Avalanche de rupturas diplomáticas

Louis Imbert

O agravamento da crise entre a Arábia Saudita e o Irã reduz as esperanças de se ver o surgimento de uma solução negociada na Síria e no Iêmen, onde esses dois países se enfrentam por meio de aliados. Iniciativas internacionais começaram a surgir na segunda-feira (4) para tentar apaziguar as tensões.

A Arábia Saudita rompeu suas relações diplomáticas com o Irã após o ataque contra sua embaixada em Teerã, na noite de sábado (2), por partidários radicais do regime. Esse ataque ocorreu um dia após a execução do clérigo xiita saudita Nimr al-Nimr, criticada por Teerã. Na segunda-feira, três aliados da Arábia Saudita seguiram o exemplo de Riad, ampliando o caráter regional da crise. Bahrein e o Sudão anunciaram que também estavam cortando suas relações diplomáticas com a República Islâmica do Irã, e os Emirados Árabes Unidos reduziram suas relações, chamando de volta seu embaixador e mantendo em Teerã somente um simples encarregado de negócios.

O Kuait também convocou seu embaixador na manhã de terça-feira. Ao mesmo tempo em que pressionava os países sunitas da região a se posicionarem nesse conflito, Riad endureceu ainda mais seu discurso na segunda-feira, anunciando a interrupção de suas conexões aéreas com Teerã e sua intenção de acabar com um comércio bilateral já limitado.

Diante dessa escalada, que poderia definitivamente inflamar o Oriente Médio, tímidas iniciativas de mediações começam a surgir. A Rússia, aliada do Irã na Síria, onde os dois países combatem ao lado do regime de Bashar al-Assad, indicou na segunda-feira estar "disposta a apoiar" um diálogo entre Teerã e Riad. Moscou, que evitou condenar qualquer um dos lados, é um dos poucos atores internacionais que mantêm contatos contínuos com todos os integrantes da crise.

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, falou por telefone na segunda-feira com seus colegas do Irã, Mohammad Javad Zarif, e da Arábia Saudita, Adel al-Jubeir, para passar uma mensagem de conciliação. No domingo, Washington havia insistido na importância de se manter "um envolvimento diplomático e discussões diretas", e fez um apelo para que os dirigentes do Oriente Médio "acalmem as tensões", uma crítica implícita à estratégia saudita de ruptura dos canais diplomáticos.

A Turquia, que havia se reaproximado da Arábia Saudita nos últimos meses, graças à crise síria, para enfrentar o presidente sírio, Bashar al-Assad, criticou tanto Riad quanto Teerã na segunda-feira, fazendo um apelo para que "renunciem imediatamente" a essa escalada.

Além disso, o enviado da ONU para a Síria, Stafan de Mistura, deverá visitar Teerã durante essa semana, como parte de seus esforços para relançar as negociações de paz na Síria. A ONU convocou o regime Assad e seus opositores para negociações no dia 25 de janeiro em Genebra. Estas devem conduzir, de acordo com o processo negociado sobretudo pela Arábia Saudita e pelo Irã, que se sentaram à mesma mesa pela primeira vez sobre esse assunto em Viena no outono de 2015, a uma transição política nos próximos seis meses, após cinco anos de guerra e mais de 250 mil mortes. Todo esse processo agora foi comprometido pela crise em andamento, mas a missão de Mistura para a Síria poderá se transformar em uma mediação saudita-iraniana.

Frente do boicote sunita

Para a satisfação saudita, na segunda-feira, o Conselho de Segurança da ONU ainda "condenou o mais firmemente possível os ataques" contra as missões diplomáticas sauditas no Irã. Jubeir havia refutado previamente a ideia de que seu país havia sido responsável pela crise em andamento, por considerar que a execução do clérigo Al-Nimr dizia respeito a questões internas do reino: "Não há escalada por parte da Arábia Saudita. Só estamos reagindo."

Além disso, o chefe da diplomacia saudita voltou a justificar a execução de 47 pessoas, no sábado, na Arábia Saudita, a maioria de militantes sunitas ligados à Al-Qaeda, mas também o opositor xiita Nimr al-Nimr. "Devíamos ser aplaudidos por isso, não criticados", opinou Jubeir.

A frente do boicote sunita que Riad pretende formar em torno do Irã continua modesta, por enquanto. A reação do Bahrein era esperada: o arquipélago, dirigido por uma monarquia sunita muito próxima de Riad e povoada majoritariamente por xiitas, já havia expulsado o encarregado de negócios iraniano de sua capital, Manama, em outubro, e chamou de volta seu embaixador. Ele havia então acusado o Irã de passar armas para grupos radicais xiitas locais que, segundo ele, vinham sendo encorajados por Teerã desde as manifestações da "Primavera Árabe" em 2011.

O Sudão, que foi próximo de Teerã até 2014, se reaproximou desde então da Arábia Saudita e em março se juntou à coalizão de países árabes sunitas reunida por Riad em sua guerra no Iêmen. Essa coalizão é explicitamente destinada a conter a influência do Irã na região. Riad acusa Teerã de instrumentalizar os rebeldes houthi, de obediência zaidita (um ramo do xiismo), que levaram o presidente Abd Rabo Mansour Hadi ao exílio, e de procurar armá-los em sua fronteira.

Os Emirados, membros inicialmente majoritários da coalizão saudita, se distanciaram desde então. Dubai abriga uma comunidade iraniana numerosa, uma ponte econômica indispensável para o Irã, que espera para o início do ano a retirada das sanções econômicas internacionais após o acordo sobre a questão nuclear fechado em julho, em Viena.

"Gueto xiita"

Esses três países insistiram nos riscos que o Irã representa para a segurança da região ao apoiar milícias armadas no Líbano, no Iraque e no Iêmen. Eles seguem assim a linha saudita, lembrada na segunda-feira por Jubeir: "Os iranianos é que foram para o Líbano (uma alusão ao apoio da República Islâmica para o Hezbollah libanês). São os iranianos que estão enviando para a Síria a força Al-Qods e os Guardiões da Revolução", os braços armados do regime iraniano. A reação de Riad para o ataque à sua embaixada também faz parte dessa denúncia de um Irã considerado incapaz de agir "como um país normal".

"A dimensão revolucionária da política externa iraniana é, em parte, seu ponto fraco. A Arábia Saudita entendeu isso muito bem e se aproveita para fechar o Irã em um gueto xiita em nível regional", acredita Clément Therme, pesquisador associado do EHESS.

Já o Irã mantinha na segunda-feira sua linha de conduta responsável, elaborada no decorrer das negociações sobre a questão nuclear. O país enviou ao Conselho de Segurança da ONU uma carta de repúdio pelo ataque contra as representações sauditas e prometeu "prender e processar todos aqueles que o provocaram".

Enquanto o ministro das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif, intensificava seus contatos com o Ocidente, o aiatolá ultraconservador Ahmad Khatami considerava que "não ganhamos nada atacando embaixadas e incendiando-as". É um sinal de que a linha seguida pelo presidente Hasan Rowhani, aberta para uma normalização das relações internacionais do país, continua sendo uma prioridade para o regime, à espera de investimentos estrangeiros indispensáveis para sua economia.

Tradutor: UOL

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