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Freakonomics: viagem não tão gratuita

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Os americanos dirigem demais. Este não é um argumento político ou moral; é econômico. Como? Por haver todo tipo de custo associado ao dirigir que o motorista de fato não paga. Essa condição é conhecida pelos economistas como externalidade negativa: O comportamento da Pessoa A (vamos chamá-la de Arthur) prejudica o bem-estar da Pessoa Z (Zelda), mas Zelda não tem controle sobre as ações de Arthur. Se Arthur sentir vontade de dirigir 50 milhas (80 km) a mais hoje, ele não precisa pedir a Zelda; ele apenas entra no carro e parte. E como Arthur não paga os verdadeiros custos de sua direção, ele dirige demais. Quais são as externalidades negativas de dirigir? Para citar apenas três: congestionamento, emissões de carbono e acidentes de trânsito. Toda vez que Arthur sai com seu carro, cresce a probabilidade de que Zelda -e milhões de outros- sofrerá em cada uma dessas áreas. Qual dessas externalidades é mais onerosa para a sociedade americana? Segundo estimativas atuais, as emissões de carbono provocadas pelos veículos impõem à sociedade o custo de cerca de US$ 20 bilhões por ano. Isto soa muito até você considerar o congestionamento: um estudo do Instituto dos Transportes do Texas revelou que o combustível desperdiçado e a perda de produtividade causada pelos congestionamentos nos custa US$ 78 bilhões por ano. O dano a pessoas e propriedades causado por acidentes de trânsito, por sua vez, é de longe o pior. Em um estudo de 2006, os economistas Aaron Edlin e Pinar Karaca-Mandic argumentaram que os acidentes impõem um verdadeiro custo não pago de cerca de US$ 220 bilhões por ano. (E isso apesar do índice de acidentes ter caído significativamente ao longo dos últimos 10 anos, de 2,72 acidentes por milhão de milhas dirigidas para 1,98 por milhão; mas as milhas dirigidas em geral continuam aumentando.) Assim, com aproximadamente três trilhões de milhas (uma milha equivale a aproximadamente 1,60 quilômetro) dirigidas a cada ano produzindo mais de US$ 300 bilhões em custos de externalidade, os motoristas provavelmente deveriam ser taxados pelo menos em 10 centavos adicionais por milha se quiséssemos que pagassem o custo social pleno de sua condução do veículo. Como isto pode ser conseguido? Pedágios mais caros, especialmente pedágios variáveis com preço por congestionamento, são uma opção. Isto parece ter funcionado bem em Londres, mas foi recentemente abortado em Nova York, onde os obstáculos políticos provaram ser altos demais. Um imposto mais alto sobre o combustível também funcionaria. Se um carro típico roda 20 milhas por galão (3,785 litros), então o imposto apropriado seria de cerca de US$ 2 por galão. Mas com o atual alto preço de mercado da gasolina e com a histeria política associada -bem, boa sorte quem quiser tentar. Isto nos traz ao seguro do automóvel. Apesar dos economistas poderem argumentar que o preço da gasolina está defasado, este desequilíbrio não chega nem perto do preço do seguro. Imagine que Arthur e Zelda morem na mesma cidade e ocupem o mesmo grupo de risco de seguro, mas que Arthur dirija 30 mil milhas por ano enquanto Zelda dirija menos de 3 mil. Segundo o atual sistema, Zelda provavelmente paga o mesmo valor pelo seguro que Arthur. Apesar de algumas seguradoras oferecerem um pequeno desconto para quem dirige menos -geralmente baseado em informações fornecidas pela própria pessoa, o que apresenta uma falha óbvia- o seguro de veículos americano é geralmente um caso de "tudo que você puder comer". Isto significa que as 27 mil milhas a mais que Arthur dirige do que Zelda não lhe custam um centavo a mais, apesar de cada milha produzir externalidades para todos. Isso também significa que motoristas com baixa milhagem como Zelda subsidiam motoristas com alta milhagem como Arthur. Aaron Edlin primeiro notou este desequilíbrio há mais de 15 anos. "Eu era um estudante de pós-graduação em Stanford", ele disse, "e eu dirigia cerca de 2 mil milhas por ano. Mas eu pagava aproximadamente os mesmos US$ 1 mil como se dirigisse 10 vezes mais, o que tinha um grande impacto no meu orçamento". Poucos anos