O cotidiano imóvel de Cuba: a revolução continua impondo seu ritmo, mas as mudanças são subjacentes

Pierre Habas

  • 01.mai.2007 - EFE

    Cubano exibe foto de Fidel Castro durante festa do Dia do Trabalho, na capital Havana

    Cubano exibe foto de Fidel Castro durante festa do Dia do Trabalho, na capital Havana

Um leve ruído de carro e todo mundo desaparece como uma revoada de pardais: o jovem com os falsos charutos de marca que se preparava para vender a um casal de turistas espanhóis; uma mulher em idade madura e seus colares feitos de sementes, oferecidos a uma italiana. E Aurora, que contava sua vida cotidiana complicada.

Em Trinidad, uma pequena cidade no sul da ilha de arquitetura colonial intacta, a circulação de carros é proibida na praça de armas e nas ruas que levam a ela. O murmúrio de um motor só poderia, portanto, anunciar a chegada de uma patrulha policial. Foi o que se viu.

"Se eles tivessem me pegado falando com um estrangeiro, poderiam me atirar na prisão por quatro anos", jura Aurora, depois que o alarme passou. Aurora ousa falar com estrangeiros, embora afirme ser uma "revolucionária". "Ser revolucionária hoje em Cuba significa me aplicar ao meu trabalho de varredora municipal. E não falar com os americanos [culpados por impor o embargo econômico a Cuba]", explica a jovem.

Mas Aurora, ex-membro das juventudes comunistas, também pede ajuda aos turistas. Obrigada e forçada. "Eu ganho 200 pesos por mês [o equivalente a menos de 10 euros]", afirma. "A metade vai para pagar a eletricidade. A água me custa 5 pesos e o aluguel, 20 pesos pagos ao Estado. Todo o resto é para a alimentação. As roupas, os sapatos, os turistas me dão." Por que não pede um aumento de salário? A pergunta a faz sorrir. "Isso não se faz aqui. Há seis anos que tenho esse trabalho e os salários não se mexeram", diz.

Em Havana, a mesma vida dura, maior revolta. Empregado que faz de tudo em uma escola, Ricardo mora com sua mulher e a filha no bairro histórico da capital, a dois passos da catedral e dos edifícios coloniais delicadamente restaurados que atraem os turistas. Mas Ricardo vive em outro mundo, no meio de um pátio dos milagres em miniatura feito de apartamentos que mal ficam de pé, escadas que vacilam, encanamentos que correm junto ao solo, cabos elétricos que balançam em desordem acima das cabeças. As pessoas gritam, se beijam, se chamam em um ambiente ruidoso e caloroso.

"A solidariedade esconde nossa miséria", resume Ricardo. A miséria é dividida desigualmente no bairro. Do último andar do prédio, Ricardo aponta para um apartamento próximo. No terraço, um homem de short com uma barriga tranquilizadora rega plantas viçosas. É um ex-oficial. Hoje ele preside o Comitê de Defesa da Revolução (CDR) do bairro. É um homem poderoso.

Em Cuba, depois de mais de meio século de partido único, o CDR é a peça mestra do controle social. É o intermediário do poder, seu olho e seu braço armado, seja para mobilizar "a base" antes de uma manifestação, para reunir os moradores de um edifício para comentar o último discurso de um dirigente do país ou implementar uma campanha de vacinação. "Se os CDR desaparecerem, o regime desmorona", resume Ricardo.

Há pouco tempo nesse bairro de Havana –assim como em outras cidades–, os membros do CDR fizeram um porta-a-porta para convidar os habitantes a votar nas eleições locais e a participar do tradicional desfile de 1º de Maio. Missão cumprida: o índice de participação na votação superou 90%, e mais de um milhão de pessoas (um em cada dois habitantes da capital) teriam desfilado na Praça da Revolução. "É claro que eu votei e que estive no desfile de 1º de maio", diz Ricardo. "Se não, ao menor deslize, teriam me demitido."

"Eu vivo do aluguel de dois quartos para turistas. Todo ano tenho de renovar minha licença turística. Eles a retirariam se eu não seguisse os lemas dos CDR", explica por sua vez um morador do Vedado, o bairro mais rico da capital. Apesar de a conversa ocorrer em um ambiente privado, os cubanos não deixam de criticar o regime.

Eles continuam esperando as "reformas estruturais" prometidas por Raúl Castro, 79, depois da aposentadoria de seu irmão mais velho, o "comandante" Fidel: contra a burocracia detalhista e onipresente; contra a morte programada do carnê de alimentação, a "libreta", e seus preços ridículos que aliviam as carteiras.

"A caderneta é basicamente 3 quilos de arroz por pessoa por mês, 230 gramas de picadinho de soja, 500 gramas de peixe (incluindo as espinhas), o mesmo tanto de frango, 9 ovos, um quarto de litro de óleo, um pouco de leite –para os que têm crianças–, um sabão e um tubo de dentifrício. O resto é preciso comprar a preço alto nas lojas do Estado não subvencionadas", queixa-se uma moradora da capital. "A caderneta só cobre um terço das necessidades mensais de um indivíduo", garante um diplomata ocidental. E explica: "É um modo de vida espartano."

