Barack Obama enfrenta o fantasma da Al-Qaeda

Jean-Pierre Filiu*

  • Doug Mills/The New York Times

    O presidente dos EUA, Barack Obama, durante coletiva de imprensa no último dia 27 na Casa <br>Branca, sede do governo dos Estados Unidos

    O presidente dos EUA, Barack Obama, durante coletiva de imprensa no último dia 27 na Casa <br>Branca, sede do governo dos Estados Unidos

Há pouco mais de um ano, o presidente americano fazia no Cairo seu histórico discurso de reconciliação com o Islã. Em nome de valores compartilhados entre os Estados Unidos e o mundo árabe muçulmano, ele exortava uma mobilização geral contra a Al-Qaeda e suas doutrinas mortíferas. Dessa forma, ele fazia uma contraposição aos lamentáveis erros de seu antecessor, com uma nova visão de um islamismo que pertence à fé americana tanto quanto o cristianismo ou o judaísmo. Ele fazia o oposto da “guerra mundial contra o terror” ao visar com determinação a diminuta minoria dos partidários de Bin Laden, inimigos de todas as nações, e não somente dos ocidentais.

Doze meses após essa mão estendida, Barack Obama restaurou parte do crédito dos Estados Unidos nessa região, ainda que a ausência de qualquer progresso tangível na solução da questão palestina continue a ser sua principal deficiência. O aparente encalhe da Otan no Afeganistão também o desfavorece, mas a continuidade da retirada das forças americanas do Iraque tem removido o principal obstáculo deixado pela administração Bush.

Entretanto, foi a recusa em combater a guerra com mais guerra que permitiu a Washington que retomasse a iniciativa contra a Al-Qaeda. Nunca os Estados Unidos estiveram tão próximos de poder virar a página do 11 de setembro como agora, e quanto mais se aproxima esse possível desfecho, mais dramática fica a queda de braço com a organização de Bin Laden.

1. O declínio operacional

Hoje a Al-Qaeda é composta por quatro polos de importâncias diferentes: a “Al-Qaeda central”, direção político-militar refugiada desde o inverno de 2001-2002 nas zonas tribais do Paquistão; a Al-Qaeda para a Península Arábica (AQPA), fundada em 2003 na Arábia Saudita, por instrução de Bin Laden, e que se refugiou no Iêmen após o fracasso de sua campanha terrorista contra o regime de Riad; a Al-Qaeda no Iraque, constituída em 2004 a partir de redes fiéis ao jihadista jordaniano Zarkaoui, e retomada após sua morte em 2006 por um emissário egípcio de Bin Laden, Abu Hamza al-Muhajer; e a Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI), nova denominação em 2007 da principal formação jihadista argelina.

Apesar de sua vocação internacional, a Al-Qaeda se mostra incapaz de estender suas redes para além dessas quatro implantações; ela abandonou abertamente o Sudeste Asiático, enfrenta a implacável hostilidade dos partidos nacionalistas no Oriente Médio, ignora o Cáucaso e chega a se abster de responder às ofertas de serviço dos jihadistas somalis.

A maioria das vítimas do terror da Al-Qaeda continua sendo de muçulmanos mortos em países muçulmanos, sobretudo no Iraque e no Paquistão. Mas a onda de atentados sangrentos em Bagdá desde agosto de 2009 não conseguiu conter o colapso da Al-Qaeda no Iraque, que foi renegada pela participação em massa da população sunita nas eleições de março de 2010, um mês antes da eliminação de Abu Hamza al-Muhajer e de seu braço direito. Na Argélia, o horror causado pelos massacres terroristas obrigou a AQMI a suspender os atentados suicidas. No Iêmen, os chefes tribais que deram sua proteção às células da Al-Qaeda a condicionaram à recusa dos atentados indiscriminados.

No entanto, a organização de Bin Laden busca desesperadamente retomar o terrorismo antiocidental, mas só dispõe de recrutas formados muito rapidamente, enviados em missão sem uma verdadeira estrutura de apoio nem um plano alternativo. Isso explica uma sucessão impressionante de fiascos, que a Al-Qaeda reivindica da mesma forma que suas vitórias, rompendo assim com suas exigências operacionais dos vinte anos anteriores. O único sucesso do qual a Al-Qaeda pode realmente se gabar durante o ano que se passou é o atentado-suicida contra a unidade da CIA em Khost, leste do Afeganistão, onde um agente duplo jordaniano eliminou seu contato e sete de seus colegas, no dia 30 de dezembro de 2009.

Mas esse golpe impressionante, divulgado por um vídeo póstumo do suicida ao lado do líder dos talebans paquistaneses, Hakimullah Mehsud, é mais um produto da obscura guerra entre serviços secretos do que do terrorismo publicitário com o qual a Al-Qaeda se identificou.

2. A contraofensiva muçulmana

A Al-Qaeda, com todas suas ramificações, possui hoje somente 2 mil membros. Mas essa vanguarda autoproclamada e elitista pretende impor seu programa totalitário à massa de seus supostos correligionários, que ela acusa de praticar um “islamismo americano” e convoca a adotar seu novo dogma. Os dirigentes da Al-Qaeda, como Bin Laden ou seu braço-direito egípcio Zawahiri, não têm nenhuma legitimidade religiosa a mostrar, e sua pretensão sectária suscitou uma profunda rejeição por parte do islamismo tradicional ou popular, mas também entre os setores mais militantes do islamismo radical. As condenações, que por muito tempo se limitaram aos círculos do islamismo oficial, agora emanam de seus antigos aliados salafistas ou jihadistas, que criticam sua bricolagem ideológica, ou até sua “traição” do islamismo.

Assim, a Al-Qaeda está pagando o preço de sua dialética entre “o inimigo próximo”, falsamente muçulmano em sua opinião, e “o inimigo distante”, os Estados Unidos e seus aliados. “O inimigo distante” é designado com ainda mais virulência uma vez que o objetivo é atraí-lo para o território do “inimigo próximo”, a fim de desestabilizar este último, pois somente uma escalada militar dessa ordem pode permitir à Al-Qaeda superar sua fragilidade estrutural, ao tirar vantagem do caos causado por uma intervenção ocidental.

E então Zawahiri demonstra publicamente sua vontade de uma guerra entre os Estados Unidos e o Irã, esperando que esta reinicie a dinâmica terrorista dentro do Oriente Médio. A Al-Qaeda no Iraque tenta em vão, com seus massacres de civis, adiar a retirada americana que atesta seu fracasso. E Bin Laden não teme reivindicar o fiasco do Natal de 2009, na (vã) esperança de que os Estados Unidos caiam na armadilha de represálias maciças no Iêmen.

Uma política de “quanto pior, melhor” como essa naturalmente é combatida pelos partidos nacionalistas, que se recusam a serem reféns da dialética cínica da Al-Qaeda. Foi assim que a guerrilha iraquiana, apesar de seu sunismo exacerbado, se voltou contra a Al-Qaeda, bem antes que o general Petraeus iniciasse seu reforço das tropas em 2007 e o desmantelamento progressivo das redes de Bin Laden no país.

Foi no mesmo espírito que o Hezbollah libanês e o Hamas palestino foram implacáveis com qualquer tentativa de infiltração da Al-Qaeda, impedindo-a que se estabelecesse no cenário altamente simbólico do confronto com Israel. Quanto ao mulá Omar, ele certamente nunca renegou seus laços com Bin Laden; mas a insurreição afegã no fundo só conta com suas próprias forças, e foi do outro lado da fronteira com o Paquistão que a Al-Qaeda se refugiou.

3. O confinamento virtual

A Al-Qaeda tem se esforçado para compensar essa série de reveses político-militares ao investir demais na internet como espaço virtual de mobilização. Ali ela martela as teorias da jihad pela jihad, agora rejeitadas até nos círculos mais radicais, que enxergam ali, na melhor das hipóteses, uma corruptela, e na pior, uma heresia, uma vez que a jihad é somente um meio para um fim, sujeito à decisão dos doutores da lei. Bin Laden ignora esse requisito de se recorrer aos clérigos do islamismo e encontra na internet o vetor ideal para a difusão de sua vulgata sectária. A Al-Qaeda coloca online um documento original a cada dois ou três dias, e propaga seus apelos de morte aos “judeus e cruzados”, esperando que sejam ouvidos em algum lugar, que um internauta isolado cometa um ato criminoso, reiniciando assim o círculo vicioso do terrorismo-repressão.

A Al-Qaeda não conseguiu atingir mais nenhum país ocidental desde os atentados de Londres em julho de 2005 e os jihadistas argelinos da AQMI não conseguiram projetar seu terror no norte do Mediterrâneo. Pois a crise do recrutamento jihadista, agravada pela eficácia dos serviços de segurança, atingiu um nível tão alto que a Al-Qaeda teve de se voltar prioritariamente à internet para radicalizar e programar potenciais terroristas. Todos os casos recentes envolvendo a AQMI sobre território francês revelam um importante papel da internet no planejamento operacional. A propaganda da Al-Qaeda vem exaltando, desde novembro de 2009, o massacre de 13 militares na base texana de Fort Hood feito por um oficial americano muçulmano.

É basicamente a transposição da temível dialética entre “o inimigo próximo” e “o inimigo distante” dentro das próprias sociedades ocidentais: como os muçulmanos da Europa e dos Estados Unidos continuam sendo irredutivelmente contra a Al-Qaeda e sua mensagem, somente uma provocação isolada, mas de forte visibilidade, poderá desencadear represálias racistas e abrir um ciclo de violência do qual a Al-Qaeda pretende se aproveitar. Essa aposta no ódio coletivo estava no centro dos atentados de Madrid, no dia 11 de março de 2004, mas a maturidade da sociedade espanhola a suplantou. A exaltação da matança de Fort Hood passou a representar desde então a resposta da Al-Qaeda ao discurso de Obama sobre os Estados Unidos em paz com o islamismo, bem como com ela mesma. Não é tarde demais para levar em conta a ameaça perniciosa veiculada pela ciberjihad, e que a idealização das virtudes da internet escondeu por tanto tempo.

A neutralização dos sites jihadistas e de sua propaganda homicida não apresenta problemas técnicos incontornáveis, contanto que exista uma coordenação mínima entre os diferentes participantes dessa guerra virtual. O espião jordaniano que a CIA acreditava ter recrutado (e que afinal se voltou contra ela em dezembro de 2009 em Khost) se destacava por sua violência na internet, supostamente para reforçar seu disfarce. Mais grave ainda, uma agência americana conseguiu manipular um site jihadista “verdadeiro-falso”, que uma agência concorrente destruiu antes de ser informada. O ciberespaço também é palco de “ataques entre aliados”.

4. O risco da “paquistanização”

Por baixo dessas gabações retóricas, a Al-Qaeda é uma organização que perde fôlego. Colada na fronteira afegã, a “Al-Qaeda central” aposta tudo no território paquistanês, onde goza da antiga proteção do senhor da guerra Jalaluddine Haqqani e de seu filho Sirajuddine, poderosos tanto no Waziristão paquistanês quanto na província afegã de Khost. Mas Bin Laden aposta principalmente na força revolucionária de uma nova geração de extremistas pashtuns que se reuniram em dezembro de 2007 no TTP, o movimento dos talebans paquistaneses.

Dessa forma a Al-Qaeda completa a proteção estática da rede Haqqani pela perspectiva dinâmica do TTP, envolvido em uma cruel campanha terrorista contra o regime de Islamabad. Ela também pode contar com a cooperação dos grupos jihadistas do Punjab e do Sind, como o Lashkar-e-Taiba, responsável pelo ataque de Mumbai em novembro de 2008, que acusam o governo paquistanês de tê-los traído por uma trégua com a Índia.

O comandante Massoud, pouco antes de ser assassinado em 2001 por capangas de Bin Laden, descrevia a Al-Qaeda como a “cola” indispensável para a coesão dos talebans afegãos. A mesma fórmula pode ser aplicada na coalizão paquistanesa de partidos jihadistas, cuja ofensiva revolucionária contra o “inimigo próximo”, a República Islâmica do Paquistão, é potencializada pela Al-Qaeda em nome da luta contra o “inimigo distante” e americano. Muitos prisioneiros capturados durante ofensivas governamentais nas zonas tribais acreditavam estar combatendo as tropas americanas, e não o exército paquistanês.

Barack Obama chama de “câncer” o risco jihadista no Paquistão, e os aviões não-tripulados da CIA fazem ataques mortíferos regularmente contra a Al-Qaeda e seus aliados nas zonas tribais do Paquistão. Bin Laden contra-atacou, enviando um de seus homens contra a base de retaguarda da CIA, do outro lado da fronteira, e depois encorajou o TTP a mirar o território dos Estados Unidos. Foi esse o sentido da provocação do atentado da Times Square, assumido pelo próprio Hakimullah Mehsud, para pegar o “inimigo distante” no Paquistão.

A pista de todos os atentados frustrados nos últimos meses sobre território americano remonta à “Al-Qaeda central” e às zonas tribais. Para o presidente democrata, não se trata somente de “terminar o trabalho” que George W. Bush deixou inacabado, mas de impedir a “paquistanização” da Al-Qaeda e o renascimento de seu terrorismo global. O paradoxo assumido pela Casa Branca é que uma crescente intervenção no Paquistão pode acelerar esse processo, em vez de neutralizá-lo. Um ano após o discurso do Cairo, continua difícil o caminho do tudo ou nada de Obama frente à Al-Qaeda.

*Professor no instituto Sciences Po (departamento de Oriente Médio), Jean-Pierre Filiu recebeu em 2008 o Prêmio Rendez-vous de l’histoire de Blois e foi professor convidado da Universidade de Georgetown. Suas obras sobre o islamismo contemporâneo foram traduzidas em diversas línguas. Ele publicou “As nove vidas da Al-Qaeda” (Fayard, 2009).

Tradutor: Lana Lim

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