Estudo relaciona poluição do lixo ao surgimento de doenças graves em Nápoles

Philippe Ridet

  • Alessandro Bianchi/Reuters/

    Soldado do Exército italiano toma conta de uma grande quantidade de lixo em uma estrada no sul da Itália

    Soldado do Exército italiano toma conta de uma grande quantidade de lixo em uma estrada no sul da Itália

Agora é oficial. Segundo um relatório encomendado pelo Parlamento italiano ao Instituto Superior da Saúde (ISS), existe de fato uma relação de causa e efeito entre a poluição gerada pela combustão ou pelo enterramento de resíduos tóxicos e o número elevado de mortes e de doenças graves constatado na região de Nápoles (Campânia), especialmente entre crianças e bebês. Divulgado no dia 30 de dezembro de 2015, esse estudo passou quase despercebido.

Entretanto, até dois anos atrás era só disso que se falava. Após a publicação do livro do escritor-jornalista Roberto Saviano, "Gomorra" (Ed. Gallimard, 2008), que colocava em evidência as relações entre os industriais do Norte e os membros da Camorra, a máfia napolitana, encarregados de sumir com os resíduos tóxicos produzidos na Itália setentrional por preços que desafiavam qualquer concorrência, várias associações de moradores se alarmaram com os riscos que eles corriam. "Munnezza è oro" ("o lixo é de ouro"), afirmavam os mafiosos locais.

Arrumaram até um nome para designar as 55 comunas da Campânia mais expostas a esse tráfico: la terra dei fuochi, "a terra dos fogos". Isso porque dia e noite, tanto no verão quanto no inverno, fumaças nauseabundas assinalavam que entre uma plantação de tomates e pés de morango estavam queimando resíduos industriais em total impunidade.

No dia 30 de dezembro, veio o veredicto do ISS: "O número elevado de internações nesta região se deve a uma exposição a uma combinação de contaminantes ambientais que podem ser emitidos pelo enterramento de resíduos perigosos e/ou à sua combustão não controlada".

"Sommelier do fedor"

Há vários anos que dezenas de pequenas associações de moradores vinham tentando em vão fazer com que isso fosse reconhecido. Mães de família mandaram imprimir em cartões postais fotos de seus filhos que morreram brusca e repentinamente. No entanto, elas eram vistas com desconfiança.

Foi só em julho de 2012 que, sob coordenação do padre de uma paróquia de Caivano, Maurizio Patriciello, o poder público começou a medir a extensão do desastre. Nesse dia, as associações que lutavam sozinhas até então se uniram para dar origem ao Comitê da Terra dos Fogos.

Em novembro de 2013, dezenas de milhares deles estiveram em Nápoles sob uma chuva torrencial para denunciar aquilo que se convencionou chamar desde então de "ecocídio".

"Sou sommelier do fedor", declarou Don Maurizio Patriciello em dezembro de 2013 ao "Le Monde".

Dependendo da direção dos ventos, esse padre consegue detectar um odor de arsênico aqui, um aroma de chumbo ali, um perfume de tetracloreto acolá. Mas as incinerações não são as únicas culpadas. A percolação, efeito produzido pelo escoamento das águas de chuva sobre as montanhas de detritos, contaminou os terrenos de onde saem frutas e legumes.

O maior desses aterros tem 200 metros de comprimento por 100 metros de largura por 10 metros de altura. Cerca de 806.530 toneladas de lixo são enterradas ali.

Por muito tempo o poder público negou o problema, preferindo ver nas doenças dos moradores consequências de uma má higiene. Contudo, aos poucos eles tiveram de decidir enfrentar a situação. Alguns terrenos foram declarados "incultiváveis", o que teve por efeito aumentar as dificuldades econômicas em uma região já cheia delas; as penas ligadas ao tráfico de lixo foram aumentadas.

Agora, graças ao relatório do ISS, os residentes da terra dos fogos sabem que eles tinham razão para ter medo. Ainda que eles não neguem a influência do "estilo de vida" (tabagismo, obesidade), os cientistas colocam em evidência que o índice de mortalidade decorrente de problemas respiratórios na província de Nápoles é 6% superior ao do resto da Itália.

"Mas será que por isso podemos cantar vitória? De jeito nenhum", escreveu Maurizio Patriciello no jornal do episcopado italiano, "Avvenire", na edição de 2 de janeiro. "Nessa história vergonhosa, triste e dolorosa, perdemos tudo. Inclusive o Estado. Que agora ele faça o que for preciso para impedir que a terra dos fogos produza novas vítimas."

Tradutor: UOL

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