Somente a educação (obrigatória e de boa qualidade) e a saúde (gratuita) escapam às críticas. Para os habitantes enredados nas dificuldades da vida cotidiana, a situação desastrosa das liberdades públicas parece secundária. Poucos cubanos falam sobre isso, mesmo que vários deles saibam que um grevista de fome morreu em fevereiro, que a vida de outro está por um fio e que todo domingo esposas de prisioneiros políticos, o movimento das Damas de Branco, se reúnem para marchar em silêncio em um bairro da capital.

As informações vêm das televisões de língua espanhola da Flórida, bem próxima, captadas pelas parabólicas coletivas escondidas nos tetos de Havana ou de outras cidades. "Fazemos a assinatura principalmente pelos jogos e as séries de televisão. As notícias são um extra", explica Ricardo.

Os que são apanhados pela polícia correm o risco de multa e do confisco do televisor. Em uma pequena parte do Paseo de Martí, uma larga avenida que atravessa o centro de Havana, outra especificidade cubana espera o visitante: a das permutas.

Em Cuba é proibido comprar ou vender um imóvel. Legalmente, só se podem trocá-los. E é no Paseo de Martí que as transações são feitas entre os candidatos. É preciso se armar de uma paciência infinita nessa busca em que o tempo se mede em anos, mais que em meses. "Estou começando minha pesquisa", conta Samuel, um ex-tripulante de submarino formado na União Soviética que há dois meses percorre todo sábado o Paseo pronto para saltar sobre qualquer cabeça nova. Samuel gostaria de trocar seu apartamento, grande, mas no térreo, por uma moradia menor, mas situada em um andar elevado. "Pode interessar a pessoas mais velhas", afirma.

Agente imobiliário não é a única profissão inconcebível em Cuba. Ser diretor de pessoal de uma empresa estrangeira também é improvável. O ex-patrão –europeu– de uma empresa mista conta como a gestão do pessoal era de certa forma exteriorizada: "Um órgão público, o Acorec, fornece os funcionários. Quando precisamos de um operário ou de um diretor, lhes enviamos o perfil do cargo e eles propõem um candidato. Se não convier, pedimos outro."

Outro tema de surpresa envolve os salários dos empregados das empresas mistas. Eles são pagos em divisas estrangeiras, que não vão diretamente para os assalariados, mas para o Estado, que devolve uma parte ínfima aos interessados. Explicação oficial: não se devem encorajar as desigualdades salariais na ilha. As palavras de ordem desgastadas que enchem os muros das aglomerações (exceto as frequentadas pelos turistas), a linguagem formal que torna insuportável a leitura dos jornais, o culto quase religioso de Che Guevara, mais de 40 anos depois de sua execução na Bolívia, a idade avançada dos dirigentes cubanos...

Tudo parece reforçar a imagem de um país paralisado, impermeável à mudança. A realidade é mais matizada. O modelo cubano começa a rachar. A iniciativa privada é incentivada. As profissões "menores" (cabeleireiro, motorista de táxi, etc.) estão sendo privatizadas. Em Vinales, na extremidade oeste da ilha, é incentivado o desenvolvimento da agricultura privada. Selvagem e verdejante, a região se dedica à cultura de tabaco.

Foi aqui, em 1973, que foi inaugurada por Fidel Castro a primeira cooperativa agrícola da ilha. Batizada de "República do Chile", ela continua lá com suas centenas de cooperantes assalariados, abrigados em edifícios coletivos, seus quatro tratores bielo-russos incansáveis, suas faltas crônicas de combustível e de fertilizantes, seus campos abandonados e seus slogans que exaltam a "aliança entre operários e camponeses".
Como os membros da cooperativa explicam que Cuba, apesar de ter uma terra rica, um sol generoso, chuvas abundantes, importe cerca de 80% de seus produtos alimentares? "É um verdadeiro problema", admite Lucia, membro do escritório da cooperativa. “Raúl [Castro] falou sobre isso. Estamos preparando um plano de substituição das importações."

Perto dali, do outro lado da estrada, outros agricultores, que encarnam o modelo alternativo. Eles ainda não têm tratores, mas bois para explorar suas terras. Eles os receberam em herança ou os alugam do Estado –uma possibilidade inimaginável alguns anos atrás. Os agricultores privados ainda são poucos na ilha –pouco mais de 100 mil– mas seu número está aumentando. O Estado os mantém sob tutela: tem o monopólio do fornecimento de fertilizantes e os privados são obrigados a lhe vender 90% da produção.

A liberdade de empresa é, portanto, relativa. Mas as fazendas privadas já garantem dois terços da produção agrícola de Cuba. "Sem nós, as pessoas comeriam terra", diz um agricultor.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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