Freakonomics.com: economistas falam sobre o novo conceito da "economia da identidade"

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Recentemente nós temos solicitado no Freakonomics.com perguntas para George A. Akerlof e Rachel E. Kranton, autores do novo livro “Identity Economics: How Our Identities Shape Our Work, Wages, and Well-Being” (“A Economia da Identidade: Como as Nossas Identidades Modelam o Nosso Trabalho, Salários e Bem Estar”), que argumenta que as escolhas econômicas das pessoas baseiam-se em algo mais do que o gosto pessoal – elas baseiam-se também naquilo que é considerado um comportamento apropriado ou inapropriado.

Laureado em 2001 com o Prêmio Nobel de Economia, Akerlof é professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e atuou por um curto período como economista do Conselho de Assessoria Econômica do presidente Richard Nixon. Kranton, que é professora da Universidade Duke, estuda a influência de redes sociais, estruturas sociais e instituições nos fenômenos econômicos.

Muito obrigado a todos os envolvidos. As perguntas e respostas foram editadas e condensadas.

Pergunta: O contato com as ideias contidas no seu livro pode conduzir àquele tipo de “educação para autoestima” com a qual muita gente da minha geração foi criada na década de oitenta. De certa forma, eu não acredito que tal cultura seja totalmente equivocada: se você cria o seu filho para que ele acredite ser inteligente e capaz, isso se torna parte da identidade dele e cria uma atração magnética em torno das influências na sua vida. Obviamente, a cultura da autoestima poderia também estimular um medo do fracasso e uma sensação de direito adquirido. Como você aplicaria as ideias contidas no livro “Identity Economics” à criação dos nossos filhos?

Resposta: A autoestima baseia-se em noções sociais de comportamento apropriado. Aqui o aspecto social é crítico. Comportamento apropriado ou inapropriado consiste apenas em um conceito geral, mas ele se aplica às crianças como integrantes de grupos sociais. Assim, por exemplo, uma criança que internaliza a norma de que pessoas “como ela” têm um ótimo desempenho escolar sentir-se-á bem consigo própria quando tiver um bom desempenho na sala de aula.

P: Como é que a capacidade das instituições de modelar identidades afeta as responsabilidades de uma corporação para com os seus funcionários? E o seu trabalho abala a teoria econômica da política? Será que ele sugere que os valores precisam se tornar uma parte mais central do discurso público?

R: Excelente pergunta a respeito da responsabilidade de uma firma para com os seus trabalhadores. As forças armadas são o nosso principal exemplo de uma firma que modela as identidades dos seus funcionários. Os recrutas e os seus líderes mostram-se dispostos a adotar essa identidade, já que constatam que a firma realmente honra os seus valores, e a liderança faz tipos similares de sacrifícios.

Quanto à sua segunda pergunta, o livro “Identity Economics” corrigiria a teoria econômica da política. Em vez de votarem segundo os seus interesses econômicos próprios, os cidadãos votam frequentemente naquelas políticas que eles consideram apropriadas para a nação. Por exemplo, as pessoas frequentemente votam contra os seus próprios interesses e apoiam candidatos que apelam mais para o seu senso de responsabilidade social.

P: Como é que a sua proposição de que a identidade pode ser o fator mais importante a afetar as decisões econômicas se aplica a culturas não ocidentais, nas quais a identidade é definida coletivamente, e não individualmente?

R: O livro “Identity Economics” aplicar-se-ia ainda mais fortemente às sociedades nas quais os indivíduos possuem vínculos fortes com a identidade coletiva, como a família, a tribo e a etnia. O argumento básico é de que as decisões econômicas das pessoas baseiam-se em normas sociais de comportamento apropriado. Quanto mais as pessoas aderem a essas normas, mais poderosas serão as consequências econômicas disso.

P: A identidade econômica é algo de inerente à própria essência do indivíduo? Ou seria ela uma construção social criada por meio da experiência, do aprendizado e da interação com outros?

R: A identidade, designada ou criada por meio da experiência se constitui em um enorme tópico no estudo da identidade social. O livro “Identity Economics” adota como ponto de partida a ideia de que as pessoas possuem uma identidade particular, ou que podem possivelmente escolher entre várias identidades, e a seguir fazem escolhas de acordo com tal identidade. Os economistas Roland Benabou e Jean Tirole apresentaram uma teoria da identidade segundo a qual as ações de uma pessoa hoje proporcionam informações que a ajudam a investir na sua futura identidade.

P: Como estudante de medicina, eu queria saber se vocês já examinaram como as pessoas administram a própria saúde. Como estou aprendendo como as pessoas adoecem, eu fico impressionado em constatar como a doença poderia ser facilmente prevenida com uma modificação da nossa identidade cultural. Não é coincidência o fato de que um país que recentemente implodiu após um comportamento financeiro irresponsável é também um país no qual as crianças estão desenvolvendo hipertensão arterial e diabetes do tipo dois antes mesmo de aprenderem álgebra.

R: Estudar profundamente as consequências para a saúde e a identidade é uma sugestão excelente. A estrutura delineada no livro “Identity Ecomomics” apoiaria tais observações. Normas culturais influenciam todos os tipos de decisões que envolvem o contraste entre o curto e o longo prazo. Nós devemos procurar diferenças entre grupos, já que alguns grupos identificáveis poupam mais e apresentam melhores resultados de longo prazo no que se refere à saúde, apesar de terem origens e perfis econômicos similares.

Tradutor: UOL

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de 'Freakonomics' e 'Superfreakonomics'. O livro mais recente deles é 'When to Rob a Bank... and 131 More Warped Suggestions and Well-Intended Rants'.

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