O futuro (provavelmente) não é tão assustador quanto você pensa

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    Inteligência artificial

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Quando você imagina o futuro, o que você vê? Você vê um quadro desolador, com um mundo onde humanos se tornaram marginalizados, onde as tecnologias criadas para nos ajudar passaram a nos controlar?

Kevin Kelly não vê esse mundo. Como pioneiro da cultura da internet e editor fundador da revista "Wired" nos anos 1990, Kelly sofre há muito tempo do que ele chama de "um caso grave de otimismo" a respeito do progresso humano em geral, e em especial da tecnologia. Em seu livro mais recente, "The Inevitable" ("O inevitável"), Kelly apresenta sua visão para os próximos 30 anos, e argumenta que deveríamos abraçar tecnologias como realidade virtual e inteligência artificial (que ele acredita que um dia "se tornarão uma commodity como a eletricidade") em vez de temê-las.

Stephen Dubner conversou recentemente com Kelly para ver se ele conseguiria demovê-lo de sua otimista visão sobre nosso futuro saturado de tecnologia. Alerta de spoiler: ele não conseguiu. Os trechos a seguir foram editados e resumidos.

Stephen Dubner: Em seu novo livro, você diz que "Esta não é uma corrida contra as máquinas. Se corrermos contra elas, nós vamos perder. Esta é uma corrida com as máquinas." Como podemos passar a ver a inteligência artificial, a automação, a computadorização ou qualquer outra coisa das quais as pessoas têm medo mais como aliadas do que como uma ameaça?

Kevin Kelly: Uma das primeiras inteligências artificiais que criamos, o IBM Deep Blue, venceu o campeão mundial de xadrez da época, Garry Kasparov e este foi o primeiro grande desafio à supremacia humana, essencialmente. Quando Kasparov perdeu, várias coisas passaram pela cabeça das pessoas. Uma delas foi que esse seria o fim do xadrez, já que ninguém mais jogaria competitivamente porque os computadores iriam sempre vencer. Mas isso não aconteceu.

Então Kasparov criou uma nova liga de xadrez, como uma liga de estilo livre, como artes marciais livres, que você pode jogar como quiser. Você pode jogar como uma inteligência artificial ou você pode jogar como um humano ou você pode jogar como uma equipe de inteligência artificial e humanos. E em geral, o que aconteceu nos dois últimos anos, é que o melhor jogador de xadrez deste planeta não é uma inteligência artificial. E não é um humano. É o time que Kasparov chama de "centauros"; é o time de humanos e de inteligência artificial, porque eles são complementares.

Dubner: Prever o futuro é relativamente arriscado. Você admite em seu livro que errou bastante sobre como a internet se desenvolveu. Então por que deveríamos acreditar em qualquer coisa que você nos diga hoje sobre o futuro?

Kelly: Não estou realmente tentando fazer previsões, estou mais tentando esclarecer as tendências atuais que estão funcionando no mundo. Estou falando de processos de longo prazo, mais do que detalhes específicos. Imagine uma chuva caindo sobre um vale. O caminho de uma gota específica de chuva quando ela chega ao chão e desce o vale é inerentemente imprevisível. Mas sua direção é inevitável, que é para baixo. Estou falando desse tipo de forças de grande escala que puxam as coisas para uma certa direção. Eu diria que, de certa maneira, a chegada dos telefones era inevitável. Não importa que regime político ou sistema econômico você tivesse, teríamos telefones uma vez que houvesse eletricidade e fios. Mas ainda que os telefones fossem inevitáveis, o iPhone não era.

Dubner: No futuro que você prevê, quem serão os maiores vencedores e perdedores?

Kelly: Haverá pessoas que não vão ganhar tanto quanto muitas outras. Não quero chamá-las de perdedoras, mas essas pessoas serão, de forma geral, aquelas incapazes de se reciclar ou não estarão dispostas a isso. Acho que se reciclar ou aprender serão habilidades básicas de sobrevivência. Porque não são só os pobres que terão de se reciclar; mesmo para os profissionais, as pessoas que têm empregos, que são a classe média, isso será algo que vale para todos nós. Provavelmente vamos trocar de carreira, trocar nossos cartões de visita, trocar nossos títulos muitas vezes durante a vida.

Dubner: Assim como você não consegue prever todos os benefícios gerados pela tecnologia, você também não consegue prever as desvantagens, certo?

Kelly: Certo. Nunca inventamos uma tecnologia que não pudesse ser transformada em arma. E quanto mais poderosa é uma tecnologia, maior poder haverá em seu mau uso. E acho que a tecnologia que estamos fabricando será uma das tecnologias mais poderosas que já criamos. Portanto, seu mau uso será poderoso.

Dubner: E essa é a parte assustadora da visão de Kevin Kelly sobre o futuro.

Kelly: Isso, mas a questão é a seguinte: a maior parte dos problemas que temos em nossas vidas hoje vieram de tecnologias anteriores. E a maior parte dos problemas no futuro virão de tecnologias que estamos criando hoje. Mas acredito que a solução para os problemas que a tecnologia cria não seja menos tecnologia, e sim mais e melhor tecnologia. Algumas pessoas farão mau uso da tecnologia, e a resposta adequada para esses abusos não é ter menos dela, como proibi-la ou tentar contê-la.

É, na verdade, bolar algo ainda melhor para tentar remediá-la, sabendo que em si ela causará novos problemas, sabendo que teremos então ter de criar novas tecnologias para lidar com isso. Então o que ganhamos com essa corrida? Ganhamos cada vez mais escolhas e possibilidades.

Tradutor: UOL

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