com Kennedy às suas costas. Segundo contou Castro em várias ocasiões, não teria duvidado em nenhum momento em apertar o botão e assim desencadear o holocausto atômico. Sabe, portanto, do que fala quando lembra seu passado entre os caldeirões nucleares. Mais discutível é sua capacidade de entendimento e análise do presente, mas em sua aparição pública se cercou de supostos especialistas, brandiu papéis e recortes e se apoiou em analistas, citações e números para sustentar seus sinistros augúrios.

Na realidade, sua intervenção televisiva serviu para desmentir, matizar e inclusive dissolver uma extraordinária gafe a que poucos prestaram atenção, que pode ter significado político e na qual se ocupou todo o mês de junho. Fidel estava convencido de que os EUA e Israel aproveitariam a Copa do Mundo de Futebol para desencadear uma guerra nuclear contra a Coreia do Norte e o Irã, e quis publicar suas advertências no jornal "Granma". Primeiro explicou, a propósito do afundamento do navio militar sul-coreano Cheonan, com a possibilidade de que a guerra começasse com um ataque americano ao regime de Pyongyang, que o Irã aproveitaria imediatamente para lançar um ataque preventivo.

Por causa das sanções do Conselho de Segurança contra o Irã, mudou a ordem de sua previsão: seria um incidente marítimo entre iranianos e americanos durante a inspeção dos navios, e na continuação a Coreia do Norte, prevendo ser atacada, se somaria ao confronto. Também deu a data: nas quartas de final da Copa do Mundo de Futebol, que o velho guerreiro seguiu inteira e com paixão de nacionalista latino-americano.

Uma das reflexões se intitulava "Como eu gostaria de estar enganado". "Aos povos pobres do mundo - afirma em outra - não nos resta alternativa senão enfrentar as consequências da catastrófica guerra nuclear que em brevíssimo tempo explodirá." Alguém deve tê-lo repreendido por sua precisão truculenta, mas sem resultado: "Infelizmente não tenho nada que retificar e me responsabilizo plenamente pelo que escrevi nas últimas reflexões". Por isso insiste na seguinte: "É tão evidente o que vai acontecer que se pode prever de forma quase exata".

E diante do fracasso previsível o velho Satanás decide fazer autocrítica, como só sabem fazer os bons chefes de manual marxista-leninista: não era o sábado 3 de julho que no máximo começaria a guerra, mas o 8 de agosto, quando se completa o prazo de 60 dias que o Conselho de Segurança deu para que se comprove que as sanções contra o Irã estão funcionando. O culpado e o objeto final da autocrítica? Um funcionário do Ministério do Exterior cubano, que dormiu esgotado pelo trabalho e omitiu alguns parágrafos decisivos para a compreensão da resolução da ONU.

A gravação televisiva é do domingo 11 de julho, poucas horas antes que começassem as libertações e expulsões de presos, uma operação realizada clandestinamente pelo regime, sem que os cubanos da ilha pudessem ter qualquer informação. Enquanto ocorria essa operação, que alguns apresentam como um momento transcendental para a mudança, o regime entretinha os cubanos com um tenebroso programa dedicado a Fidel, rodeado e reverenciado por um jornalista obsequioso e alguns silenciosos especialistas na matéria, algo assim como o bombeiro-toureiro e a banda de circo da análise política internacional.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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