Israel teme novos confrontos na fronteira com o Líbano

Enric González
Em Misgav Am (Israel)

  • Ariel Schalit/AP

    Soldados israelenses patrulham local do confronto entre tropas de Israel e do Líbano

    Soldados israelenses patrulham local do confronto entre tropas de Israel e do Líbano

A imagem poderia ter sido composta por um propagandista israelense, mas está do outro lado da fronteira, em território libanês: junto de um veículo blindado da ONU, erguem-se três bandeiras, a do Hezbollah, a da Síria e a do Líbano. Neste ponto, próximo ao kibutz de Misgav Am, ocorreu no último dia 3 o incidente de fronteira mais grave entre o Líbano e Israel desde a guerra de 2006. Um tenente-coronel israelense, três soldados libaneses e um jornalista libanês foram mortos. Por um momento temeu-se a guerra.

Diante de Israel, o Hezbollah mostra sua determinação com prudência no Líbano

Após o incidente que provocou quatro mortes na fronteira entre Israel e o Líbano, o chefe da milícia xiita, Hassan Nasrallah, quer evitar entrar na escalada que levou à guerra em 2006.

Um ar de união sagrada pairava nas manchetes da imprensa libanesa. Dos pró-Hezbollah do Al-Akhbar até os nacionalistas árabes do As-Safir, passando pelo An-Nahar – próximo ao atual primeiro-ministro Saad Hariri - , quase todos os jornais celebravam a valentia dos soldados.

A tensão na área aumentou. "As negociações de paz com os palestinos vão gerar novos confrontos nesta fronteira e em Gaza, porque tanto o Hezbollah como o Hamas tentarão desencaminhar o processo com atos de violência", afirma o analista militar israelense Kobi Marom, que combateu na guerra de 2006.

O comandante das forças da ONU no sul do Líbano (Unifil), o general espanhol Alberto Asarta, emitiu na última quarta-feira um comunicado em que confirmava que os israelenses não tinham cruzado a Linha Azul, que marca a fronteira, e atribuía de forma implícita a responsabilidade pelo tiroteio do dia 3 às tropas libanesas.

"Nosso objetivo consistia em podar algumas árvores próximas à cerca da fronteira, porque os galhos roçavam os sensores e causavam falsos alarmes", explica uma porta-voz do exército de Israel. "Avisamos as tropas da ONU, confirmaram que podíamos nos aproximar e quando movimentamos um guindaste até as árvores, às 11 da manhã, um ou vários franco-atiradores postados em um edifício de Aadaisse [povoado libanês contíguo à Linha Azul] dispararam contra um tenente-coronel e um comandante que se encontravam mais atrás, a cerca de 100 metros da cerca". Segundo a porta-voz, "foi uma emboscada organizada pelo chefe da base militar libanesa, que se preocupou inclusive em chamar jornalistas porque teve tempo desde a véspera, quando anunciamos nosso propósito".

A represália israelense foi imediata, com fogo de helicópteros e tanques. Uma resposta "eficaz e controlada", nas palavras da porta-voz, que vai ao encontro com a imprensa junto com seu filho pequeno. Três soldados e um civil, um dos jornalistas libaneses, foram mortos. Durante algumas horas temeu-se o início de uma nova guerra. Às 14hs, o presidente libanês, Michel Suleiman, fez um apelo ao país e pediu aos cidadãos que oferecessem suas vidas para salvar a pátria. Mas as tropas israelenses pararam de disparar. "Os soldados que nos haviam atacado se misturaram com civis e com tropas da ONU, e preferimos que o incidente não se agravasse", diz a porta-voz.

O comandante Margalit, chefe da base israelense mais próxima, considera que o exército regular libanês mantém uma cumplicidade cada vez maior com o Hezbollah. "O exército tem cinco brigadas nessa zona, não pode se eximir da responsabilidade pelo que aconteceu", diz. Na realidade, o exército libanês confirmou no dia seguinte que os soldados não agiram por conta própria, mas cumprindo ordens. "O chefe das tropas libanesas na região é xiita e claramente favorável à milícia xiita do Hezbollah", afirma o assessor Marom. "No Hezbollah, sabem que qualquer agressão de sua parte implicaria uma resposta devastadora nossa, e preferem utilizar o exército para essas provocações. Com o exército regular optamos por ser comedidos, porque qualquer incidente pode desembocar em guerra", acrescenta Marom.

Ninguém duvida de que a guerra eclodirá. "É apenas questão de tempo", indica o comandante Margalit. "O Hezbollah acumula armas junto da fronteira e, como em 2006, se entrincheira em zonas povoadas. O risco é alto", afirma Marom, "porque a reabertura do processo de negociação com a Autoridade Palestina vai inflamar aqueles que, como o Hamas e o Hezbollah, não querem um acordo de paz. Haverá ataques de Gaza com toda certeza, e muito possivelmente do Líbano."

Tanto Israel como o Líbano estão preparados para combater. Em 2006, a região sul do Líbano estava tomada pelas milícias do Hezbollah. Agora as milícias convivem com cinco brigadas do exército. Em 2006 as bases israelenses junto à fronteira eram compostas fundamentalmente por reservistas. Hoje todos são soldados da ativa. "A estabilidade na Cisjordânia e o bloqueio em Gaza nos permitiram deslocar para cá mais unidades e melhores", indica o comandante da base. "Mas esses quatro anos de tranquilidade também permitiram que o Irã e a Síria dotassem o Hezbollah de um armamento muito superior ao de 2006", acrescenta.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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