Freakonomics.com: casa da dor, imóveis e circuncisão

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Perdidos: US$ 720 bilhões. Quem encontrar, por favor devolva ao dono, preferivelmente em dinheiro

Os preços das casas nos Estados Unidos caíram em média cerca de 6% no último ano, segundo o índice de preços de imóveis residenciais Standard & Poors/Case-Shiller, que mede o valor desses imóveis em 20 cidades americanas.

Segundo meus cálculos, isto significa que os proprietários de imóveis residenciais perderam cerca de US$ 720 bilhões em conseqüência. Isto representa cerca de US$ 2.400 por pessoa nos Estados Unidos, e US$ 18 mil para o proprietário médio de imóvel residencial. Este declínio tinha que ter um impacto negativo na economia mundial.

Mas em comparação a quedas nos mercados de ações, tal perda de US$ 720 bilhões ao longo de um ano não parece tão grande.

A capitalização total dos mercados de ações americanos é da mesma ordem de magnitude que o valor total do mercado de imóveis residenciais (entre US$ 10 trilhões e US$ 20 trilhões). Em uma semana durante outubro de 1987, o mercado de ações americano perdeu mais de 30% de seu valor.

O número de US$ 720 bilhões também é da mesma magnitude que a quantidade de dinheiro que o governo americano teria gasto na guerra no Iraque.

Se você é um proprietário de imóvel americano, quão mal você se sente a respeito?

Você deveria se sentir muito mal.

Mas imagino que você se sentiria muito pior no cenário a seguir. Suponha que os preços dos imóveis não tivessem caído no ano passado, mas um dia você sacasse US$ 18 mil do banco para pagar em dinheiro por um carro novo. No caminho, alguém roubasse sua carteira com os US$ 18 mil. No final do dia, sua riqueza seria a mesma. Você teria perdido US$ 18 mil, seja pela desvalorização de sua casa ou porque o dinheiro foi roubado. Mas uma perda é psicologicamente bem pior que a outra.

Há muitas razões possíveis para não doer tanto perder dinheiro em um ativo como uma casa:

-Não é muito tangível, já que ninguém realmente sabe quanto sua casa vale.

-Dói menos já que as demais pessoas também estão perdendo em seus imóveis. Certa vez eu ouvi uma pessoa muito rica dizer que ela não se importava com sua riqueza absoluta, apenas em qual era sua posição no ranking das pessoas mais ricas da revista "Forbes".

-Você realmente não pode se culpar pela queda no preço dos imóveis, mas você poderia criticar sua decisão de andar por aí com US$ 18 mil em dinheiro no bolso.

-O fato de um ladrão estar com seu dinheiro poderia ser pior do que o dinheiro simplesmente evaporar, como acontece quando o preço dos imóveis cai.

O que me traz ao conceito de "contabilidade mental".

A contabilidade mental é uma frase cunhada por Richard Thaler, um economista da Universidade de Chicago, para descrever a forma como as pessoas parecem tratar ativos diferentes como sendo não fungíveis, apesar de em princípio devessem ser.

Apesar dos meus amigos economistas zombarem de mim por isto, eu definitivamente faço uso de contabilidade mental. Para mim, um dólar ganho no pôquer significa muito mais do que um dólar ganho na alta do mercado de ações. (E um dólar perdido no pôquer é igualmente mais doloroso.)

O que tudo isto significa para os preços dos imóveis residenciais?

Bem, se os preços começarem a subir, seria mais divertido se os aumentos de preços viessem na forma de pequenos pacotes de dinheiro deixados à sua porta juntamente com o jornal matinal, em vez de uma valorização do imóvel -algo, eu suponho, que todas aquelas pessoas que fizeram uso de home equity (financiamento com alienação fiduciária, com o imóvel pertencendo ao credor até que a dívida seja quitada) perceberam há muito tempo.

Steven D. Levitt

Primeiro o bagel, agora o mohel

Mais e mais gentis estão chamando o mohel, aquele que realiza o ritual de circuncisão, para que esta seja realizada em seus filhos, segundo o "Jewish Daily Forward", o principal jornal de assuntos judaicos dos Estados Unidos.

Os motivos para estas novas circuncisões não-judaicas incluem um desejo por limpeza (o mohel opera fora do hospital) e a adição de um toque espiritual, mesmo se tal toque vier de fora da tradição religiosa da família.

"Há quase dois anos, Jeannie Noth Gaffigan e Jim Gaffigan deram à luz ao seu primeiro filho em casa, com a assistência de uma enfermeira-parteira", escreveu John MacDonald, repórter do "Forward". "Apesar da decisão da circuncisão não ter sido religiosa, como católicos os Gaffigans queriam mais do que um simples procedimento médico. 'Nós sentimos que o mohel daria uma maior dignidade e relevância a este momento muito importante de nossas vidas', disse Noth Gaffigan em um e-mail ao 'Forward'."

"Blake, o mohel de 52 anos, chegou em um casa repleta de comida, bebida e família -um encontro que, se não fosse pelo padre em um canto, pareceria idêntico a um bris judaico." (Bris é a cerimônia de circuncisão.)

Eu acredito que os Estados Unidos são o único país no mundo onde a maioria dos meninos é circuncidada apesar dos pais não terem motivos religiosos para fazê-lo. Isto há muito é uma questão enigmática e também contenciosa.

Eu tenho duas perguntas sobre este fenômeno:

-Por que, em um país com uma população relativamente pequena de pais cuja religião exige que seus filhos sejam circuncidados, tantos meninos historicamente foram circuncidados?

-Segundo estatísticas de circuncisão das Páginas de Informação e Recursos de Circuncisão (cirp.org), os índices de circuncisão variam enormemente de região para região nos Estados Unidos. Aqui estão as taxas aproximadas de 2004 para as quatro regiões a seguir:

-Meio-Oeste: 80%

-Nordeste: 68%

-Sul: 59%

-Oeste: 32%

O que significa um índice tão alto no Meio-Oeste e um tão baixo no Oeste?

Eu imagino que seja uma combinação de preferências culturais (influenciadas talvez pela imigração) e algum grau de prescrição religiosa, é claro, mas também uma apólice de seguro e uma cultura hospitalar. Mas ainda assim fico surpreso com esta vasta diversidade nas estatísticas de circuncisão.

Stephen J. Dubner George El Khouri Andolfato

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de 'Freakonomics' e 'Superfreakonomics'. O livro mais recente deles é 'When to Rob a Bank... and 131 More Warped Suggestions and Well-Intended Rants'.

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