Ansiedade de americanos por "choque comercial" da China não deve ser subestimada, diz economista

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

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Durante anos, muitos americanos suspeitaram que a globalização não era exatamente aquilo que deveria ser. Que, apesar das declarações otimistas de economistas, especialistas e políticos, a China estava destruindo a industrialização dos Estados Unidos. Donald Trump se aproveitou dessa ansiedade e dessa frustração para conseguir alavancar sua vitória em novembro, escolhendo a ameaça da China à economia durante toda sua campanha populista.

David Autor, um economista especialista em mercado de trabalho do Massachusetts Institute of Technology, passou os últimos anos trabalhando com seus colegas economistas para medir o impacto do comércio entre os Estados Unidos e a China. E sua pesquisa sugere que a ansiedade que os americanos sentem em relação à China não é indevida (embora ele não seja de forma alguma um fã de Trump).

Autor acredita que a rápida ascensão da China foi responsável por uma queda de 40% na manufatura dos Estados Unidos e pela perda de mais de 1 milhão de empregos entre 2000 e 2007 e que boa parte disso pode ser atribuída ao "choque comercial" que se seguiu à entrada da China na Organização Mundial do Comércio em 2001.

Stephen Dubner conversou recentemente com Autor sobre a incapacidade dos economistas de antecipar o profundo trauma da globalização e sobre o que podemos fazer para mitigar seus efeitos negativos. Os trechos dessa conversa a seguir foram editados e resumidos.

Stephen Dubner: Economistas como o senhor vêm nos dizendo há décadas que a globalização seria boa para o morador médio dos Estados Unidos. Eu já não me sinto assim. Diga-me se eu estiver errado por não me sentir assim. E diga-me se eu estiver errado em culpar um pouco ao senhor e a seus colegas.

David Autor: Se tivéssemos percebido o quão traumático seria o ritmo da mudança, teríamos no mínimo instaurado políticas muito melhores para ajudar trabalhadores de comunidades que sofreram essas consequências de forma muito severa e imediata. E poderíamos ter tentado moderar o ritmo no qual ela ocorreu.

Os economistas tenderam a não enfatizar o fato de que empregos não têm puramente a ver com renda. Eles são parte da identidade. Eles estruturam a vida das pessoas. E eu acho que isso é boa parte da frustração que vemos em regiões intensamente industriais. Vimos muito disso na última eleição. As pessoas sentem que seu lugar no universo, ou pelo menos na economia, foi reduzido, desvalorizado.

S.D.: Se o presidente Trump o tivesse escolhido como secretário do Trabalho, o que o senhor faria?

D.A.: Eu ampliaria o Earned Income Tax Credit (EITC, Crédito Fiscal sobre Renda Recebida), que é um subsídio federal para pessoas de baixa renda. É um programa realmente eficiente, mas é voltado para adultos com filhos dependentes, especialmente mulheres.

Então se você for uma mãe com dois filhos dependentes, você pode receber até US$ 6 mil (quase R$ 19 mil) por ano em EITC. Mas se você for um homem com filhos dependentes, você pode receber cerca de US$ 500 (cerca de R$ 1.500) por ano em EITC, não US$ 6 mil. Muitos dos homens que estão com dificuldades em achar empregos têm filhos, mas eles não podem declará-los como dependentes.

Acho que existem mudanças tributárias que deveriam ser feitas. Uma delas está sendo discutida pela administração Trump, o chamado "border adjustment" (ajuste de tributação entre fronteiras). É uma história complicada, mas é como um imposto de valor agregado. Se tivéssemos um imposto de valor agregado que fosse cobrado tanto sobre itens produzidos domesticamente quanto itens importados, e ele fosse usado para compensar os encargos sociais, isso teria como efeito basicamente tornar os importados um pouquinho mais caros em relação a bens produzidos dentro do país. Não acho que isso seja uma ideia terrível.

S.D.: No que diz respeito ao custo da globalização, chama-me a atenção o fato de que a visão de Trump se alinha bem de perto com as visões de economistas como o senhor. Onde o senhor se encontra nesse espectro, seja do ponto de vista político ou simplesmente filosófico?

D.A.: Quero ser bem claro: o presidente Trump faz muitas afirmações infundadas sobre o comércio com as quais eu não concordo. Por exemplo, que o Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) foi um desastre para os Estados Unidos. Há pouquíssimas evidências que sugerem que isso seja verdade. O Nafta na verdade foi em sua maior parte uma vantagem para os Estados Unidos.

Também discordo veementemente da ideia de que deveríamos cobrar tarifas altíssimas sobre os importadores. Acho que seria bem prejudicial para os Estados Unidos. Da mesma forma, não sou a favor de forçar as empresas a manterem os empregos aqui se isso for impedir que outros criem empregos por medo de que eles sejam depois forçados a mantê-los. Eu nem mesmo acho que o comércio tenha sido ruim para os Estados Unidos. Eu só acho que ele criou impactos adversos concentrados, que Trump esteve certo em reconhecer.

S.D.: O senhor disse que os economistas não estavam totalmente errados em suas previsões de que o comércio global daria certo. Mas acho que muitas pessoas discordariam disso. Se essa é minha visão, por que deveríamos sequer ouvir o que vocês economistas intelectuais têm a dizer?

D.A.: A evidência na qual os economistas estavam se baseando ao longo dos anos 2000 não estava incorreta para sua época; só calhou de ela não prever totalmente o que viria depois. Percebo que isso não é um grande consolo. Mas estamos em uma posição a partir da qual entendemos melhor quais foram as consequências, e podemos formular políticas melhores no futuro.

Se não tivéssemos economistas tentando avaliar e responder a essas questões, teríamos de nos basear em muitas ideias ruins sobre o padrão-ouro, ou sobre como o comércio só é bom se você exporta e ruim se você importa.

A economia contemporânea é bastante imperfeita, mas acho que pelo menos é guiada por evidências, e os economistas são totalmente capazes de mudar suas visões com base em evidências. Acho que é o máximo que uma ciência social consegue fazer. Não estamos trabalhando com leis naturais que possam ser resumidas tão ordenadamente como uma física newtoniana.

Tradutor: UOL

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