Existe um "território comum aos interesses do Líbano e da Síria", diz Saad Hariri

Cécile Hennion e Gilles Paris

Enviados especiais a Beirute (Líbano)

  • Dalati Nohra/EFE

    O primeiro-ministro do Líbano, Saadi Hariri

    O primeiro-ministro do Líbano, Saadi Hariri

Saad Hariri nos recebe em Beirute, em seu novo quartel-general, Beit al-Wasat, a “casa do meio”, instalada junto ao Palácio do governo, em uma área sujeita a regras de segurança draconianas. O jovem primeiro-ministro de 39 anos tem feito diversas viagens desde que compôs seu governo. Ele acaba de voltar, nessa segunda-feira, 18 de janeiro, dos Emirados Árabes, antes de uma visita de três dias a Paris, de 20 a 22 de janeiro, e depois uma outra ao Egito. Após essa entrevista, em francês, ele receberá o sayyed Ammar al-Hakim, novo chefe do Conselho Supremo Islâmico do Iraque, o poderoso partido xiita, de passagem pelo Líbano.

Le Monde: Foram necessários cinco meses de negociações para formar seu governo, foi um início difícil?

Hariri: Foi uma oportunidade de devolver calma e estabilidade ao Líbano. Esse período de negociações nos permitiu abrir o diálogo com os partidos, como o Hezbollah e (a Corrente Patriótica Livre de) Michel Aoun, com os quais não conversávamos mais. Precisamos nos unir para apresentar uma agenda de reformas econômicas, de reconstrução das instituições, de investimentos no exército e na polícia.

O que realizamos nesses últimos cinco anos? Após o assassinato de meu pai (Rafik Hariri, em 14 de fevereiro de 2005), a Síria saiu do Líbano e finalmente conseguimos estabelecer com ela relações diplomáticas. Isso pode parecer normal ou insignificante, mas é uma novidade. Em segundo lugar, nós conseguimos a criação de um Tribunal Internacional (para esse assassinato) que faz seu trabalho. Em terceiro lugar, nós vencemos as eleições. É preciso proteger essa conquista e consolidá-la.

Le Monde: O sr. destacou a influência positiva exercida pela Síria e Arábia Saudita.

Hariri: O rei Abdallah da Arábia Saudita iniciou uma reconciliação árabe num momento em que ninguém queria acreditar nela. Ela nos ajudou a reencontrar um pouco de calma e estabilidade. Foi nesse contexto que fui para a Síria (que alguns libaneses suspeitam ser responsável pelo assassinato de Rafik Hariri). Eu tinha de servir de exemplo, não tanto como Saad Hariri, mas na condição de primeiro-ministro de todos os libaneses.

Le Monde: Como foi seu encontro com Bashar al-Assad?

Hariri: Churchill disse: “É preciso coragem para se levantar e falar, mas também para se sentar e ouvir”. Eu estava exatamente nesse estado de espírito. O presidente Bashar e eu conversamos com franqueza, sobre todos os assuntos. Tivemos relações tensas, mas acreditamos ter encontrado um território comum aos interesses do Líbano e da Síria. Mas na medida em que essas relações foram extremamente difíceis durante cinco anos, é preciso manter a calma e a paciência para conseguir ter progressos.

Le Monde: O presidente Assad disse algo à pessoa de Saad Hariri?

Hariri: Não. E ele mesmo teve o cuidado de distinguir a função do homem. Por exemplo, durante a leitura do comunicado comum, no qual meu representante havia escrito “Saad Hariri”, o próprio presidente Bashar se corrigiu, falando em “primeiro-ministro do Líbano”.

Le Monde: Qual a sua avaliação dos atuais riscos na fronteira entre Líbano e Israel?

Hariri: Tememos uma intervenção israelense. Na semana passada, foram realizados 25 sobrevoos da aviação israelense em um único dia no espaço aéreo libanês.

Israel pensa que, atingindo o sul do país, não é o Líbano inteiro que está atacando, ou que quando atinge Dahhieh (subúrbio sul de Beirute, domínio do Hezbollah), não se trata do Líbano? É absurdo. Em 2006, o que fizeram os israelenses? Cada ponte do Líbano foi destruída. Não foi um ataque contra o Líbano?

Le Monde: Em 2006, o conflito começou após um ataque do Hezbollah.

Hariri: Isso é o suficiente para destruir o Líbano? Israel pode arrumar qualquer pretexto. Israel nem mesmo precisa de pretextos.

Le Monde: As sanções da comunidade internacional contra o Irã poderiam ter repercussões negativas no Líbano?

Hariri: Não, pois se essas sanções acontecerem, serão um ato da comunidade internacional.

Le Monde: Mas na condição de membro do Conselho de Segurança da ONU, desde o início deste ano, o Líbano deverá se pronunciar.

Hariri: No Conselho de Segurança, o Líbano representa também os países da Liga Árabe. No final, quando for levantada a questão, e só se ela for levantada, nós tomaremos nossa decisão em função dos interesses libaneses. Cada país tem direito de tomar uma decisão à luz de seus próprios interesses. É algo legítimo.

Le Monde: A presença no governo do Hezbollah, que figura na lista americana das organizações terroristas, constitui um entrave nas discussões entre o Líbano e os EUA a respeito da ajuda militar pedida por vocês?

Hariri: No Líbano, há um partido político que se chama Hezbollah, que participa de um governo muito mais amplo, e nós explicamos a todo o mundo sobre a necessidade de equipar nosso exército. Antes do assassinato de meu pai, a Síria ocupava o Líbano. Todo o exército e a segurança libaneses estavam em suas mãos. Há cinco anos, nós, libaneses, tentamos assumir a reorganização do exército e da segurança.

Durante os combates de Nahr al-Bared (em 2007, contra o grupo jihadista Fatah al-Islam), nós não tínhamos nenhum equipamento apropriado para enfrentar esses terroristas. Nenhum apoio aéreo, somente alguns helicópteros Puma. Nos cinco últimos dias de combates, o exército fabricou uma bomba de 1 tonelada erguida à mão por um sistema de polias em um helicóptero antes de ser lançada! Mas os americanos nos ajudaram, e continuam a fazê-lo, assim como a França.

As relações entre o Líbano e a França são tão fortes sob a presidência de Nicolas Sarkozy quanto eram sob a de Jacques Chirac.

*Artigo publicado em 21.01.10

Tradutor: Lana Lim

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