Crise financeira muda fluxos migratórios e promove forte desaceleração

Brigitte Perucca

  • 02.03.2010 - Susana Vera/Reuters

    Espanhóis fazem fila em um centro do governo em busca de emprego

    Espanhóis fazem fila em um centro do governo em busca de emprego

A Espanha é onde a demanda dos empregadores mais cai, segundo o relatório 2010 da OCDE

A imigração sofreu uma desaceleração em quase todo o mundo sob efeito da crise. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que apresentou na segunda-feira (12) seu relatório sobre as Perspectivas de Migrações Internacionais 2010, as entradas de migrantes “permanentes” – que possuem um visto de permanência renovável – tiveram uma queda de 7% em 2008, para 4,18 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, as migrações temporárias – visto de permanência não renováveis – caíram 4%, para 2,31 milhões de pessoas.

Em compensação, a imigração familiar avançou 3%, assim como a de caráter humanitário (+14% para os que pedem asilo). Essas baixas registradas em 2008 já haviam sido confirmadas pelas primeiras tendências observadas pela OCDE para 2009. Acima de tudo, elas ocorrem após cinco anos de alta contínua (11% desde 2003).

Essa queda se concentra sobre os fluxos migratórios ligados ao trabalho. A explicação para isso seria ou uma forte queda na demanda dos empregadores, como nos Estados Unidos, ou a adoção de políticas restritivas: a Espanha reduziu a lista de profissões em escassez, ao passo que a Coreia do Sul diminuiu a “cota de estrangeiros”.

Nos espaços de livre circulação, como a União Europeia, as quedas são ao mesmo tempo mais amplas, mas mais bem reguladas: um imigrante hesitará menos em abandonar seu projeto ou a voltar ao país, pois ele sabe que poderá ir e voltar com mais facilidade. Em matéria de imigração permanente, fortes quedas se concentram na Espanha (-43%), na República Tcheca (-27%), na Itália (-26%) e na Irlanda (-24%). Em compensação, muitos países permaneceram no embalo em 2008, mantendo fluxos de entrada elevados, pois foram atingidos tardiamente pela crise, como em Portugal (+54%).

As variações dos grandes países de imigração europeia são pequenas: -5% no Reino Unido, -2% na Alemanha e +4% na França. Dentro da União Europeia, o caso da Suécia é atípico: apesar da crise, Estocolmo manteve uma forte política de abertura de suas fronteiras: os pedidos de vistos de trabalho cresceram 30% entre 2008 e 2009, e 85% deles tiveram uma resposta favorável. O território americano também não fechou suas fronteiras: os Estados Unidos receberam 5% a mais de imigrantes entre 2007 e 2008 e o Canadá, mais 4%.

Mas algumas dessas quedas ou desses aumentos devem ser relativizados, indica a OCDE. Em diversos países, os números são um pouco distorcidos. Na Itália, por exemplo, as estatísticas aumentaram durante a integração dos romenos e dos búlgaros que entraram clandestinamente no país. Mas elas diminuíram na mesma proporção, por causa da adesão dos dois países à União Europeia, em 2007.

Em Portugal, o forte aumento do número de imigrantes registrados está ligado à “consequência de um programa especial que permite aos brasileiros que chegaram ao país há vários anos regularizarem sua situação, e que portanto sejam incluídos nas estatísticas”, observa o relatório.

A classificação dos Estados muda um pouco se forem consideradas as migrações temporárias (que incluem os trabalhadores sazonais), que representam a dimensão mais indiscutível da demanda de mão de obra. A Holanda, que registra uma queda nas entradas de trabalhadores temporários (-67%), mas também a Itália (-39%), a França (-25%) e o Reino Unido (-18%) figuram no topo da lista. Nos Estados Unidos, segundo a OCDE, “o número de pedidos de trabalhadores temporários também caiu”, passando de 729 mil pedidos em 2007 para 479 mil em 2009. Na Austrália, os pedidos dos empregadores por trabalhadores temporários qualificados caíram 60% em 2009, em relação ao ano anterior. Na Espanha, o programa de emprego de trabalhadores sazonais registrou uma queda ainda mais impressionante: os pedidos, que eram de 41.300 em 2008, caíram para 3.600 em 2009.

Em época de recessão, a mão de obra estrangeira exerce um papel de amortecedor sobre o mercado de emprego e essa crise não foge à regra. De 2008 a 2009 o índice de desemprego dos migrantes cresceu em todos os países da OCDE, que lamentam o impacto desproporcional da crise econômica sobre o emprego dos imigrantes.

As mulheres se saem melhor do que os homens, especialmente porque elas ocupam um emprego no setor social, menos afetado pela crise. Mas “em todos os casos – com exceção do Reino Unido - , a alta do desemprego é mais rápida do que para os nativos”, afirma o relatório.

Tradutor: Lana Lim

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