depois, Edlin estava servindo no Conselho de Assessoria Econômica do Presidente quando apresentou uma idéia que há muito era atraente para os economistas: seguro "pay-as-you-drive" (Payd, pague pelo que dirige). Parecia uma solução óbvia. Assim como ninguém espera pagar o mesmo preço, digamos, por 60 minutos de massagem do que por 15 minutos de massagem, por que as pessoas deveriam pagar o mesmo seguro independente de quantas milhas dirigem? "A objeção dentro da Casa Branca", lembrou Edlin, "era de que não havia boa pesquisa acadêmica sobre o assunto". Edlin e alguns outros, incluindo Jason Bordoff e Pascal Noel da Instituição Brookings, realizaram essa pesquisa de lá para cá. Ela apresenta um argumento convincente de que o seguro Payd funcionaria bem, reduzindo as emissões de carbono, congestionamento e risco de acidente criados pelo excesso de milhas rodadas ao levar os motoristas a pagarem o verdadeiro custo de quanto rodam. Bordoff e Noel calcularam o benefício social total em US$ 52 bilhões por ano. A melhor notícia é que o seguro Payd não é mais apenas um exercício acadêmico. O Banco GMAC começou a usar tecnologia OnStar para oferecer descontos por milhagem, e no próximo mês a Progressive apresentará um plano abrangente de Payd chamado MyRate. A Progressive, a enorme seguradora com sede em Ohio que há muito se orgulha de ser inovadora, inicialmente oferecerá o plano em seis Estados, após ter realizado um plano piloto semelhante em três outros Estados. Os motoristas que se inscreverem no MyRate instalarão um pequeno dispositivo sem fio em seus carros que transmitirá para a Progressive não apenas quantas milhas eles rodam, mas também quando estas milhas são percorridas e, até certo ponto, como é a condução do motorista: o dispositivo mede a velocidade do carro a cada segundo, a partir da qual a Progressive pode determinar a aceleração e o comportamento de frenagem. O que significa que a Progressive não apenas poderá cobrar os motoristas pela milhagem de fato que rodam, mas também avaliar melhor o verdadeiro risco de cada motorista. Se o Payd é uma ótima idéia, por que demorou tanto? Há pelo menos três motivos: a tecnologia de rastreamento apenas recentemente se tornou economicamente acessível; as seguradoras estavam preocupadas com questões de privacidade dos motoristas; e havia um risco substancial para a empresa que oferecesse primeiro o Payd em grande escala. A participação no programa MyRate é voluntária e é neste ponto que os aspectos econômicos se tornam interessantes. Assim como na maioria das mudanças de incentivos, haverá vencedores e perdedores. Os vencedores mais claros são pessoas como Zelda, que podem dirigir a mesma distância que costumam dirigir e pagar menos. O que é menos óbvio é se a Progressive será uma vencedora; há, de fato, algumas situações nas quais a Progressive poderia sair perdendo. Se tudo o que o MyRate conseguir for dar aos clientes de menor milhagem rodada o desconto que merecem, então a Progressive fará pouco mais do que reduzir sua própria receita. Ela poderia, é claro, tentar compensar aumentando os valores cobrados dos Arthurs que rodam bastante, mas então nada impediria Arthur de comprar seguro de outra empresa. (é claro, perder seus clientes de maior risco para outras empresas também poderia ser lucrativo para a Progressive.) Mas se a Progressive puder cercar o mercado Zelda ao tomar milhões de Zeldas de outras seguradoras, então poderia se dar muito bem ao ser a primeira seguradora a vender seguro com preço bem estabelecido para motoristas que rodam pouco. A meta maior para a sociedade -e o curinga nesta ou em qualquer mudança de incentivo- é promover uma verdadeira mudança de comportamento. E isto é sempre mais fácil de dizer do que fazer. Mas se o seguro Payd da Progressive puder induzir alguns de seus clientes de maior distância rodada a dirigirem menos e especialmente dirigirem de forma mais segura, resultando em menos prêmios pagos pela Progressive e menos externalidades negativas para todos, então poderia realmente se transformar em uma situação vencedora para todos. Exceto, talvez, para os concorrentes da Progressive. George El Khouri Andolfato

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