Paramilitarismo ressurge na Colômbia enquanto novo acordo de paz é negociado com as Farc

Javier Lafuente

  • Leonardo Muñoz/Efe

    Farc e governo colombiano chegam a novo acordo de paz

    Farc e governo colombiano chegam a novo acordo de paz

Erley Monroy foi encontrado ferido na última sexta-feira (18) em um caminho em San Vicente del Caguán. Os ferimentos eram tão graves que poucas horas depois ele morreu no hospital. Um dia depois, Hugo Cuéllar foi atacado ao sair do enterro de Monroy. O atentado não o matou, mas ele continua em estado crítico. Cuéllar e Monroy têm algo em comum: ambos são líderes sociais ligados à esquerda. E não foram as únicas vítimas das últimas horas.

O terrível fantasma do paramilitarismo ressurgiu neste fim de semana na Colômbia, com o assassinato de três pessoas e a tentativa de matar mais duas.

Os ataques semearam o pânico às vésperas do ato em que o presidente Juan Manuel Santos e o líder das Farc, conhecido como Timochenko, assinarão o novo acordo de paz. A cerimônia, cujo lugar e data ainda não foram definidos, se realizará nesta semana, segundo fontes inteiradas das negociações. A cúpula das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) chegou nesta segunda-feira (21) à tarde a Bogotá.

Um panfleto mal escrito, com o selo das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) e um rifle, distribuído por alguns municípios mais atingidos pelos mais de 50 anos de conflito, reivindicava a autoria dos crimes do fim de semana: "Somos as autodefesas da Colômbia, chegamos ao Caquetá e desta vez para ficar. Milicianos e testas-de-ferro das Farc, viemos fazer a limpeza".

Uma reportagem publicada pelo jornal "El Espectador" afirmava que neste ano 70 líderes sociais foram assassinados, 28 foram vítimas de atentados e 279 receberam ameaças.

A sombra do genocídio no final dos anos 1980 e início dos 1990 de mais de 4.000 membros da União Patriótica, a formação da esquerda surgida no país devido aos diálogos de paz com o ex-presidente Belisario Betancur, e da qual faziam parte integrantes das Farc, ressurgiu.

A guerrilha exigiu que o presidente Santos atue com firmeza diante dos novos ataques: "É muito dramática e preocupante a situação. Um novo genocídio está em curso contra líderes sociais e camponeses", afirma um texto assinado pelo secretariado da guerrilha, a direção das Farc.

Os assassinatos de líderes sociais, assim como a morte de dois membros da guerrilha na semana passada em um ataque com o Exército, evidenciaram a necessidade de que o novo acordo de paz, anunciado no último dia 13, seja implementado o mais rápido possível. Não só as Farc pedem a consolidação do mesmo. O chefe negociador do governo, Humberto de la Calle, e o alto comissário para a paz, Sergio Jaramillo, ressaltaram durante o fim de semana a importância de não se demorar mais com esse processo.

"Mais três mortos e o processo poderá cair por terra", afirmou Jaramillo em entrevista a "El Espectador". "Esquecemos que há um grupo de 7.000 homens ou mais em vias de deixar as armas. Uma guerrilha não pode ficar quieta", advertiu por sua vez De la Calle no jornal "El Tiempo".

As Farc e o governo terminam os mecanismos de referendo do novo acordo, depois da rejeição dos colombianos ao antigo texto no plebiscito de 2 de outubro passado. Santos deixou claro que não se realizará uma nova consulta e que o pacto será tramitado no Congresso. A partir de então, começará o processo de desmobilização da guerrilha e a entrega das armas, que deverá terminar em no máximo 180 dias.

Farc e governo colombiano chegam a novo acordo de paz

O Executivo e a guerrilha querem garantir que o novo acordo seja implementado mediante o mecanismo de "fast track", um trâmite no Congresso com menos debates dos que normalmente são necessários para conseguir aprovar uma lei. Do contrário, tudo o que está incluído no texto, especialmente a implementação da Jurisdição Especial para a Paz (JEP), poderia demorar até o fim do próximo ano e dificultar sua implementação, mais um limbo que conta com a rejeição frontal da guerrilha.

Além de fechar esses detalhes, e à espera de que sejam anunciados a data e o lugar em que Santos e Timochenko voltarão a se cumprimentar, resta ver também qual será a posição oficial sobre o novo acordo do ex-presidente Álvaro Uribe, que defendeu o "não" no plebiscito. O hoje senador insinuou que as modificações realizadas foram mínimas e que as reivindicações dos partidários do não permanecem no texto.

Outro ex-mandatário partidário que recusa o acordo, Andrés Pastrana, criticou o novo pacto e pediu que Santos o referende mediante mais uma consulta popular, e não por meio do Congresso. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos