A Europa quer garantir seu acesso aos metais raros

Bertrand d'Armagnac

  • Virginia Mayo/AP

    O presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso, em entrevista coletiva no final da cúpula da União Européia (UE), em Bruxelas (Bélgica).

    O presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso, em entrevista coletiva no final da cúpula da União Européia (UE), em Bruxelas (Bélgica).

É a vez da geologia em Bruxelas. O nióbio, a platina, o tungstênio, as terras-raras, além de uma dezena de outras matérias-primas, preocupam a Comissão Europeia, bem como os industriais e os governos. Após dezoito meses de estudos, Bruxelas publicará, na quinta-feira (17), uma lista de 14 metais e famílias de metais “críticos”, importantes para a economia da União Europeia (UE), e cujo fornecimento poderá sofrer o impacto de tensões políticas ou de escassez. Esse documento, que será revisado periodicamente, deve servir de base para um plano que a Comissão pretende apresentar no outono.

Segundo Antonio Tajani, comissário para a Indústria, “três eixos guiarão a ação da Europa”. Além do reforço dos acordos com os países produtores desses metais e do desenvolvimento do potencial mineral em solo europeu, a segurança do fornecimento também dependerá de um melhor domínio da reciclagem.

“O acesso às matérias-primas minerais é o calcanhar de Aquiles do abastecimento da Europa e de sua indústria”, constatava, no início de junho, Ulrich Grillo, responsável pelo comitê de matérias-primas da Federação das Indústrias Alemãs (BDI), durante um colóquio da Associação Franco-Alemã para a Ciência e Tecnologia (Afast).

Conscientização

A preocupação é proporcional à importância do papel exercido pelos metais na criação de produtos inovadores. O desenvolvimento de carros elétricos, a fabricação de lâmpadas LED, a crescente utilização de semicondutores... fazem disparar a demanda mundial por metais raros. A procura por índio, necessário à fabricação de telas planas, deverá ser em 2030 três vezes maior do que em 2006, segundo um estudo do instituto de pesquisas alemão Fraunhofer.

Mas o acesso a determinados minerais poderá se revelar mais difícil no futuro, apresentando um risco real à economia europeia. O problema não vem somente da extração insuficiente de um metal diante da demanda, mas também do controle do recurso por um produtor dominante. As terras-raras, essa família de 17 elementos indispensáveis tanto para a elaboração de veículos híbridos quanto para superligas no setor da aeronáutica, são um exemplo disso. Nos últimos meses, a China,que controla 95% da produção mundial de terras-raras, começou a reduzir suas exportações, provocando tensões entre os industriais ocidentais. Mais de 80% da produção mundial de nióbio, utilizado para os ímãs supercondutores, vem do Brasil. Da mesma forma, o acesso ao tântalo, indispensável para a indústria de telecomunicações, pode sofrer com a instabilidade da República Democrática do Congo.

A lista de quatorze metais e famílias de metais divulgada pela Comissão faz parte de um grupo mais amplo com cerca de quarenta elementos, aos quais Bruxelas está atenta. À medida que forem surgindo novas necessidades industriais ou tensões políticas e econômicas, alguns deles poderão entrar na lista “crítica”. O lítio poderá ser um dos próximos candidatos, em função do aumento das vendas de veículos elétricos e do estado dos recursos mundiais. Da mesma forma, Patrick Kim, diretor de engenharia de materiais da Renault, ressalta que “o cobre deve ser acompanhado com atenção, pois é difícil de substituir e é primordial para aplicações elétricas, cada vez mais numerosas”.

Frente a esses riscos, a Comissão se prepara para tomar iniciativas. Primeiro, conduzindo uma política comercial internacional mais voluntarista, para não deixar o campo livre aos industriais chineses ou norte-americanos, especialmente na África. “Precisamos encontrar uma complementaridade entre nossa estratégia de desenvolvimento e nossa política de matérias-primas”, comenta-se no círculo do comissário Tajani.

Alavanca da reciclagem

No dia 8 de junho, por exemplo, a Comissão Europeia encontrou a Comissão da União Africana para, entre outras coisas, esboçar uma parceria em torno das matérias-primas. Isso se traduziria em investimentos europeus sobre infraestrutura, especialmente em torno de bacias de minérios, e em um trabalho coletivo de avaliação dos recursos geológicos africanos. A ação comercial também inclui recorrer à Organização Mundial do Comércio, como é o caso atualmente na disputa sobre os metais raros que opõe a União Europeia e os Estados Unidos à China.

A Comissão também quer facilitar a exploração dos recursos minerais europeus. Especialmente, explica Tajani, evitando uma aplicação rígida demais da diretiva sobre as zonas protegidas, a Natura 2000. Uma proposta que certamente desagradará às organizações ambientalistas. A terceira alavanca que Bruxelas pretende empregar é a da reciclagem e da substituição dos metais mais críticos. Para isso é preciso adotar novas regulamentações e aumentar o apoio à pesquisa.

A implantação do plano da Comissão ainda está engatinhando, mas ela marca uma conscientização política importante.

 

Tradutor: Lana Lim

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